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CASTILLISMO OU FUJIMORISMO? ESTE DOMINGO, OS PERUANOS VOTAM NO PRÓXIMO PRESIDENTE, SUGESTIONADOS POR FANTASMAS DO PASSADO

Expresso Online

2026-06-07 16:21:03

Após uma primeira volta com 35 candidatos, o Peru realiza este domingo o tira-teimas na sua eleição presidencial. A escolha está entre um político de esquerda, popular nas zonas rurais e indígenas, que quer tirar da cadeia um antigo Presidente, e a filha de um histórico Presidente autocrático, de direita, com mais apoio nas cidades. Dois candidatos, duas visões para o dividido Peru Na cordilheira dos Andes, as ruínas da cidadela inca de Machu Picchu são um postal que projetam o Peru nos quatro cantos do mundo. Visitado diariamente por um máximo de 4500 pessoas, que pode aumentar até às 5600 em época alta, o sítio está em acelerada degradação, tendo a New 7 Wonders Foundation já advertido as autoridades peruanas que Machu Picchu corre o risco de perder o selo de “Maravilha oficial”. Quase 20 anos após a eleição das Sete Maravilhas do Mundo Moderno, escolhidas por votação popular universal, Machu Picchu sofre com “o “turismo de massas descontrolado, práticas irregulares de venda de bilhetes, aumento de preços, serviços de transporte deficientes e conflitos sociais persistentes”, alertou a organizadora da eleição, sediada em Zurique (Suíça), num aviso formal emitido a 13 de setembro passado. Desde então, ou seja, nos últimos nove meses, passaram pela Casa Pizarro - a sede da presidência peruana - nada mais nada menos do que três Presidentes, numa demonstração indisfarçável da instabilidade que assola o país. Nenhum reagiu de forma competente ao alerta da Fundação. Há sensivelmente duas semanas, a instituição fez uma segunda chamada de atenção, enviando uma carta a Keiko Fujimori e a Roberto Sánchez, os dois candidatos que, este domingo, disputam a segunda volta das eleições presidenciais, enfatizando que “a credibilidade de Machu Picchu como Maravilha oficial” está em causa. Quem for eleito Presidente não poderá dizer que não sabia. Machu Picchu surge, neste contexto, como uma demonstração viva da degradação política num país que, nos últimos dez anos, teve oito Presidentes. Keiko ou Sánchez será o nono. Alinhada com a direita populista, Keiko Fujimori é filha do antigo Presidente Alberto Fujimori, de ascendência japonesa, que governou o Peru de forma autocrática entre 1990 e 2000. Durante grande parte da presidència, Keiko foi primeira-dama do pai. Alberto Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão por corrupção e violações dos direitos humanos. Foi libertado ao fim de 16 por questões humanitárias e faleceu menos de um ano depois, a 11 de setembro de 2024. O legado do pai é para Keiko simultaneamente um trunfo e uma debilidade. Muitos peruanos recordam-no como um salvador da pátria que combateu a hiperinflação e conteve a rebelião maoísta do Sendero Luminoso, mas para outros minou as instituições democráticas e usou a corrupção como instrumento de governo. “Pensar nas propostas políticas da Keiko Fujimori implica pensar no legado do Fujimorismo”, diz ao Expresso Suhayla Viana de Castro, professora em Relações Internacionais na Universidade Portucalense. O Fujimorismo assenta basicamente num regime que privilegia a estabilidade económica, o combate à criminalidade e terrorismo, que pratica o autoritarismo e aprecia o culto da personalidade. “O Fujimorismo é ainda muito forte no Peru. E Keiko instrumentaliza-o a seu favor, apesar dos escândalos, das violações dos direitos humanos e do autoritarismo durante o governo do pai”, acrescenta. “A ordem ou o caos são as duas opções que o país enfrenta” Keiko Fujimori A académica ouvida pelo Expresso destaca como pilares da proposta de Keiko para o país a busca pela “ordem social” e o “liberalismo económico”. “Nisso, ela aproxima-se de outras lideranças de direita na América Latina, com a junção de uma agenda de restauração da ordem e do combate à violência e à criminalidade e de um projeto de liberalismo económico, que defende uma economia aberta, a proteção ao investimento privado, uma disciplina fiscal e uma baixa intervenção do Estado.” Durante a campanha, Keiko Fujimori - que lidera o partido Força Popular - propôs destacamento conjunto de polícias e militares para combater a violência urbana e o crime organizado. Prometeu construir quatro grandes prisões, bloquear os fluxos financeiros ligados à extorsão, expulsar imigrantes indocumentados e promover trabalho nas prisões para que os reclusos contribuam para custear as suas despesas de subsistência. Opõe-se ao aborto, mesmo em caso de violação. “Apesar de Keiko Fujimori se aproximar do