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CULTURAS - UM MUSEU A LIMAR

Expresso

2026-05-29 08:05:05

Há uma ansiedade na estreia do novo Muzeu. A recém-criada instituição cria em Braga novas possibilidades de ver arte de qualidade, mas pede um outro enquadramento “Sejamos realistas, exijamos o impossível. O título da exposição de apresentação do novo Muzeu, que em Braga albergará a coleção de José Teixeira e do DST Group, parece uma provocação. Afinal, como é que para mostrar uma valiosa coleção, uma corporação desta dimensão, com importantes posições na engenharia e construção, se apropria de uma frase que, no seu contexto inicial, tinha tanto de libertária, como de anticapitalista? Talvez possamos olhar para a questão de duas formas distintas, embora não incompatíveis entre si. A primeira é óbvia e submergenos a todos: o capitalismo é uma gigantesca máquina de reciclagem que neutraliza todas as fricções ideológicas. Já que invocamos O Maio de 68, Debord não diria diferente. A outra implica olhar um pouco mais de perto e reconhecer que a DST tem uma atitude diferenciada em relação à responsabilidade social corporativa que o seu programa educativo é consequente e que a sua intervenção cultural é demasiado consistente e vasta para não ser levada a sério. Do mecenato artístico ao incentivo à leitura, da promoção de festivais de música e de artes de palco à conceção de bolsas, ela é factual e massiva. Que, num país macrocéfalo, isso aconteça numa cidade média não é coisa indiferente. Braga é enérgica, com uma população jovem, o dinheiro circula, mas a oferta ôno campo das artes plásticas não abunda. e evidente que ter disponível um museu que abriga uma coleção desta qualidade é um excelente subsídio à formação de públicos e é um enorme multiplicador da oferta cultural. Já para não falar do impacto económico que o museu terá na região, atestado pela enorme afluência de visitas ao Palácio Vilhena Coutinho concebido por Carlos Amarante no século XVIII e agora reconvertido em museu por José Carvalho Araújo. Poder conviver com obras de artistas portugueses referenciais como Lourdes Castro, Helena Almeida, Paula Rego, àlvaro Lapa, Alberto Carneiro, Pedro Calapez, Cabrita Reis ou Julião Sarmento; ou internacionais como Cindy Ex DOSI çoes Coordenação Luís Guerra e@expresso impresa.p Sherman, Nan Goldin, Jeff Koons, ou mesmo Picasso, significa para a a cidade uma abertura do espetro da diversidade das formas artísticas que ali não estava particularmente disponível. Neste contexto, a exposição inaugural é, evidentemente, importante para a perceção pública futura do valor da coleção. Ela inclui quase cem artistas (40 portugueses) e mais de cem obras das cerca de 1500 que compõem a coleção, juntando autores de renome internacional, percursos portugueses referenciais, e outros com uma visibilidade apenas local. Essa mistura podia ser surpreendente, mas revela-se quase sempre errática e cativa de uma descontinuidade qualitativa. A conceção curatorial, da autoria de Helena Mendes Pereira (com escolhas da própria e do colecionador) quer espelhar a identidade e a evolução da coleção. Essa ambição coloca problemas que são menos de escolha das obras do que dos critérios de organização delas e do enredo que as envolve. A mostra arranca bem com uma secção intitulada “Praça” que marca um espaço comum (vida social, território, arquitetura) e de debates contemporâneos com boas obras de Ana Vidigal, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, João Tabarra, Caio Reisewitz, Axel Hutte ou Candida Hofer. Outras boas escolhas são isolar a performance de Rita GT sobre as relações entre O Minho e a Bahia através das tradições da filigrana; ou a fortíssima instalação de Miguel Rio Branco, que encontrou igualmente O seu espaço vital. Mostrar a série de retratos de poetas e artistas de Alfredo Cunha é um corolário interessante e um elogio afinado à criação, embora a proximidade de um retrato do colecionador feito por Vhils não deixe de, na mesma proporção, soar pretensiosa. E é nesse domínio que residem OS equívocos que resultam essencialmente da tentativa de pôr a coleção a falar da empresa, do colecionador ou de si mesma, sacrificando a esse desígnio um melhor enquadramento das obras. AMBIçãO E AUTOCELEBRAçãO Vejam-se alguns exemplos: nem uma conceção mais construtivista dá sentido à opção por fazer uma secção de “Elogio ao trabalho” com obras tendencialmente abstratas, que estão lá porque se encontram habitualmente nas instalações das empresas e não porque façam qualquer referência específica ao mundo laboral. Misturar “corpo, poesia e protesto” aviando “[..] desigualdades, a solidão, sociedade de vigilância, O pós e o neocolonialismo, a violência de género, a fé, a espiritualidade [..] a representatividade e a diversidade” numa mesma secção, que de tão povoada deixa de o ser, é só cumprir O que se pensa ser a agenda contemporânea. O contrário acontece com a decisão de individualizar O núcleo de obras do alemão Anselm Kiefer. O gosto eletivo por um artista em particular é natural e pode refletir-se na exposição, mas isolá-lo (e, sobretudo, chamarlhe “Olimpo”) ), é reduzi-lo à sua grandiloquênciao e subtraí-lo a qualquer enquadramento discursivo em favor da autorreferencialidade do gosto do colecionador. Noutro caso, um núcleo reúne artistas que têm em comum O terem sido insistentemente colecionados, e inclui nomes como ãngelo de Sousa, ãlvaro Lapa, Julião Sarmento, Cabrita Reis e Miguel Palma, entre outros. Chamou-se-lhe, afetivamente, “A alma da casa”. A exposição inaugural do Muzeu mostra duas coisas nada contraditórias: a coleção de José Teixeira tem condições para ser uma referência nacional e na região em que pretende implantar-se; mas um museu é mais que uma casa para uma coleção. Exige pensamento curatorial e museológico. Este primeiro momento tem, sobretudo, um problema de narrativa. A coleção autocelebra-so se permanentemente e, ao fazê-lo, torna as obras ilustrativas dessa ambição. A boa notícia é que tudo isso pode ser limado e reformulado em posteriores apresentações. SEJAMOS REALISTAS, EXIJAMOS O IMPOSSIVEL Muzeu Pensamento e Arte Contemporânea DST, Braga, até 23 de outubro A obra de Anselm Kiefer, presente várias vezesr na coleção, é isolada num núcleo a que se chamou "Olimpo” CELSO MARTINS