pressmedia logo

ANDREA LIMA PRESIDENTE E FUNDADORA DO FÓRUM SAÚDE - “NÃO HÁ NENHUM SISTEMA DE SAÚDE QUE SEJA SUSTENTÁVEL COM TANTA CARGA DE DOENÇA”

Negócios

2026-07-15 07:31:02

NEGOCIOS SUSTENTABILIDADE Andrea Lima “Não há nenhum sistema de saúde que seja sustentável com tanta carga de doença” Investir em prevenção permitirá ter dinheiro para pagar, por exemplo, medicamentos personalizados e não aumentar o fosso entre quem pode e não pode pagar as inovações, defende a presidente do Fórum Saúde XXI. L igada ao setor da Saúde direta oui indiretamente há mais de três décadas, Andrea Lima diz qule o seur ministro da Saúde preferido será aquele que “vai ter coragem política para enfrentar os desafios quie temos”. E ainda não aparecell, embora gostasse quie Ana Paula Martins fosse essa pessoa. Convidada desta semana das “Conversas com CEO” e numa entrevista de mais de meia hora que pode ser ouvida naíntegra em podcast, a presidente e fundadora do Fórum Saúde XXI defende um entendimento entre os partidos para resolver os problemas do SNS e vencer a batalha de vivermos com menos doença a partir logo dos 55 anos. Porque, diz, nenhum sistema de saúde em nenhuma parte do mundo é sustentável com tanta carga de doença como a qule temos em Portugal. “Já ganhamos a batalha de vivermos mais”, diz, “mas estamos longe de ganhara de viver meIhor”. Como é que se interessou por esta área? Foi de uma forma muito engraçada. Inquietava-me só estara a estudar. Queria ser independente. Contra a vontade do meu pai, que dizia que se começasse a trabalhar não iria acabar o curso ele lá sabia, não é? Concorri para várias coisas. Até para comercial de uma empresa de construção civil. Quando cheguei à entrevista, o senhor diz: ai, menina, isto não é para si, é que só vai estar com homens... Entretanto, na sequência de entrevista, entrei na GSK, na altura a Glaxo e hoje GlaxoSmithKline. Mas trabalhei duas empresas da indústria farmacêutica, na Boehringer Ingelheim e na Merck Sharp & Dohme. Foram 16 anos numa aprendizagem incrível. E daí entrou para a edição de revistas de saúde. Sim, o meui marido na altura trabalhava na Cofina [antecessorada Medialivre, acionista do Jornal de Negócios]. Umar acoincidência (risos). Tinha as revistas da saúde e, na altura, o dono da Cofina, Paulo Fernandes, desafiou-o a fí- car com toda essa área (risos). Ele saiuo e formou uma empresa. Achei que fazia sentido trabalhar com ele.com o digital, cada vez mais foi-se perdendo esse mercado [do papel] e aí faz-se este salto para o Fórum Saúde XXI. O nosso contacto era a indústria farmacêutica, ospresidentes das sociedades médicas e as ordens. Estávamos em 2013, no rescaldo na crise financeira, e havia muita insatisfação, porque os profissionais de saúde achavam quie nunca eram chamados para [a discussão]. Havia os cortes cegos da saúde. O Fórum Saúde XXI nasce para quebraros silos e pôr na mesma mesa decisores políticos, profissionais de saúde, empresas e o próprio cidadão. A primeira reunião que fizemos foi em 2014 e éramos 25 pessoas. uma das razões atribuída à dificuldade de reformar a Saúde é a quantidade de grupoS de pressão do setor. Este é também é o seu diagnóstico? Há muitos grupos de interesse que paralisam qualquer alteração? Sim, e por essa razão é que houve este espaço para criar o Fórum Saúde XXI, ao constatar que a saúde é talvez um dos setores mais complexos, porvárias razões Consegue identificar alguma medida que não teria sido adotada se não houvesse o Fórum Saúde XXI? Para nós, os documentos, os eventos, são ferramentas para chegarmos a consensos. Neste momento somos mais de 500 membros, de diversos setores, e até de outras áreas, porque a saúde é transversal. Há uma ação, depois concretizada, que foi a redução do sal dos alimentos processados e do açúcar nos refrigerantes. O nosso propósito é a prevenção e pôr na agenda política que o investimento em promoção da saúde é um dos maiores que podemos fazer na economia. Porque é que tem sido tão difícil melhorar a saúde? Ainda não