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"REBARBADORA DEIXA UMA MARCA IRREVERSÍVEL, FAZENDO ANALOGIA ÀS DECISÕES"

Notícias ao Minuto Online

2026-07-24 10:37:03

Um acidente de motociclo foi o motor para o mural permanente do maior concessionário BMW Motorrad da Europa, no Porto. À boleia da obra de Rui Basílio, o novo polo da BMcar liga o universo das motorizadas à arte, colocando a rebeldia e a responsabilidade lado a lado. Um acidente de motociclo, em 2015, foi o motor para o mural que adorna de forma permanente o maior concessionário BMW Motorrad da Europa, no Porto. Inaugurado no passado dia 10 de julho, o novo polo da BMcar estabelece uma ligação entre o universo das motorizadas e a expressão artística, colocando a rebeldia e a responsabilidade em equilíbrio, à boleia da obra de Rui Basílio. "Como esse momento ficou gravado na minha memória, achei que faria sentido desenvolver a obra a partir daí", confessou o artista, em declarações ao Notícias ao Minuto. De facto, este episódio valeu ao jovem natural de Évora não só um capacete partido , que ainda guarda, por ter "muita força" na sua vida ,, mas também um sentido de responsabilidade renovado. Com recurso a materiais brutos e do quotidiano, "como é o caso do cimento, da tijoleira, do tijolo e da parede de betão", Rui Basílio ambiciona mostrar que "a única coisa que podemos controlar diariamente , e sempre , é o sentido de responsabilidade, que poderá invalidar que incidentes do género aconteçam". A rebarbadora tem também um papel de destaque, uma vez que, "na parede, deixa uma marca irreversível, fazendo uma analogia às decisões que tomamos na nossa vida, seja de moto ou não". "Após o acidente, consegui perceber que somos todos seres frágeis e que a sorte nem sempre está do nosso lado, embora nesse dia tenha estado do meu", sublinhou. Neste caso, infelizmente, a inspiração acabou por ser um acidente que tive de mota em 2015. Felizmente, correu tudo bem, mas no momento, naturalmente, colocamos tudo em perspetiva, passando a ter mais respeito perante algo que não é habitual acontecer. Como esse momento ficou gravado na minha memória, achei que faria sentido desenvolver a obra a partir daí "Todas as crianças são artistas. O problema é saber como continuar a ser artista quando se cresce" é uma citação atribuída a Pablo Picasso. Contudo, no caso do Rui, a arte acabou por prevalecer. Como? Fale-me um pouco sobre o seu percurso. A arte sempre esteve presente na minha vida e sempre foi algo que me estimulou muito. Contudo, como não tinha nenhum histórico na família ligado às artes, achei sempre que estava um pouco perdido no percurso que devia seguir e nos meus interesses. No entanto, com o passar do tempo, percebi que tinha jeito para fazer os meus pequenos retratos. Sempre tive como lição de vida que tinha de trabalhar para alcançar o que queria. Nesta área, tinha a noção de que só com uma batalha muito grande é que conseguimos vingar , por isso, a partir deste pensamento, fui conseguindo arranjar as oportunidades, trabalhá-las e executá-las com sucesso. Venceu o concurso Fill The Culture, promovido pela BMW, em 2019. Como é que surgiu essa oportunidade? Que portas é que lhe abriu? O concurso Fill The Culture foi realmente uma oportunidade que surgiu, em que mostrei o meu portefólio , inicialmente, sem saber bem o que era para fazer. Vi esta oportunidade através das redes sociais e, após ter enviado o pequeno portefólio que tinha, fui selecionado para representar a capital de distrito de Leiria. Mais tarde, passadas cerca de duas semanas, percebi que iria ser um projeto promovido pela BMW, em que tínhamos dois dias para trabalhar um contentor onde apresentariam o novo modelo Série 1 na altura. O material disponível eram 50 latas de spray, mas eu não tinha qualquer tipo de noção de como trabalhar bem com este material. Então, surgiu-me a ideia de olhar o contentor de uma forma diferente de todos os outros, que seria utilizando a rebarbadora. Propus a ideia e o conceito foi logo aceite. Foi assim que desenvolvi o "toque de Deus", numa abordagem que depois acabou por ser bem conseguida e levar-me a ser o vencedor do concurso, do qual me