pressmedia logo

TRAVÃO A FUNDO NAS CIRURGIAS AMEAÇA COMBATE ÀS LISTAS DE ESPERA NO SNS

Público

2026-08-01 06:00:03

Hospitais de Santa Maria e de Braga com quebras de 30% nas cirurgias Até Maio, SNS fez menos 19 mil do que no mesmo período de 2025. Criticada “muito má gestão” do caso Miguel Alpalhão Entre Janeiro e Maio deste ano, os hospitais do SNS realizaram menos 19 mil cirurgias programadas do que no mesmo período de 2025, uma quebra de 5,4%. A descida foi particularmente acentuada na ULS de Santa Maria e na ULS de Braga, onde a actividade caiu 29,6% e 31,5%, respectivamente. As novas regras da cirurgia adicional são apontadas pelas unidades como uma das razões para esta redução. Já o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares fala numa “muito má gestão” da polémica do dermatologista de Santa Maria, que levou alguns hospitais a parar a cirurgia adicional. E não antevê uma recuperação a curto prazo porque há vários constrangimentos nesta área que permanecem por resolver. Os dados constam do Portal da Transparência do SNS, actualizados a Maio deste ano. Nos primeiros cinco meses de 2026, as 39 unidades locais de saúde (ULS), o Hospital de Cascais (gerido em regime de parceria público-privada) e os três institutos de oncologia (IPO) do país realizaram 332.455 cirurgias programadas (convencionais e de ambulatório), menos 19.018 do que no mesmo período do ano anterior. A redução global é de 5,4%, mas, olhando a cada unidade, há desempenhos muito diferentes. As ULS de Santa Maria e de Braga destacam-se pela negativa. O maior hospital de Lisboa fez menos 6515 cirurgias programadas do que no ano anterior, num total de 15.506. Já o Hospital de Braga fez 11.571 intervenções, menos 5332 do que no mesmo período do ano passado. Seguem-se as ULS do Médio Ave e de Trás-os-Montes e Alto Douro, com quebras de 22,1% e 21,5%. Entre os institutos de oncologia, o IPO de Lisboa foi o único a diminuir a produção cirúrgica: menos 16,1%, o que corres-ponde a menos 609 cirurgias a doentes oncológicos. O PÚBLICO questionou as ULS que apresentaram as variações mais significativas, sendo que à data de envio das perguntas (no início da semana) os dados disponíveis eram de Abril. Ainda assim, com excepção da ULS do Médio Ave, todos os questionados apresentaram resultados idênticos ou piores em Maio comparativamente a Abril. Nas respostas, as unidades apontam várias razões para as quebras: falta de médicos e de disponibilidade de blocos operatórios, greves, introdução da cirurgia robótica, internamentos sociais. E há três ULS que justificam a descida abrupta com as novas regras internas que criaram para a produção adicional. Recorde-se que, na sequência do polémico caso em torno de Miguel Alpalhão o dermatologista do Hospital de Santa Maria que ganhou 700 mil euros por cirurgias fora do horário normal de trabalho no âmbito do programa de recuperação de listas de espera , a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde fez auditorias em todos os hospitais do país para detectar eventuais abusos. Confrontadas com falhas de controlo interno ao sistema, várias administrações adoptaram novas regras internas e a tutela avançou com a criação do Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgias (Sinacc), que vai substituir o Sistema Integrado de Gestão de Inscritos em Cirurgia (SIGIC). Estava previsto que o Sinacc entrasse em vigor hoje, 1 de Agosto, mas após as insistências da Ordem dos Médicos para que fosse adiado, devido a constrangimentos que põem em risco a sua implementação, a Direcção Executiva do SNS decidiu ontem adiar a sua entrada em vigor. A ULS de Santa Maria, onde operava Miguel Alpalhão, justifica a descida abrupta com a contracção da actividade adicional. Entre Janeiro e Abril, a produção cirúrgica para recuperar listas de espera recuou 58% face ao mesmo período de 2025, revela a unidade. Acrescentando que o novo regulamento interno da produção adicional da ULS “originou negociações de novos contratos para esta linha de actividade e adaptações às novas orientações”, com impacto nos resultados dos primeiros meses. Na ULS Braga, a quebra da actividade cirúrgica programada “explicase por factores em simultâneo”: mais greves médicas, mais ausências de profissionais e “a saída de médicos ao longo do trimestre”. A isto soma-se “a entrada em funcionamento do novo regulamento interno” para a actividade cirúrgica, que implicou um “período de adaptação que também condicionou o volume”. A introdução da cirurgia cardíaca e da cirurgia robótica, as obras em curso no bloco operatório, bem como a activação “mais regular” do plano sazonal (do Inverno) são outras justificações. As respostas não surpreendem o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH). Para Xavier Barreto, “os resultados são péssimos” e resultam, fundamentalmente, de uma “muito má gestão” do caso do dermatologista do Santa Maria. “Quando tudo começou, o Ministério da Saúde e a Direcção Executiva do SNS podiam e deviam ter dito aos hospitais que, apesar do ruído, era importante dar resposta aos doentes, mas isso não aconteceu, e houve hospitais que quase pararam a actividade adicional”, diz, considerando