ONCOLOGIA CIÊNCIA E AMBIENTE - PODE UM TESTE GENÉTICO ACELERAR O TRATAMENTO DO CANCRO DA BEXIGA?
2026-05-27 21:09:15

Estudo liderado por uma equipa de investigadores portugueses trilha caminho para aplicação de teste genético para diagnosticar cancro da bexiga metastático nos hospitais em Portugal Quando o cancro da bexiga se espalha por outros órgãos e, portanto, se torna metastático, as hipóteses de tratamentos escasseiam. Mas, para alguns casos, existe uma opção. Um em cada cinco doentes tem um gene (o FGFR3) alterado e podem benefi# ciar de um fármaco destinado precisamente aos cancros que têm esta característica tão particular. Qual é, então, a solução? Um estudo português pede que quem tem diagnóstico de cancro da bexiga metastático faça também um teste genético para acelerar o processo nos doentes que podem beneficiar destes tratamentos focados no FGFR3. Não é uma solução universal para todas as pessoas com cancro da bexiga, mas abrange uma população cuja sobrevivência é fortemente prejudicada pela disseminação do tumor. Enquanto no cancro da bexiga localizado, a taxa de sobrevivência dos doentes cinco anos após o diagnóstico é de 71,7%, esse valor baixa drasticamente para quem tem carcinoma urotelial metastático (o cancro da bexiga metastático mais comum): a sobrevivência, cinco anos após o diagnóstico, ronda os 8%. “O cancro não surge apenas de uma mutação, mas algumas têm um papel mais importante”, sublinha André Mansinho, médico do consórcio de investigação em cancro Start, em Lisboa. Os genes FGFR estão muito associados à proliferação desenfreada do ciclo celular, motivando o tumor maligno a crescer. A presença de mutações no gene FGFR3 não ajuda os pacientes, mas já há fármacos que podem ser úteis. Nomeadamente, o erdafitinib, um medicamento que bloqueia as “estradas” que comunicam a necessidade de proliferação do cancro e que, por isso, tem demonstrado melhorar a vida de quem tem carcinoma urotelial metastático, um cancro agressivo que se espalha, tipicamente, para os ossos, pulmões ou fígado. Isso motivou uma equipa de 13 especialistas portugueses, em que se inclui André Mansinho, a defender, num estudo científico publicado na revista Cancers, a aplicação de testes genéticos o mais cedo possível para detectar estas mutações no gene FGFR3, aproveitando a aprovação do erdafitinib, em 2024, pelas autoridades portuguesas. “Essa capacidade de diagnóstico em Portugal existe, e há centros que têm uma capacidade técnica que permite fazer isto de forma muito significativa”, diz André Mansinho, também médico no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Falta ser sistemática a nível nacional e com condições iguais para todos. Afinal, este tipo de análises genéticas é, geralmente, pedido fora dos hospitais por falta de capacidade interna, e isso implica “fazer contratos, concursos públicos” e um resultado mais lento e burocrático. Para André Mansinho, a solução seria um “programa nacional de medicina de precisão” que definisse centros de referência para estes testes genéticos e protocolos claros, para que todas as instituições estivessem alinhadas. Mas não se conhecem planos para isso. “Será o futuro” O cancro da bexiga é o nono mais comum em todo o planeta, com mais de 600 mil novos casos e 220 mil mortes, todos os anos, segundo os dados referentes a 2022 do Observatório Global de Cancro, da Organização Mundial da Saúde. Lisa Gonçalves, oncologista no Hospital de Santa Maria, em Lisboa (e que não esteve envolvida neste estudo), defende que está em curso uma “revolução no tratamento do cancro da bexiga”, com imunoterapias e comprimidos como o erdafi# tinib (comercializado como Balversa). Trata-se de um fármaco em forma de comprimido para doentes com cancro metastático cujos ensaios mostram melhorias de 36% na sobrevivência dos doentes pode ser a diferença, em alguns casos, entre viver cerca de oito meses ou cerca de um ano. É, actualmente, um tratamento de segunda linha, aplicado após o tratamento com imunoterapia contra o cancro urotelial metastático. As recomendações publicadas pela equipa de André Mansinho indicam que devem ser aplicados painéis de testes genéticos o mais cedo possível, mas que, dado ser um tratamento de segunda linha, pode ser avaliado após a primeira linha terapêutica, desde que a resposta seja rápida. “Se a instituição tiver essa capacidade, a partir do momento em que o doente tem o diagnóstico de doença metastática, na minha opinião, ele deve ser testado logo. Esse conhecimento permite-nos planear atempadamente a trajectória terapêutica do doente”, diz André Mansinho. A visão é secundada por Lisa Gonçalves: “No mundo ideal, sem restrições económicas nenhumas, seria o ideal ao diagnóstico e mediante a progressão da doença”, diz, advogando que quanto mais cedo se souber, mais célere pode ser a actuação num segundo tratamento, evitando perder a janela de tratamento para fármacos como o erdafitinib. Se, após o primeiro tratamento falhar, ainda tiver de ser feita a sequenciação genética, os doentes podem ter de aguardar mais algumas semanas até terem novo tratamento o que pode ser crítico para a evolução da doença. Contudo, dado que os painéis de sequenciação podem ser dispendiosos, os autores do estudo sugerem que esta seja uma opção após uma primeira linha de tratamento para gerir melhor os fundos hospitalares. “Há doentes que eventualmente podem não ter condições físicas para efectuar a terapêutica, vão apenas para cuidados paliativos. Há doentes que, infelizmente, podem falecer logo na primeira linha. E, portanto, há uma redução na quantidade de doentes que podem beneficiar da terapêutica”, explica André Mansinho. Consequentemente, há menos painéis de sequenciação genética para realizar. A identificação precoce destas mutações, através de testes de sequenciação de nova geração, permite direccionar os doentes para terapias específicas, algo que seria impossível há poucos anos, explicam os médicos do Hospital de Santa Maria. Além disso, os painéis de sequenciação de nova geração testam vários genes ao mesmo tempo, oferecendo informação sobre os genes FGFR, mas também de outros que podem dar novas pistas sobre os tumores ou outras patologias. Apesar dos avanços, a implementação generalizada destes testes em Portugal enfrenta obstáculos, como os métodos diferentes de testagem (que dificultam a comparação de resultados, daí a sugestão de uniformizar os testes), os tempos de espera na sequenciação genética (que podem ser críticos para a população) e os custos. No entanto, de uma coisa os médicos parecem certos: será um avanço inevitável. “Será realmente o futuro. Cada vez mais vamos dirigir-nos para uma oncologia de precisão, direccionada para a pessoa e para o tumor que temos à frente”, nota Lisa Gonçalves. Será realmente o futuro. Cada vez mais vamos dirigir-nos para uma oncologia de precisão, dirigida para a pessoa e para o tumor que temos à frente Lisa Gonçalves Médica A sequenciação genética pode encurtar o tempo para tratar uma parte das pessoas com cancro da bexiga metastático Tiago Ramalho