ENTREVISTA: A TECNOLOGIA DO BEN, O MINI-CARRO PORTUGUÊS
2026-05-30 11:39:04

Em breve, chega às estradas o BEN - o primeiro mini-carro elétrico português. É um projeto do CEiiA, que nos falou sobre a tecnologia e propostas inovadoras associadas ao veículo que pretende marcar a diferença na mobilidade. O BEN será o primeiro mini-carro elétrico português. É um projeto do CEiiA - Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, sediado em Matosinhos. A ideia é explorar a mobilidade sustentável e a rentabilização do uso do carro - com o desmaterializar da propriedade e a aposta na partilha. Trata-se de um conceito que propõe algumas inovações tecnológicas, não deixa de olhar para a condução autónoma e visa um funcionamento em rede: com a ligação entre diferentes BEN e até às pessoas que utilizam o veículo. O Auto ao Minuto foi recentemente visitar o CEiiA em Matosinhos, onde fomos recebidos pela CTO Helena Silva - que entrevistámos. Na primeira parte da conversa, falámos do CEiiA e do conceito do BEN. Nesta segunda parte, abordamos o mini-carro e a aposta na sustentabilidade do ponto de vista tecnológico. O BEN tem funcionalidades relativas a dados biométricos. Quanto à privacidade, se um utilizador não quiser saber para onde é que foi andar, é, não se sabe futuramente também há a questão da condução autónoma. Portanto, o BEN tecnologicamente tem um âmbito enorme. Nós, quando dizemos que o BEN é a integração entre um espírito e um corpo, é essa mesma ideia. Ou seja, o corpo é a sua plataforma física, aquilo que nós vemos, que tem muita capacidade de se configurar, é muito baseado na modularização, muito na simplicidade. E e nós chamamos o espírito à plataforma digital, porque ele não tem limites. Tudo que é digital, o limite é a nossa imaginação. E o nosso objetivo é que ele vá evoluindo ao longo do tempo com integração de novas funcionalidades. Nós, hoje, estamos a preparar a próxima versão do BEN - que provavelmente vai já ter umas funções autónomas. E muito adequado àquilo que vai ser o seu uso, não ter um veículo autónomo por ser autónomo; é para o que é que ele vai ser usado. E, depois, as funcionalidades assim se adaptarão. E nós estamos a falar num mundo digital onde os BENs, os seus "peers", que são no fundo as extensões digitais dos BENs, se vão reconhecer com as extensões digitais, por exemplo, das pessoas. E uma das formas de extensão digital de uma pessoa é através dos seus dados biométricos. Eu, por exemplo, posso - através do meu dispositivo que tenho no meu pulso - abrir o BEN para o qual eu tenho acesso e posso customizar o serviço àquilo que são as minhas preferências. E, portanto, estamos a falar na integração entre redes de pessoas e redes de objetos no mundo digital, nas suas extensões digitais. Isto é superpoderoso porque eu, a partir daí, consigo ter muitos dados para poder fazer outros serviços e para poder otimizar também o uso dos objetos de mobilidade, neste caso dos BENs, com outros veículos. Ligação em rede Unidades do BEN© CEiiA / Divulgação E já que falamos em tecnologia, no BEN, como está hoje, o que é que destaca das inovações que incorpora? Destaco, sem dúvida nenhuma, a sua plataforma digital, que tem uma camada de representação digital que permite eu saber todos os dados do veículo em tempo real. Isto é importante para quem? Para quem opera o BEN e para quem o usa. E, com esses dados, eu também consigo agregar este BEN com outros BENs. Ou seja, ligá-los em rede - isso também é uma inovação muito interessante neste tipo de veículos. Eu poder, por exemplo, ter uma comunidade de BENs - redes de BENs, que passam um pelo outro e se consigam reconhecer e terem alertas, saberem onde é que os seus utilizadores os podem usar. Uma das características mais distintivas do BEN é eu poder, a qualquer momento, configurá-lo para um novo serviço devido a esta plataforma. Ou seja, eu hoje estou a usá-lo numa comunidade de colegas e amanhã posso colocá-lo ao serviço de logística "last mile". E esta capacidade digital que se tem de ligar este BEN a qualquer serviço de mobilidade. E também uma das características mais diferenciadoras do BEN, é a forma como ele vai ser industrializado. Uma forma colaborativa e distribuída por vários "sites" na Europa. Estamos a trabalhar com a Itália