orgulho muito. Obra de Rui Basílio© Reprodução Porque é que recorre a materiais do dia a dia para as suas obras? Vai além de questões ambientais? Utilizo os materiais do dia a dia para as minhas obras não só pelas questões ambientais, dando-lhes uma segunda oportunidade e uma segunda vida, mas também para lhes dar um novo sentido e perspetiva, contrariando um pouco a ideia visual de que é tudo igual e com o mesmo propósito. Surgem, assim, ideias de trabalhar estes materiais de uma forma menos habitual, o que naturalmente desperta alguma curiosidade perante o objetivo com que eles são colocados em cada projeto. Há um grande elemento de storytelling nas suas peças. Neste caso, a inspiração para o mural permanente no novo espaço BMW Motorrad no Porto foi um acidente de motociclo. Porquê? Quando e em que circunstâncias é que este incidente ocorreu? Em todas as minhas peças, tento ter uma justificação para todos os pormenores daquilo que faço. Acredito sempre que o principal acaba por ser o conceito inicial que criamos, ou seja, a história que eu quero contar, para que quem observe a peça, com profundidade e atenção, sinta que saiu mais rico a nível de conhecimento e sentimento que a obra possa ter transmitido. Neste caso, infelizmente, a inspiração acabou por ser um acidente que tive de mota em 2015. Felizmente, correu tudo bem, mas no momento, naturalmente, colocamos tudo em perspetiva, passando a ter mais respeito perante algo que não é habitual acontecer. Como esse momento ficou gravado na minha memória, achei que faria sentido desenvolver a obra a partir daí. Foi com esse mote que construí toda a história que está representada no mural permanente do espaço da BMW Motorrad no Porto. Após o acidente, consegui perceber que somos todos seres frágeis e que a sorte nem sempre está do nosso lado, embora nesse dia tenha estado do meu. Mas a mensagem que quero deixar bem saliente é que a única coisa que podemos controlar diariamente , e sempre , é o sentido de responsabilidade, que poderá invalidar que incidentes do género aconteçam. A rebarbadora é uma das minhas ferramentas favoritas , na parede, deixa uma marca irreversível, fazendo uma analogia às decisões que nós tomamos na nossa vida, seja de moto ou não. O cimento mostra a capacidade de podermos construir o nosso futuro perante as nossas decisões, responsáveis ou irresponsáveis. A tinta preta simboliza o alcatrão e a tinta branca representa a sinalética dos traços contínuos e descontínuos nas travessias de mota "Após o acidente, Rui olhou-se ao espelho, ainda de capacete, num ato de introspeção que alterou profundamente a sua relação com a liberdade, a condução e a responsabilidade." O acidente mudou a sua forma de ver a vida? Em que sentido? Voltou a andar de moto desde então? O acidente realmente fez-me refletir, sobretudo com a idade que tinha. Quando somos jovens, achamos sempre que as coisas más nunca nos acontecem , o que é mentira. Por isso, o acidente fez-me ter alguns momentos de introspeção, principalmente no hospital, onde realmente temos noção do quão frágeis somos. A partir daí, em quase todos os momentos da minha vida, pondero sempre muito sobre o que faço: pode ser divertido, mas também há probabilidade de a diversão ser contrariada por um ato de irresponsabilidade. Portanto, este incidente mudou efetivamente algumas decisões que, a partir daquele dia, passei a tomar na minha vida. Recordo-me que, nessa tarde, vendi logo a mota, porque me senti com algum medo de voltar a andar. O capacete ainda o tenho comigo, embora esteja partido ao meio , mas é um elemento que tem muita força na minha vida. Mais tarde, com amigos, voltei a andar de mota, embora com menos regularidade, mas no sentido de partilhar momentos positivos, sempre com responsabilidade. Além disso, num grupo, se eu puder contribuir para motivar a responsabilidade de todos, acho que é algo muito positivo. Tenho um bom exemplo que dá para fazer uma analogia: quando jogava futebol, era o capitão de equipa, não por ser o melhor jogador, mas por sentir que conseguia manter os jogadores que eram menos bons motivados dentro de um balneário. Por isso, se eu conseguir, dentro de um