conseguimos um consenso de todos os partidos do arco da governação de pensar que a saúde é transversal a qualquer partido político. Tem de haver um pacto entre os vários partidos com decisões que vão ser tomadas e continuadas. Nada é instantâneo. Já ganhamos a batalha de vivermos mais, mas estamos longe de ganhar a de viver melhor. E esse é o trabalho que temos feito nos últimos anos, com vários eventos, como o Cascais International Health Forum. A partir dos 55 anos começamos a ter carga de doença, aperder qualidade de vida e. a fazer] pressão no sistema de saúde. E isso para a indústria farmacêutica também não é bom. E OS problemas do SNS são de gestão ou de falta de recursos humanos? Ambos. Um está ligado com o outro. Temos um grande problema de gestão, o que não quer dizer quenão tenhamosbons gestores à frente das organizações do SNS. o problema é todo o SNS, toda a estrutura, que quase não se modernizou. E há uma necessidade de se modernizar o mais rápido possível porque arealidade de hoje não é a de quando foi criado o SNS, em que tínhamos uma natalidade elevada e também não vivíamos tantos anos. A longevidade, não é um problema, é uma oportunidade. Temos de mudar a forma de pensar, mesmo no mercado de trabalho, pensar como é que essas pessoas vão viver mais tempo. Mas têm de viver sem doença e que seja como OS suiecoS, que adoecem nos últimos cinco anos de vida, e assim conseguem também ter acesso aos melhores medicamentos. Não vai ser possível e não há nenhum sistema de saúde em nenhuma parte do mundo que seja sustentável com tanta carga de doença. Qual foi o seu ministro da Saúde favorito? O meu ministro favorito... Tenho um ministro que é o nosso chairman. Estou enviesada (risos). O Adalberto [Campos Fernandes] está connosco desde que lhe apresentei aquilo num papel e nem o conhecia. Achou que era um projeto incrível. Tinha boas ideias para o setor? Muito boas e tem sido uma pessoa incrívell no Fórum. Mas, se tiver de escolher, o ministro da saúde preferido é o qule vai ter coragem política para enfrentar os desafios que temos. Ainda não apareceu. Gostava quie Ana Paula Martins, que também é membro do Fórum, fosse essa pessoa. Desde que a conheci que disse: vai dar uma ministra incrível um dia desses. Está a fazer uim trabalho dificil, de bastidores, que não dá notícias nosjornais. Por mais quie uma pessoa pense que está preparada, este é um ministério que é triturador de qualquer ministro. Soubemos recentemente que somos bastantes mais do que pensávamos, mais de 11 milhões. Que desafios é que tem colocado ao setor? Enormes. Já tínhamos desafios enormes com o nosso SNS. Tínhamos passado por uma pandemia, já vínhamos com falta de profissionais de saúde. Há 20 anos já se falava sobre o que íamos terà frente. Houve esse alerta, mas ninguém fez nada. As Ordens também têm alguma responsabilidade? Tiveram uma responsabilidade também. Porque fizeram aqueles números, impediram a entrada. Podemos pensar pelo lado negativo, que seria para não haver concorrência no próprio setor. Mas também havia uima outra perspetiva, que não ia haver profissionais de saúde seniores para darem formação. Tenhouma filla médica de família, a acabara especialidade, e vejo a dificuldade em ter pessoas disponíveis para dar a formação durante o internato. Criaram-se problemas em várias frentes. Nada acontece por acaso. Como o próprio SNS não teve a evolução necessária no tempo necessário, também houve muita necessidade de grupos privados. E não se pensoul na complementaridade que tudo devia ter logo de raiz, como sistema de saúde, com privados, social e o SNS, todos a trabalhar em conjunto. Houve uma altura que até se conseguiu, com as PPPs na saúde. Mas voltando ao desafio de termos hoje mais pessoas. O sistemajá estava fraco, na pós-pandemia e com todo este retrocesso por questões ideológicas. Nada estava preparado para a entrada de tantas pessoas. No SNS foi a machadada fínal. Muitas vezes essas pessoas vêm de países onde não há prevenção, não têm vacinas. Muitas