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CONFLITO EM GAZA - BATALHAS DIPLOMÁTICAS INTENSIFICAM-SE À ESPERA DA INVASÃO DE ISRAEL

NOVO

2023-10-29 06:03:04

Faixa de Gaza está cercada e tem sido bombardeada desde que as forças armadas israelitas estão a responder ao ataque de surpresa que o grupo islamista Hamas lançou contra o sul de Israel, a 7 de outubro, com o lançamento de milhares de rockets e a incursão de milicianos armados, matando mais de mil pessoas e fazendo mais de duas centenas de reféns. O Hamas, movimento que controla o território desde 2007 e que é classificado como organização terrorista pela União Europeia (UE) e pelos Estados Unidos da América (EUA), tem respondido com o lançamento de mais rockets e resistido a incursões das forças israelitas. Aguarda-se uma invasão terrestre que o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, avisou que será "longa" e "difícil", mas que tem sido adiada, e o foco tornou-se a crise humanitária que resulta do cerco total imposto a Gaza.com corte do abastecimento de água, combustível e eletricidade. Esta sexta-feira. 27 de outubro, as comunicações no território também terão sido cortadas e as forças israelitas informaram que vão ampliar as operações terrestres. "Uma operação massiva por parte do exército israelita na Faixa de Gaza, no meu entender, traria uma série de riscos consideráveis e consequências imprevisíveis não só para a região do Médio Oriente, mas também para a Europa", diz ao NOVO Carlos Morgado Braz, coordenador da licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Europeia. Sublinha que uma invasão poderá "desencadear um conflito prolongado e uma escalada da violência entre Israel e grupos armados em Gaza e na Cisjordânia, o que resultaria num elevado número de baixas" nas forças israelitas e em não combatentes; que potenciará o "envolvimento de outros atores regionais, como o Irão, que apoia estes grupos islamistas, e atores internacionais, como os EUA. que apoiam Israel"; e que também aumentará "a polarização e a radicalização tanto da opinião pública internacional como da diáspora islamista, proporcionando o regresso do terrorismo à Europa, fruto das ligações transnacionais que estes grupos têm nas franjas mais extremistas dessas comunidades". Além disso, não é crível que seja a invasão terrestre a debelar a ameaça que o Hamas constitui. "Espera-se que o Hamas possa continuar a resistência armada, potencialmente com o apoio de outros aliados ou simpatizantes, após uma invasão ou ação militar prolongada por parte de Israel. Historicamente, desde 1988. tem perseguido a resistência armada contra Israel e a sua posição sobre esta questão está bem definida", diz Morgado Braz. "Não podemos esquecer que para o Irão. a conceção e o apoio a grupos insurgentes e movimentos armados tem por base a prossecução de objetivos geoestratégicos na oposição ao statu quo regional, onde prevalece o domínio saudita e norte-americano", acrescenta. Conflito diplomático Enquanto não se concretiza a invasão, a medição de forças desenrola-se nos palcos diplomáticos, e a tensão diplomática tornou-se notória quando o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o português António Guterres, mesmo condenando os "terríveis ataques" perpetrados pelo Hamas em Israel, disse ser "importante reconhecer" que os ataques do grupo islamista Hamas "não aconteceram do nada", porque o povo palestiniano "foi sujeito a 56 anos de ocupação sufocante", levando o embaixador israelita a pedir a sua dimensão e as autoridades de Telavive a impedirem a entrada de representantes da organização internacional no país. Omã, falando em nome do Conselho de Cooperação do Golfo, condenou o "cerco" de Israel a Gaza, a fome da sua população e a punição coletiva dos palestinianos. No final da semana, a Assembleia Geral da ONU reuniu-se de emergência para aprovar uma resolução proposta por um grupo de 22 nações árabes a apelar a uma "trégua humanitária" em Gaza que conduza à cessação das hostilidades, o que mereceu a crítica de Israel e dos EUA, com a embaixadora norte-americana, Linda Thomas-Greenfield, a considerar a proposta "ultrajante", por não condenar o Hamas e não reconhecer os ataques de 7 de outubro como ato terrorista. Acrescentou que este é um "momento perigoso para israelitas e palestinianos", sublinhando que não há justificação para o "terror" do Hamas, que os palestinianos estão a ser usados como escudos humanos e que "as vidas de palestinianos inocentes devem ser protegidas". Ao contrário do que acontece no Conselho de Segurança, não há vetos na Assembleia Geral, mas as resoluções não são juridicamente vinculativas, tendo um peso apenas político. No Conselho de Segurança, em que as decisões são vinculativas, EUA e Rússia têm-se anulado mutuamente e impedido a aprovação de qualquer resolução sobre o conflito. Na Europa, o Conselho Europeu encontrou uma posição comum para apelar a "pausas humanitárias", para fazer chegar à população palestiniana a ajuda de que necessita, apesar de dificuldades na fraseologia do texto final. Paralelamente, foi sublinhada a continuação do apoio à Ucrânia no combate ao invasor russo. E não é só aqui que os dois conflitos de larga escala se juntam, porque vemos a Rússia e os países com quem ainda mantém relações, entre os quais o Irão, a alinhar de um lado, não condenando ou apoiando o Hamas. mas também se receia o risco de contaminação relativamente a países como a Turquia, que tentou mediar o conflito na Ucrânia e que, nos últimos dias, condenou de forma perentória Israel, com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a denunciar os ataques israelitas como um "massacre". Risco de contaminação "Poderemos assistir a um alinhamento de atores no plano político e diplomático, mas não necessariamente no plano operacional", diz ao NOVO Tiago André Lopes, professor de Diplomacia da Universidade Portucalense. "Parece-me que estamos a ver o emergir de uma aliança negativa, com parceiros com agendas diferenciadas e nem sempre concordantes que, contudo, alinham pela vontade de fazer oposição musculada aos EUA. O que aproxima China. Rússia, Irão, Turquia. Arábia Saudita e, cada vez mais, até Emirados Árabes Unidos é a vontade de transformar a ordem internacional num sistema multipolar, o que obviamente desagrada à diplomacia de Washington, ainda presa ao modelo hegemónico da Pax Americana", acrescenta. "É pouco provável que Moscovo e Pequim queiram uma guerra aberta no Médio Oriente, mas interessa manter a questão ativa para distrair atenções quer da Ucrânia, quer de Taiwan", diz. Apesar de o conflito no Médio Oriente ser o assunto do momento. o Conselho Europeu fez questão de mostrar que a Ucrânia continua presente: por isso, o primei-ro tópico das conclusões é dedicado ao apoio ao país invadido pela Rússia, mas Tiago André Lopes considera que. nas últimas duas semanas, a posição ucraniana sofreu três reveses fora do campo de batalha, primeiro, "porque [a guerra] se tornou política e mediaticamente secundária.com os media e os líderes políticos a evitarem falar muito no assunto"; depois, "com a eleição de [Robert] Fico na Eslováquia e a decisão de não apoiar mais financiamento militar para a Ucrânia, a que se juntará a Hungria no curto prazo"; em terceiro lugar, "com a eleição de Mike Johnson como speaker da Casa dos Representantes dos EUA". "Kiev terá agora de fazer escolhas em ambiente de escassez e poderá ser empurrada para a mesa negocial de modo menos digno. Ficou provado que existia, de facto, fadiga do conflito com a velocidade com que o presidente Zelenski foi empurrado para a marginalidade política, diplomática e mediática", defende. Carlos Morgado Braz Coordenador da licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Europeia Tiago André Lopes Professor de Diplomacia da Universidade Portucalense