TRATAMENTO DO CANCRO VAI SER ESCRITO SÓ COM TRÊS LETRAS: RAS
2026-06-26 06:00:05

Oncoproteína está presente na maioria dos cancros. Inibir o seu efeito é o avanço que pode mudar tudo. Desafio é ter médicos aptos e dinheiro para pagar Podemos estar perante uma descoberta decisiva no futuro do tratamento oncológico. Três décadas depois de investigações contínuas, a Ciência conseguiu tratar o que considerava intratável e isto muda, se não tudo, muita coisa. É agora possível inibir a ação das oncoproteínas que resultam de mutações nos genes RAS. O que é que isto quer dizer? É agora possível desligar a proliferação de células cancerígenas ativada ininterruptamente por proteínas resultantes de danos nos genes RAS. Num organismo saudável, funcionam como interruptores que ligam e desligam o envio de sinais para o interior das células para que cresçam, mas quando há uma mutação não param. O tamanho do passo dado é fácil de medir: um em cada cinco cancros tem, pelo menos, um dano num ou mais dos três genes RAS humanos. Mas não só, as oncoproteínas RAS estão presentes com grande expressão em tumores do pâncreas ou do pulmão, por exemplo. Isto é, em cancros para os quais pouco há, ou havia, para oferecer e o vislumbre do que vai chegar fez levantar da cadeira oncologistas de todo o mundo. Recentemente, na edição deste ano do maior congresso mundial de oncologia, nos Estados Unidos, quando olharam para os mais recentes resultados conseguidos no pâncreas, os médicos aplaudiram de pé, em lágrimas. Uma ovação à descoberta do mapa do labirinto depois de muitos anos às voltas. “A ASCO (Sociedade de Oncologia Americana) e a ESMO (Sociedade Europeia de Oncologia) reúnem as melhores descobertas clínicas em oncologia, trazem sempre novidades importantes e em alguns anos trazem novidades excecionais. Para um tipo de cancro para o qual as novidades são sempre pouco brilhantes, do pâncreas, este foi um resultado inédito”, confirma Luís Marques da Costa, investigador e diretor do Laboratório Translacional de Oncobiologia do Instituto Gulbenkian para a Medicina Molecular. “Os resultados foram, de facto, extraordinários. Primeiro, porque o medicamento em teste duplicou a sobrevivência dos doentes face à quimioterapia de segunda linha e este é um evento raríssimo em cancro do pâncreas. Segundo, porque é uma terapêutica oral [comprimido] que inibe uma oncoproteína RAS que está presente em mais de 90% destes cancros. Este facto lança uma esperança enorme para o tratamento de outros cancros que também dependem da proteína RAS para crescerem, e são vários.” O oncologista é taxativo: “Temos, de facto, uma revolução na farmacologia, na terapêutica do cancro, ao conseguirmos inibir a oncoproteína RAS. É uma oportunidade fantástica, uma inovação extraordinária. Arrisco dizer que será a nova idade do ouro da terapêutica alvo.” Injeção milagre para 15 a 17 portugueses O futuro do tratamento do cancro vai escrever-se com as três letras RAS, mas não ficar por aqui. Na reunião nos EUA foi igualmente anunciada uma injeção milagre para tumores da cabeça e do pescoço sem tratamento. “É um anticorpo biespecífico, reconhece dois antigénios, promissor, mas que requer a continuação da investigação em ensaios clínicos”, diz o investigador. E os testes vão passar por Portugal. Um grupo de 15 a 17 doentes vão participar no ensaio nos hospitais de Gaia-Espinho e IPO-Porto, Santa Maria e CUF Descobertas, em Lisboa, e Portimão até meados de 2029. Professor na Faculdade de Medicina de Lisboa e diretor do Centro de Investigação Clínica do Centro Médico Académico de Lisboa, o médico faz um prognóstico sobre o que o futuro reserva. “A imunoterapia [reprogramar o sistema imunológico] continuará a desenvolver novas oportunidades através de anticorpos biespecíficos associados aos anticorpos clássicos que estimulam o sistema imunitário ou a um agente de quimioterapia, ADC - ao reconhecerem mais do que um antigénio no tumor aumenta a probabilidade de fazer um transporte mais eficaz de quimioterapia. Temos também novas formas de imunoterapia com T-cell engagers e as CART Cells [células imunes geneticamente modificadas] na hemato-oncologia. O conhecimento do tumor e das células no microambiente em que se desenvolve está a gerar novas oportunidades terapêuticas”. No que está para vir juntam-se “vacinas terapêuticas [para tratar] customizadas para o doente após a sequenciação tumoral ou a disponibilização de fármacos e radiação diretamente no tumor”, acrescenta António Vaz Carneiro, especialista em medicina interna, nefrologia e farmacologia clínica e presidente do Instituto de Saúde Baseada na Evidência. Com tamanha oferta, aumentam os desafios e os médicos reconhecem que agora vai ser precisa ainda mais experiência dos profissionais, e não apenas médicos. Mutações nos genes ras estão presentes em 90% dos tumores do pâncreas, 50% do cólon e 35% do pulmão “Vamos necessitar de muito mais expertise na seleção e seguimento dos doentes. É tudo mais exigente e mais complexo. A personalização da medicina depende em muito da medicina narrativa e não somente do acesso a testes de medicina molecular, apesar de fundamentais”, explica o oncologista Luís Marques da Costa. A sua prática diária no