pressmedia logo

LANÇADA FÁBRICA DE COMBOIOS QUE SERÁ SUPORTADA PELA CP

Público

2026-07-01 08:06:03

Activo industrial, a construir no complexo oficinal de Guifões, em Matosinhos, custará 28,6 milhões de euros Carlos Cipriano Texto Manuel Roberto Fotografia A fábrica que ontem foi iniciada em Guifões (Matosinhos) faz parte do conjunto de entregáveis que a Alstom deverá disponibilizar à CP , Comboios de Portugal no âmbito do concurso dos 153 comboios que foi ganho pela multinacional francesa. Da mesma forma que fabricará os comboios, a Alstom construirá a unidade industrial onde vai produzir uma parte deles, mas tudo isso está englobado no contrato assinado pela CP, pelo que, no final de contas, será a transportadora pública a pagar à Alstom o investimento agora lançado e que custará 28,6 milhões de euros. Isto mesmo foi confirmado ao PÚBLICO pelo presidente da CP, Pedro Moreira, que explicou a necessidade de colocar no caderno de encargos uma oficina para a manutenção do novo material circulante, a qual, de resto, vai ser construída nos terrenos da empresa dentro do próprio complexo oficinal de Guifões. Segundo o acordo comaAlstom,nofinaldaprodução dos comboios, esta ficará equipada como oficina de manutenção de segundo nível, podendo a multinacional francesa continuar a operar nela ou transitar para a CP. David Torres, director-geral da Alstom Portugal, disse ao PÚBLICO que é sua intenção continuarem a trabalhar na futura fábrica muito para lá deste contrato. No seu discurso, referiu: “Para nós, a construção de uma fábrica é o maior acto de confiança que uma empresa pode ter para com um país”, e sublinhou que a Alstom já está em Portugal há 30 anos e que pretende continuar por mais 30. Apesar de este activo ficar a pertencer à CP, a vantagem dos privados é poderem construí-lo rapidamente e sem as limitações da burocracia da contratação pública que o primeiroministro tanto haveria de criticar no seu discurso. A primeira pedra foi lançada ontem, e a fábrica estará concluída em dois anos, para, um ano depois, começar a entregar comboios à CP à cadência de dois por mês. A DST, parceira da Alstom neste projecto, será o construtor da fábrica. Na intervenção de ontem do presidente do grupo de construção, José Teixeira, não faltou uma referência à Filosofia (a empresa promove cursos de Filosofia para os trabalhadores) quando referiu que Simone Weil trabalhou na Alstom em 1934 (a filósofa quis trabalhar numa fábrica para poder teorizar sobre a vida dos trabalhadores e escrever a A Condição Operária). “Demasiada burocracia” O lançamento da primeira pedra decorre sempre em tom festivo, mas antes da cerimónia o presidente da CP não perdeu a oportunidade para mostrar ao primeiro-ministro o que se faz nas oficinas de Guifões, depois de estas terem sido reabertas pelo anterior Governo. Luís Montenegro, acompanhado pelo ministro Miguel Pinto Luz e pela secretária de Estado da Mobilidade, Cristina Pinto Dias (que era administradora da CP em 2011 quando foram encerradas as oficinas de Guifões), ouviu as pormenorizadas explicações de Pedro Moreira durante a visita às oficinas. O gestor mostrou as séries de material circulante que estão a ser recuperadas naquelas instalações, levou-o a uma velha carruagem Sorefame recentemente recuperada, mas o destaque foi dado ao TrainSolutions (projecto da CP com parceiros para construir um comboio português), que já tem uma carruagem em fase adiantada de construção e que a comitiva visitou. Pedro Moreira, na dupla função de administrador e de engenheiro ferroviário, estava como peixe na água nas explicações técnicas e “vendeu” bem o projecto ao primeiro-ministro, sublinhando que este será um “comboio barato e mais rápido de fazer” e assegurando que Portugal terá capacidade para vir a produzir comboios. Os revezes do concurso público da CP para a compra destes comboios (duas impugnações que tiveram um efeito suspensivo sobre o processo) serviu de mote para Luís Montenegro criticar a “demasiada burocracia” e a “demasiada regulamentação” de Portugal e da Europa, onde o edifício legislativo tem “garantias que se querem de transparência, de responsabilidade, de certeza jurídica, que são de tal maneira meticulosas que só atrapalham”. O país perdeu tempo, perdeu dinheiro, porque perdeu financiamento comunitário e a CP teve de negociar com a Alstom uma actualização de preços por desactualização dos valores iniciais. Concorrência salarial A cerimónia da primeira pedra foi feita em clima de festa, a que se juntou o som das buzinas das locomotivas parqueadas no complexo de Guifões. Uma apoteose algo irónica porque a CP vai ter sérios problemas quando a Alstom começar a “roubarlhe” os quadros para a nova fábrica, que, para mais, fica no mesmo local, não alterando as rotinas de quem ali trabalha. As dificuldades da CP em recrutar e manter pessoal nas oficinas são conhecidas, e a multinacional francesa, que precisará de mão-deobra, não terá dificuldades em pagar mais a operários e engenheiros com conhecimento técnico ferroviário. Manuel António, director-geral das oficinas de Guifões, contava ao PÚBLICO: “Ainda ontem recebi uma carta de rescisão de um trabalhador que vai ganhar mais 300 euros para o privado. Ele dizia-me: Ó, senhor engenheiro, eu por mais 100 euros até ficava , mas eu, infelizmente, não posso fazer nada. Estamos limitados. Nem consigo premiar os melhores trabalhadores.” O presidente da CP conhece a difi# culdade. “É um problema que temos de resolver. A CP precisa de acompanhar a evolução salarial”, disse Pedro Moreira. “É um trabalho que temos de desenvolver com as tutelas. Se estamos no mercado, temos de pagar os salários de mercado.” “É um trabalho que temos de desenvolver com as tutelas. Se estamos no mercado, temos de pagar os salários de mercado”, defende o presidente da CP Complexo de Guifões vai ter nova unidade industrial que irá completar a encomenda da CP à Alstom Carlos Cipriano