que esta é a principal explicação para reduções tão abruptas. “É muito difícil” recuperar Xavier Barreto considera “muito difícil” recuperar nos próximos meses a actividade perdida, ainda mais num contexto em que as ULS continuam a trabalhar sem os contratos-programa assinados, ou seja, sem conhecer os objectivos de produção para 2026 e os meios com que podem contar. Pior, o impacto nos doentes e os custos desta redução da actividade ainda estão para vir. “O cenário não é nada positivo”, alerta, considerando essencial que os constrangimentos com a cirurgia adicional nomeadamente as correcções exigidas pela Ordem dos Médicos aos diplomas associados ao Sinacc estejam todos resolvidos no próximo mês. “Em Setembro isto tem de estar resolvido. Temos de ter equipas a produzir e a fazer cirurgia adicional sem qualquer tipo de limitações”, avisa. A ULS do Médio Ave também justifica a quebra das cirurgias com as “alterações relevantes” na organização da cirurgia programada, nomeadamente no enquadramento da cirurgia adicional. E aponta constrangimentos na disponibilidade de médicos de especialidades cirúrgicas e anestesiologistas. Salienta que o reforço das equipas já está a produzir efeitos, “prevendo-se uma recuperação gradual da actividade cirúrgica ao longo dos próximos meses”. Por outro lado, a ULS de Trás-osMontes e Alto Douro invoca, como um dos principais factores, “o aumento do número de internamentos sociais, que prolonga a ocupação de camas hospitalares e condiciona a disponibilidade necessária para a admissão de doentes cirúrgicos”. As obras de requalificação nos internamentos dos hospitais de Chaves e de Vila Real também obrigaram a ajustamentos e “reduziram a capacidade instalada disponível”. Já o IPO de Lisboa refere que a evolução está “globalmente em linha com o expectável”, tendo em conta as alterações nas referenciações e o aumento da complexidade das cirurgias, que exigem maior disponibilidade de bloco operatório. Os períodos de greve também são invocados como factores que condicionaram o normal funcionamento da actividade cirúrgica. Apesar da quebra geral na actividade cirúrgica programada, tendência que se observa desde o segundo semestre de 2025, os dados do Portal do SNS também mostram o outro lado. A ULS de Barcelos-Esposende, a ULS do Baixo Mondego e a ULS do Algarve registaram subidas expressivas nos primeiros cinco meses do ano, com aumentos de 19,7%, 15,6% e 15,2%, respectivamente. Após alertas Governo adia entrada em vigor do novo Sinacc Ana Maia A entrada em vigor do novo Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgias (Sinacc), que estava prevista para hoje, foi adiada. A plataforma, que vai substituir o actual Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), ainda se mantém em fase de testes e só será universalizada a todo o SNS quando todas as unidades tiverem o mesmo sistema informático, sem que o Governo se comprometa com um novo prazo. “A partir da próxima semana será alargada a fase de testes do Sinacc à generalidade das unidades do SNS. O processo irá arrancar na próxima segunda-feira, dia 3 de Agosto, na ULS da Lezíria, em Santarém, e será gradualmente implementado nas restantes unidades do SNS que já utilizam a aplicação informática Sonho (Sistema Integrado de Informação Hospitalar), usada para gerir a administração de hospitais, o registo de doentes e a facturação”, explicou a Direcção Executiva do SNS (DE-SNS) ao PÚBLICO. O organismo adiantou ainda que “a implementação desta fase de teste nas unidades que ainda não utilizam o Sonho está dependente da integração com os sistemas informáticos, que dependem de fornecedores externos”. “Até que se encontrem reunidas as condições” para que todas as unidades do SNS possam implementar a nova plataforma, o SIGIC “irá manter-se activo”. O teste à nova plataforma de gestão da lista de inscritos, que vai começar pelas cirurgias e só depois será alargada às consultas, começou na forma de projecto-piloto nas unidades locais de saúde (ULS) do Alto Ave e de Coimbra e no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, em Setembro do ano passado. No início deste ano, a então coordenadora do grupo de trabalho para o novo sistema, Joana Mourão, explicou que três unidades de saúde previam fazer em Março alterações nos sistemas informáticos para que o Sinacc pudesse funcionar. A Ordem dos Médicos tem pedido o adiamento da entrada em vigor do Sinacc, alertando para a necessidade de se corrigirem previamente “erros” e “insuficiências” que diz existirem nas portarias que actualizam a tabela de actos médicos e os grupos de diagnóstico homogéneos (GDH), assim como da retirada das pequenas cirurgias da lista de inscritos para uma lista para procedimento terapêutico. SNS fez menos 19 mil operações até Maio. Recuperar cirurgias perdidas será “muito difícil”, avisam hospitais Sociedade, 16/17 Após caso do Santa Maria, várias administrações adoptaram novas regras internas Administrador considera “muito difícil” recuperar nos próximos meses a actividade perdida Portal do SNS mostra que até Maio as 39 ULS e os três IPO fizeram menos 19.018 cirurgias do que no mesmo período do ano anterior Inês Schreck