Santa Maria permite-lhe antever que “o futuro vai continuar a exigir muita atenção clínica (tempo para o doente), até porque estamos a encontrar novos efeitos adversos com as novas terapêuticas”. Ou seja, “cada vez mais temos de nos organizar em equipas multidisciplinares para o diagnóstico e tratamento de efeitos adversos, os novos tratamentos não estão isentos de toxicidades”. Algumas que, para alguns doentes, podem não valer a pena para o que prometem. E os ganhos serão maiores quanto mais cedo se souber da doença ou dos riscos e também aqui há avanços. São vários os novos testes para diagnóstico precoce ou para a seleção de pessoas para um rastreio mais personalizado, um pouco diferente do que temos hoje com os rastreios de base populacional, por exemplo para a mama, colo do útero ou colorretal. “Os programas de rastreio devem ser recomendados e disponibilizados com base na melhor evidência científica sobre o seu benefício e riscos. Existem dados epidemiológicos que suportam programas de rastreio de doenças cardiovasculares, reumatológicas, infecciosas, psiquiátricas, oncológicas... que devem ser implementados permanentemente, já que apresentam uma relação benefício/risco favorável. Os rastreios oncológicos são um caso singular”, alerta António Vaz Carneiro. O professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa explica as razões: “Mais de 60% dos tumores não têm fatores de risco conhecidos, portanto, torna-se difícil defender uma abordagem sistémica de deteção pelos riscos de, por exemplo, sobrediagnóstico (detetar um tumor que não interfere no prognóstico). A recomendação deve repousar no risco de base dos doentes, na qualidade dos testes e na decisão do doente de avançar.” Oncologistas alertam para a necessidade de treino: escolha de opções e novos efeitos adversos E seja qual for a estratégia seguida em Portugal, a inovação vai chegar. Terá o país capacidade de a pagar? “Para a grande maioria dos doentes, o SNS oferece um leque de opções muito adequado, que se tem refletido num aumento da despesa. Só podemos tratar com o que podemos pagar, é uma questão de opção. Portugal melhorou significativamente na decisão sobre a comparticipação de medicamentos na oncologia, no entanto, continuam a existir situações que geram bastante impaciência e até situações incompreensíveis, entretanto corrigidas”, afirma Luís Marques da Costa. Mas o oncologista expõe uma ferida: “Atualmente, mesmo após a decisão positiva da autoridade competente e da secretaria de Estado da Saúde sobre o reembolso dos fármacos antitumorais, existem outros níveis de pressão sobre a decisão dos médicos e sobre os protocolos terapêuticos a adotar que contrariam as orientações internacionais. Em boa verdade, tem sido fácil apontar o dedo ao consumo de fármacos na oncologia, mas temos outras áreas terapêuticas em que o consumo per capita é muito maior.” Acesso demorado Diogo Alpuim Costa, diretor da Oncologia do Hospital de Cascais, sabe bem do que fala o colega do Santa Maria. Há poucos dias, a 12 de junho, perdeu uma doente depois de o Infarmed lhe ter recusado acesso ao único fármaco, ainda em testes e de acesso totalmente gratuito, que lhe poderia ter prolongado a vida com a justificação de não estar completamente garantida a segurança do remédio. Morreu aos 47 anos e deixou dois filhos pequenos. “Em cancro, cada mês de atraso não é burocrático, é clínico. Em doença metastática, janelas terapêuticas fecham-se, linhas de tratamento esgotam-se, doentes progridem.” O oncologista, que vai liderar no país o ensaio clínico da injeção contra tumores da cabeça e pescoço, faz um diagnóstico nacional. “Depois da aprovação pela Agência Europeia de Medicamentos, um doente oncológico em Portugal espera, em média, 926 dias (mais de dois anos e meio) até ter acesso ao medicamento comparticipado. A média europeia é de 655 dias, já ela própria inaceitável. Portugal ocupa a última posição da Europa no tempo de acesso a medicamentos inovadores, a 712 dias de distância da Alemanha, onde o mesmo fármaco chega ao doente em 128 dias”. A isto, Diogo Alpuim Costa junta “um paradoxo português: Portugal comparticipa 61% dos medicamentos oncológicos aprovados, acima da média da UE (51%). O problema não é a decisão final, é o tempo que leva a chegar lá”. O médico explica que “o novo Regulamento Europeu de Avaliação de Tecnologias da Saúde, em vigor desde 2025 para oncologia, oferece uma oportunidade de mudança, ao harmonizar a avaliação clínica a nível europeu, mas a componente económica, onde Portugal mais demora, continua a ser nacional”. Ou seja, “a questão não é a competência técnica do Infarmed, é a ausência de recursos, prazos e vontade política para transformar um processo de qualidade numa resposta atempada”. FRASES “É uma revolução. Arrisco dizer que será a idade de ouro da terapêutica alvo” Luís Marques da CostaDiretor do Departamento de Oncologia da Unidade Local de Saúde de Santa Maria “Portugal ocupa a última posição da Europa no tempo de acesso a medicamentos inovadores, a 712 dias da Alemanha, onde o mesmo fármaco chega ao doente em 128 dias” Diogo Alpuim CostaDiretor da Oncologia do Hospital de Cascais Vera Lúcia Arreigoso Jornalista Vera Lúcia Arreigoso