Fujimorismo histórico, ela tenta desenvencilhar-se desse viés autoritário e das violações de direitos humanos que são o calcanhar de Aquiles e é aquilo que é mais criticado não só em relação ao pai mas também a ela própria que muitas vezes é vista como uma possível ameaça à democracia e às instituições democráticas”, diz Suhayla Viana de Castro. “Mas ao mesmo tempo que ela tenta desenvencilhar-se desse autoritarismo, há elementos nas suas propostas que nos levam a crer que Keiko Fujimori tem um projeto de centralização política”, acrescenta. “Em matéria de segurança, ela propõe um Estado mais vertical e centralizador, um Estado que muitas vezes vai ver instituições democráticas como o Congresso ou os tribunais como um obstáculo, quando essas instituições tentarem limitar a capacidade do poder executivo”. Aos 51 anos, a antiga congressista e administradora de empresas vai a votos pela quarta vez, após candidaturas à presidência falhadas em 2011, 2016 e 2021. Das três vezes, conseguiu passar à segunda volta, mas “esbarrou no antifujimorismo”, analisa a académica. Na primeira volta destas presidenciais, a 12 de abril, Keiko foi a mais votada entre 35 candidatos, com 2,8 milhões de votos recebidos (17%). O outro candidato que vai a votos é Roberto Sánchez, de 57 anos, que na primeira volta obteve 12% (pouco mais de dois milhões de votos). Psicólogo de formação, Sánchez é um antigo congressista e ministro de Comércio Exterior e do Turismo no governo do Presidente Pedro Castillo. Este derrotou Keiko nas eleições de 2021 e, atualmente, está preso por tentativa de dissolução do Congresso para passar a governar por decreto. Sánchez, que lidera o partido Juntos pelo Peru, “representa a esquerda popular peruana”, retrata a professora da Portucalense. “É herdeiro político do Castillismo”, um movimento assente num forte apoio das populações historicamente marginalizadas do interior do Peru, em críticas às elites de Lima e na defesa de mudanças profundas no Estado para, entre outros, dar maior representação às regiões andinas. Durante a campanha, Sánchez prometeu uma expansão drástica das despesas públicas e a nacionalização parcial dos recursos naturais do Peru. Defendeu a “pena de morte civil” para os corruptos, a quem culpa pela criminalidade desenfreada, significando isso a proibição permanente do exercício de cargos públicos. Quer industrializar o Peru para que deixe de ser apenas um país exportador de matérias-primas. “Sáchez propõe um país mais estatista e um Estado mais atuante e planificador. Ao mesmo tempo, tem um projeto muito crítico do neoliberalismo peruano e que prioriza a redistribuição de rendimento e um maior controlo público sobre os recursos naturais”, diz Suhayla Viana de Castro. “Sánchez representa um projeto neodesenvolvimentista andino, com características próprias comparativamente a outros projetos neodesenvolvimentistas que são uma marca de várias lideranças de esquerda na América Latina. Ele busca colocar o foco no maior papel do Estado e na ideia de usar os recursos naturais para financiar a inclusão social e fortalecer a soberania nacional.” O candidato da esquerda tem mais apoio nos meios rurais e nas zonas com maior população indígena, historicamente negligenciada. “Sánchez vai dialogar com os camponeses, com os indígenas, com a oposição, dentro desse meio rural, a Lima e às elites económicas”, diz a professora brasileira. Já a candidata da direita tem mais votos na capital, no litoral e nas zonas mais industrializadas. “Essa marca territorial é uma característica muito forte do caso peruano”, acrescenta Suhayla Viana de Castro. “Juntos, trabalharemos para salvar a nossa democracia das garras daqueles que mantêm o país refém há mais de dez anos, subvertendo o sistema judicial, e estes são o Fuerza Popular e a Sra. Keiko Fujimori. Meus concidadãos, juntos vamos restaurar a democracia para todos os peruanos” Roberto Sánchez “Talvez o ponto fraco da candidatura de Sánchez é que ele tem um discurso muito pró democracia, muito pró participação popular, mas ele é herdeiro de Castillo, tem com ele uma vinculação histórica. E isso traz uma certa ambiguidade ao projeto e ao próprio discurso de Sánchez.” Sánchez não só não esconde, como faz gala da sua ligação ao antigo Presidente. Nesta campanha eleitoral, surgiu inseparável de um chapéu branco de abas largas, que simboliza a ascensão ao poder de Pedro Castillo, e prometeu conceder-lhe um indulto e tira-lo da cadeira. Este domingo, um universo de 27,3 milhões de peruanos - numa população de cerca de 35 milhões - dirá qual dos candidatos mais o convenceu. Ou então quem considera ser o mal menor para liderar o país. Margarida Mota Jornalista Margarida Mota