pressmedia logo

COLÔMBIA ESCOLHE O PRÓXIMO PRESIDENTE ENTRE DOIS PERFIS ANTAGÓNICOS: MAIS UM CAPÍTULO DE POLARIZAÇÃO NA AMÉRICA DO SUL

Expresso Online

2026-06-20 22:51:02

Cerca de 40 milhões de colombianois votam, este domingo, no próximo Presidente. Têm à escolha um candidato de extrema-direita que quer emagrecer o Estado e outro de esquerda que quer ampliar direitos sociais. “O centro desapareceu, foi completamente esmagado", constata um investigador A partida da seleção da Colômbia para os Estados Unidos da América (EUA), para disputar o Mundial da FIFA - joga com Portugal no dia 28 -, ganhou uma dimensão política. Na cerimónia de despedida, numa base aérea de Bogotá, James Rodríguez, a estrela dos cafeteros, aparentemente ignorou um pedido de selfie de Antonella Petro, a filha mais nova do Presidente do país. A polémica foi ampliada após, na foto de família , os jogadores surgirem de rosto fechado, rodeando Gustavo Petro, que vestia uma camisola da seleção e segurava uma grande bandeira da Colômbia. Uns acusaram a equipa, e em especial James, de desprezar o Presidente. Outros colocaram-se ao lado dos jogadores argumentando que Petro tentou capitalizar politicamente, numa altura em que o país estava em campanha eleitoral com vista à segunda volta das presidenciais, que se realiza este domingo. A polémica sanou dias depois após Antonella - que pratica futebol numa escolinha do Millonarios FC - partilhar uma mensagem de James, dando a entender que não tinha ouvido o pedido dela e prometendo enviar-lhe uma camisola. O caso ficou por ali, mas contribuiu para pôr em evidência um país dividido e nervoso. Este domingo, o tira-teimas presidencial coloca frente a frente Abelardo de la Espriella, um advogado de defesa criminal de 47 anos, sem esperiência política, e Iván Cepeda, um senador de 63 anos. Abelardo de la Espriella tem como candidato a vice-presidente José Manuel Restrepo, antigo ministro das Finanças de Iván Duque (conservador de direita). Autodenominado “O Tigre”, rejeitou o apoio de partidos tradicionais e gaba-se de ser um outsider da política. Vai a votos pela primeira vez na vida em representação dos “los nunca”, aqueles que, nas suas palavras, “nunca viveram à custa do Estado”. Iván Cepeda tem como parceira de candidatura a senadora Aida Quileué, uma líder indígena que, em 2008, viu soldados abrirem fogo sobre o carro do marido, ferindo-o mortalmente. O próprio Cepeda é filho de um antigo senador, membro do Partido Comunista, que também foi assassinado em 1994 por um grupo paramilitar. É ativista dos direitos civis. Na primeira volta, De la Espriella obteve 43,7% dos votos e Cepeda 40,9%. “Este resultado espelhou um pouco o que é o mundo atual, e que a América do Sul é talvez um dos melhores exemplos, que é a polarização das candidaturas”, nota ao Expresso João do Vale de Sousa, doutorando num programa do ISCTE e da Academia Militar, onde desenvolve uma tese sobre o conflito armado na Colômbia. “O centro desapareceu, foi completamente esmagado. Aliás, alguns candidatos do centro tiveram menos votos do que o voto em branco.” Foi o caso de nove dos 13 candidatos que tiveram menos sufrágios do que a totalidade do voto em branco (406.970) e todos os votos nulos (292.975). À volta de 40 milhões de eleitores estão registados no país e cerca de milhão e meio poderá votar na diáspora. Em causa estão duas propostas antagónicas para o país, em especial ao nível do papel do Estado e da segurança. À esquerda, Iván Cepeda afirma-se como o herdeiro de Gustavo Petro e do seu programa social. Petro, que está constitucionalmente impedido de se recandidatar a um segundo mandato, foi o primeiro Presidente colombiano de esquerda. A 30 de dezembro passado, aumentou o salário mínimo em 23%, fixando-o em 1.750.905 pesos (443 euros). Na mesma linha, Iván Cepeda defende a reforma agrária, uma economia menos dependente da extração de petróleo e carvão e quer aumentar os investimentos do Estado em energias renováveis. “Ivan Cepeda tem uma proposta mais social-democrata, orientada para um Estado mais forte, a expansão dos direitos e mais comprometida com a negociação política dos conflitos”, diz ao Expresso Suhayla Viana de Castro, professora em Relações Internacionais na Universidade Portucalense. “Ele representa uma candidatura de continuidade em relação ao Gustavo Petro, que o apoia explicitamente”, acrescenta. Produção de cocaína em alta Abelardo de la Espriella, por seu lado, tem como prioridades económicas reduzir impostos, impulsionar os investimentos privado e estrangeiro e reduzir o tamanho do Estado em 25% a 40%. Apologista do fracking - técnica de perfuração do subsolo que visa extrair petróleo e gás natural de formações rochosas -, prometeu retomar a pulverização aérea das plantações de coca. A Colômbia é o maior produtor mundial de cocaína e, durante a governação Petro, o cultivo de coca atingiu recordes. Os dois candidatos têm agendas distintas também ao nível da segurança e ao futuro do acordo de paz assinado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP), que