DUAS CENTENAS DE REFÉNS, TRÊS MEDIADORES
2023-10-27 07:02:13

De entre mais de 200 reféns, o Hamas libertou quatro mulheres. Catar tem sido um dos negociadores mais ativos No dia em que o Hamas lançou um ataque surpresa contra Israel, deixou 1400 mortos à passagem e incertezas em relação ao futuro de muitas outras pessoas. Estima-se que mais de 200 tenham sido sequestradas pelos terroristas do movimento a 7 de outubro. Não tardou até que este sugerisse usá-los como escudo contra os bombardeamentos de retaliação de Israel sobre Gaza, ameaçando executar reféns israelitas se os ataques não parassem. Duas semanas depois, a intervenção de intermediários começou a dar resultados. Judith Raanan e a sua filha Natalie, de 17 anos, foram as primeiras a reencontrar-se com a liberdade. Esta segunda-feira seriam libertadas mais duas reféns israelitas, identificadas como Yochved Lifschitz e Nurit Yitzhak. Lifschitz, de 85 anos, descreveu que passou “pelo inferno”, sofreu agressões na viagem até à Faixa de Gaza, mas já em cativeiro os membros do Hamas trataram-na de forma “gentil”, facultando-lhe o acesso a medicamentos. Tiago André Lopes, da Universidade Portucalense, defende que as libertações feitas pelo grupo armado não são aleató- rias e são dirigidas à “opinião pública do Ocidente”. Ao Expresso, comenta: “Não é por acaso que são libertadas quatro mulheres” e acrescenta que “a estratégia do Hamas é influenciar a visão que a opinião pública internacional tem de si”. Ontem à tarde os números mudaram. O Hamas alegou que “quase 50” reféns foram mortos em bombardeamentos israelitas, noticiou o jornal britânico “The Guardian”, ressalvando que a informação não foi verificada de forma independente. Três mediadores Antecipando o desenrolar da situação, o académico considera que a próxima libertação pode incluir um maior número de pessoas, mas não a totalidade. “Não estou à espera de uma libertação de reféns em grande escala”, afirma, acrescentando que, “politicamente, o Hamas quer usar isto para manter a contraofensiva de Israel fora da Faixa de Gaza”. Numa altura em que se assiste ao “extremar dos dois campos” com alertas do rei Abdullah, da Jordânia, para a necessidade de acabar com a guerra antes que haja uma “explosão” na região , Tiago André Lopes entende que a única forma da libertação total de reféns sem que Israel entre em Gaza seria um acordo que envolvesse os Estados Unidos. O processo de negociação em curso envolve vários atores internacionais, tendo o Catar emergido como um dos principais. Num comunicado emitido quarta-feira, o país expressou satisfação pela libertação de “vários reféns” ao longo dos últimos dias e referiu que os esforços se mantêm. “Há três mediadores a trabalhar na libertação dos reféns e um falso mediador que quer receber louros de coisas que não está a fazer”, diz Tiago Lopes, apontando a Washington, que, a seu ver, tem “feito muito pouco”, até porque o “Hamas não tem canais diplomáticos abertos com os Estados Unidos”. Nomeia o Catar, o Egito e a Cruz Vermelha como os mais ativos na procura de solução. “O Catar usa o facto de ser um Estado financiador do Hamas como forma de pressionar o grupo a fazer cedências na questão dos reféns”, descreve. sfernandes@expresso.impresa.pt Yocheved Lifshitz, de 85 anos, fala aos jornalistas em Telavive depois de ter sido libertada. Esteve como refém entre 7 e 24 de outubro FOTO ERIK MARMOR/AFP VIA GETTY IMAGES “Não estou à espera de uma libertação de reféns em grande escala”, diz o perito Tiago André Lopes