grávidas chegaram para ter bebés e não traziam um exame. Falei com vários obstetras que diziam: é um horror, não sabemos como está o bebé, estamos às cegas. Não tinham nédicos de família e onde é quie vão? E as urgências também entupiram. Começam a existir sinais de alívio dessa pressão? A senhora ministra, Ana Paula Martins, numa situação destas, tem de pensar em soluções a curto prazo e depois a médio e longo prazo. O curto prazo, pela falta de profissionais de saúde obstetras, foi, por exemplo, o encerramento das urgências e juntá- las anível regional. Depois não se consegue ir buscar os profissionais e pagar-lhes mais. O caso dos tarefeiros era uma boa ideia no papel quie depois na prática não foi. São pessoas que não estão ligadas, que vão quando querem. Ou seja, precisamos em datas tipo o Natal, Ano Novo, férias, e essas pessoas fazem a gestão que quierem. E fazem bem. A saúde é identificada como um dos setores que mais progressos pode fazer com a IA e a robotização. O que é que já se está a fazer em Portugal? Coisas incríveis. E um maravilhoso mundo novo. Vai libertar osprofissionais de saúde das tarefas rotineiras para fazerem o que amáquina não faz, o contacto com apessoa, a empatia. Já existem soluções nos hospitais em qure o médico está a fazer a consulta, a IA está a ouvir, no fim vai buscar todos os papers com aquela possibilidade de patologia e dá ao médico um relatório com vários caminhos. O médico escolhe e a aplicação envia as receitas, os exames, faz esse trabalho todo. O médico só precisa de validar e dizer que pode seguir. Isso tem feito poupar tempo? Poupar tempo e ajudar no dia-gnóstico, com outras perspetivas. Na robótica, tivemos há pouico tempo na Champalimaud a primeira cirurgia à mama completamente robotizada. Quando pensamos quie na China, há cerca de três meses, inauguraram o primeiro hospital completamente robotizado e com inteligência artificial, é uim mundo maravilhoso novo. Masnadaé inócuo. Háumanecessidade também de regulamentação. As organizações não estão a conseguir acompanhar a rapidez desta evolução. Quando aparece alguma coisa, também temos de ver se aquele dispositivo pode ser utilizado, se é ético. Mas há pessoas também incríveis, até portugueses, como o Ricardo Baptista Leite, a trabalhar nessa área, e até opróprio Adolfo Mesquita Nunes. Se mandasse, o que é que mudava? Qual a medida que considera que na saúde podia fazer toda a diferença? Investir em saúde, não em doença, investir em prevenção, com programas a médio e longo prazo. Queremos que daqui a 10 anos a nossa população tenha reduzida a carga de doença em 5 anos. Haver uma política pública pluripartidária, transversal aosc ciclospolíticos, quie se levasse até ao fim, porqule investir em saúde é o maior investimento que podemos fazer para a nossa economia e para a coesão social. Ia sobrar imenso dinheiro para investirmosi em inovação, porqule vem aí muita coisa, medicamentos personalizados, terapias, cura para o cancro. E temos de ter dinheiro para pagar e não aumentarmos o fosso entre quem pode e quem não pode pagar essa inovação. SUSTENTABILIDADE 2030 P.18a21 Texto Luís MANUEL NEVES Fotografia BILHETE DE IDENTIDADE . Idade: 57 anos . Cargo: Presidente e fundadora do Fórum Saúde XXI (desde 2013); Presidente da Sedes Setúbal (desde 2021); Diretora Executiva da Salusplanet (desde 2013) . BiO: Editora da Semana Médica Biblioteca Digital e da revista Nursing (2013-22); Diretora Comercial e gestora de vendas da Informação em Saúde (2011-13); Representante de Vendas da Merck Sharp & Dohme (1998-2005); Representante de Vendas da Boehring Ingelheim (95-98); Representante de Vendas na GSK (199093) . Formação: Frequência do curso de Relações Internacionais “ Já ganhamos a batalha de vivermos mais, mas estamos longe de ganhar a de viver melhor.” “Há uma necessidade de se modernizar o mais rápido possível o SNS.” OuçA o PODCAST EM WWW.NEGOCIOS.PT Utilize o seu leitor de códigos QR para aceder a este episódio do podcast Conversas com CEO. HELENA GARRIDO