para nós podermos juntar-nos ao Microlino e poder também o BEN ser produzido em Itália. E estamos a tentar criar todas as condições em Portugal também para ter outro "site" - um ou dois "sites" em Portugal para acontecer. Isto é uma forma de industrialização inovadora, porque quebra muito o modelo tradicional dos construtores instalados na Europa. O nosso objetivo aqui também é que a pegada carbónica da produção do BEN seja muito curta, com cadeias de fornecimento de curta distância. E as pessoas que adquirirem o BEN poderem ter consciência da sua pegada carbónica durante a sua produção com o objetivo de poder vir a anular a sua pegada usando-o muito. E, para isso, tem um contador perpétuo das emissões que foram geradas para eu poder fazer o "offset". Isso é muito importante porque, muitas vezes, as cidades preocupam-se muito em ter bicicletas elétricas, scooters elétricas e carros elétricos para o uso das pessoas, mas isso tem uma pegada por trás que também é importante ser explícita. E, com isso, também podemos começar a preocuparmo-nos mais em fazer em comprar os veículos que sejam "made in Europe". E nós queremos muito que o BEN seja um carro europeu. Sustentabilidade BEN na rotunda da Anémona, em Matosinhos© CEiiA / Divulgação Uma pessoa, ao adquirir um carro olha, por exemplo para as zero gramas de dióxido de carbono por quilómetro percorrido. Mas não tem bem a consciência de que o carro elétrico tem outro tipo de emissões associadas. E, aqui no BEN já chega o carro à mão do proprietário com essas emissões contadas lá Sim, já sabe quais são as emissões que foram geradas durante a sua produção. E, depois, há outra coisa que também é muito importante: a plataforma digital do BEN sabe bem onde é que ele é carregado e com que "mix" energética é que é carregado. Porque mesmo tendo um veículo elétrico, posso estar a carregá-lo com energia fóssil. E, portanto, tudo isto que tem a ver com a plataforma digital, eu consigo verificar que naquele local, àquela hora, o "mix" energético era um determinado. E, portanto, as emissões que eu vou evitar, provavelmente são diferentes do que aquelas que outra pessoa vai evitar noutro local, noutra hora, a carregar o veículo elétrico. Isso também conta para a questão da quantificação e valorização das emissões e também para aquilo que pode vir a ser um ativo ambiental. O CEiiA está presente no setor automóvel, no setor aeroespacial, no setor aeronáutico. E a sustentabilidade, parecendo que não, vai unir, por exemplo, o setor aeroespacial e o setor automóvel? Certo. A sustentabilidade é um fio, um fio condutor da nossa atividade e é o nosso propósito aqui. Mas não é sustentabilidade no conceito; é sustentabilidade naquilo que nós desenvolvemos. E, no caso do BEN, tem a ver com o facto de ser zero emissões e conseguir quantificar e valorizar as emissões durante o seu uso. A questão também de olhar para a pegada na sua produção. A questão de isso ser explícito no serviço e eu poder dar essa informação em tempo real à cidade. Ou seja, esta forma como eu me estou a mover contribui efetivamente para acelerar as metas de neutralidade carbónica da minha cidade. Ou seja, tem a ver com o meu contributo, tem a ver com o contributo das pessoas. Mas depois há outra área que é o espaço, onde nós trabalhamos a questão das aplicações das tecnologias espaciais. E, neste caso específico, aquilo que nós fazemos aqui no CEiiA é usando imagens da observação da Terra de muito alta resolução, fundindo com dados na Terra, eu posso desenvolver modelos de inteligência artificial, de várias disciplinas e poder replicar em várias partes do planeta. Quando nós estamos a falar na área das cidades e eu cruzo a forma como eu me movo nas cidades com as imagens da observação da Terra, eu posso estar a explorar o eixo da sustentabilidade e aplicá-lo também para ajudar a prever e a tomar decisões sobre aquilo que melhor concretiza o caminho para a sua neutralidade carbónica. Por exemplo, prevendo espaços de sequestro de carbono, como é que eu vou colocar florestas urbanas, como é que elas estão a evoluir ao longo dos tempos, que potencial de sequestro é que eu neste momento estou a ter numa cidade. Isso é um dos exemplos de quando nós cruzamos mobilidade com espaço aqui no CEiiA. Bernardo Matias