grupo de amigos, manter o nível de responsabilidade, também me sinto um elemento positivo. Esta obra inclui materiais brutos e do quotidiano, como é o caso de cimento, pedra, madeira e alcatrão. Que significado atribui a cada um deles? Que mensagem pretende transmitir? Esta obra inclui materiais brutos e do quotidiano, como é o caso do cimento, da tijoleira, do tijolo e da parede de betão , isto vai ao encontro do desafio do briefing inicial apresentado pelo arquiteto e pelas entidades que estavam responsáveis pelo projeto. O objetivo era manter os três tipos de parede que lá estavam, tentando fazer com que parecesse que elas estavam todas em conjunto, sem se notar a diferença de tipologias. Penso que o objetivo foi conseguido, por completo, uma vez que a imagem, a técnica e os materiais conseguem agregar toda a área, fazendo-a parecer única desde o início. A rebarbadora é uma das minhas ferramentas favoritas , na parede, deixa uma marca irreversível, fazendo uma analogia às decisões que tomamos na nossa vida, seja de moto ou não. O cimento mostra a capacidade de podermos construir o nosso futuro perante as nossas decisões, responsáveis ou irresponsáveis. A tinta preta simboliza o alcatrão e a tinta branca representa a sinalética dos traços contínuos e descontínuos nas travessias de mota. Só durante a pandemia é que pôde dedicar-se à arte a 100%. Atualmente, como é que encara o panorama artístico e cultural em Portugal? Quando decidi iniciar o meu projeto a tempo inteiro, foi no final de 2019, tendo começado efetivamente no início de 2020, em que, coincidentemente, também começou a pandemia. Portanto, comecei mesmo do zero, numa altura em que o mundo também acaba por parar. Pensei que estávamos quase todos ao mesmo nível e, por isso, o desafio seria começar a trabalhar para conseguir vingar. Em relação ao panorama artístico e cultural em Portugal, sinto que a pouco e pouco, por intermédio de alguns artistas portugueses de renome já internacional, estamos a conseguir chamar a atenção. Essa atenção poderá trazer oportunidades tanto para os mais requisitados, como para os emergentes. O meu foco é aproveitar essas oportunidades sempre que aparecerem e fazer jus à qualidade artística portuguesa que, a pouco e pouco, vamos conseguindo defender e afirmar tanto a nível nacional como além-fronteiras. Entre todos os seus trabalhos, há algum pelo qual sinta um carinho especial? Qual e porquê? É cliché dizer que todos os trabalhos são importantes e que tenho um carinho especial por todos eles. Tenho pena, obviamente, de vender os trabalhos, porque quase todos eles me dizem muito. No entanto, curiosamente, o projeto de que talvez mais me lembre foi uma ideia de projeto, que não chegou a ser realizado, que era uma proposta para o Rock in Rio. Por intermédio de alguns contactos, conheci o Diamantino Martins e tentei perceber se era possível implementar a minha ideia. Infelizmente, não foi possível realizar esse projeto lá, mas fiquei com o conhecimento e com uma relação de amizade com o Diamantino , que, tendo em conta todos os contactos que tem, me fez chegar algumas oportunidades. A partir daí, sinto que o meu trabalho teve cada vez mais mediatismo e fui conseguindo agregar cada vez mais contactos, que me fizeram abrir outras portas nesta área. Além da peça para o novo espaço BMW Motorrad no Porto, que outro projeto tem em mãos? Costuma trabalhar em várias obras ao mesmo tempo? Como é que faz essa gestão? Felizmente, tenho tido algum trabalho, já adjudicado para os próximos meses. Tenho comigo um colaborador há um ano que, curiosamente, é o meu melhor amigo há já muitos anos, com uma experiência de vida que me acrescenta imenso tanto a nível pessoal, como a nível profissional , é dotado em ajudar-me a resolver todos os problemas que apareçam. É desta forma que consigo dar resposta aos projetos que vão aparecendo e às diferentes logísticas que cada trabalho exige. É saindo da minha zona de conforto que sinto que estou a evoluir. Por isso, valorizo muito a presença do Carlos no meu trabalho. Trabalhamos os dois como se fôssemos apenas um e ele é tão importante quanto eu na definição da minha marca. Daniela Filipe