pôs fim a 52 anos de guerra civil (1964-2016), mas não impediu a atual proliferação de grupos armados. A estratégia de Cepeda - que participou nas conversações de paz com as FARC-EP - vai ao encontro do programa de “Paz Total” de Petro, que passou por cessar-fogos e negociações com diferentes grupos armados, alguns deles puramente criminosos, algo controverso na sociedade colombiana a braços ainda com muitas feridas abertas pela guerra. “Cepeda tem a visão que deve-se combater todos aqueles que não cumpram as regras mínimas da guerra e que não tenham o desejo de conversar”, explica João do Vale de Sousa. “Mas estende a mão aos grupos que aceitem conversar e fazer a paz.” Inversamente, De la Espriella rejeita negociações com qualquer grupo armado e quer derrota-los pela força. “É o regresso aos tempos do uribismo e a um combate sem qualquer possibilidade de conversações”, acrescenta o investigador, referindo-se a Álvaro Uribe Vélez, Presidente entre 2002 e 2010. “A estratégia de De la Espriella é fortalecer as forças militares e a polícia e enverdar por um caminho único de combate direto para tentar resolver o problema de segurança. Ora, isso foi o que andaram a fazer durante 50 anos É impossível derrotar os grupos armados através da guerra. Eles têm a possibilidade de se refugiar e nem precisam de sair do país. A Colômbia é de tal forma extensa e coberta de montanhas e selva impenetrável que permite aos grupos movimentarem-se para essas retaguardas de segurança”, acrescenta o investigador De la Espriella também quer acabar com a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), instituída pelo Acordo de Paz de 2016, para investigar, julgar e punir as graves violações de direitos humanos e infrações ao Direito Internacional Humanitário cometidas durante o conflito armado interno. “A JEP tem revelado alguns elementos de verdade e tem estado a colocar alguma paz nas vítimas do conflito, que era. aliás, o seu objetivo”, continua Vale de Sousa. “Já condenou os cabecilhas das FARC-EP, mas também já condenou elementos das forças militares e policiais que executaram principalmente jovens a sangue frio para obterem vantagens em termos da sua carreira, naquilo que ficou conhecido como o escândalo dos falsos positivos.” O mapa dos resultados da primeira volta das presidenciais revela que a proximidade ao problema da violência ditou o voto. "Nas periferias, onde os grupos armados exercem um maior controlo e mais violência, venceu Iván Cepeda [que defende negociações]. No centro do país, onde estão as maiores cidades, como Bogotá, Medellín e Cali, venceu o De la Espriella [que opta por uma resposta militarizada]“, analisa o investigador. De la Espriella posiciona-se como um nacionalista de pulso firme no combate ao crime. Prometeu a construção de 10 megaprisões de alta segurança, ao estilo do que fez Nayib Bukele em El Salvador, e quer rever a participação da Colômbia em organizações multilaterais, como as Nações Unidas e a Organização de Estados Americanos. Além de Bukele, inspira-se em líderes como o argentino Javier Milei e o norte-americano Donald Trump. Este saudou a sua passagem à segunda volta rotulando-o de “líder inteligente, forte e determinado”. O que diz a História “Quando analisamos aproximadamente 200 anos de história independente da Colômbia, os partidos de direita são os que tradicionalmente chegam ao poder. A vitória do atual Presidente, Gustavo Petro, foi uma ruptura. Agora vemos uma tentativa do Pacto Histórico [de Petro e Cepeda] de transformar o ciclo de Petro num projeto político de continuidade”, diz Suhayla Viana de Castro. “Estas eleições acontecem eum cenário de falência dos partidos políticos tradicionais na Colômbia. Isso ajuda-nos a compreender o cenário de polarização”, acrescenta a investigadora. “Essa fragilidade dos partidos tradicionais abre espaço à esquerda, mas também ajuda a direita radical, que vai disputar o mesmo eleitorado descontente com o centro político.” Abelardo de la Espriella tem liderado as sondagens. Beneficia também da alta taxa de rejeição do Presidente Petro, que penaliza o candidato Cepeda. Se os apoiantes de Petro elogiam-no por ter aumentado o salário mínimo, impulsionado reformas laborais e tentado reduzir a desigualdade, os críticos culpam-no pelo aumento da corrupção, da produção recorde de cocaína e da proliferação de grupos armados. “De la Espriella vai tentar capitalizar com o desgaste do governo Petro, principalmente em função de uma perceção de insegurança que tem sido marcada pelo aumento da violência, inclusive em contexto eleitoral”, conclui a investigadora. “Ao mesmo tempo, ele consegue capitalizar votos de eleitores descontentes com o sistema partidário. Fa-lo mantendo um discurso securitário forte que responde aos anseios dos eleitores.” “O antipetrismo é uma força muito grande”, corrobora Vale de Sousa. “E muita gente votou em Abelardo de la Espriella porque não gosta de Gustavo Petro.” Iván Cepeda arrisca pagar esse preço. Margarida Mota Jornalista Margarida Mota