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NA ALBÂNIA, HÁ UMA REVOLTA DE FLAMINGOS

Público

2026-08-02 06:01:02

“A Albânia não está à venda”, mas há quem a queira vender e quem a queira comprar Construção de complexo turístico de luxo de Ivanka Trump e Jared Kushner desencadeou uma vaga constante de protestos a favor da demissão do primeiro-ministro e contra a classe política Silvana Begaj e Lea Ypi são duas faces da diáspora albanesa. A primeira é consultora em Estocolmo e a segunda professora universitária em Londres. Ambas olham para a chamada “revolução dos flamingos” com a mesma esperança. Desde o início de Maio que os albaneses protestam contra a construção de um complexo turístico de luxo na costa adriática do país, na área protegida da lagoa de Narta, na região de Vlorë, um habitat de aves migratórias como os flamingos. A ideia de construir ali um resort de luxo surgiu quando Ivanka Trump e o marido, Jared Kushner, estavam a bordo de um iate e tiveram uma certa epifania: “Nadámos até à ilha [de Sazan], fizemos uma caminhada des-calços até ao topo e ficámos simplesmente encantados”, contou a filha do Presidente dos EUA. “E, ao longo de muitos anos, desenvolvemos a oportunidade de ajudar a concretizar o seu potencial.” O primeiro-ministro Edi Rama ficou encantado com o potencial deste investimento de cinco mil milhões de dólares num complexo de luxo com mais de 10 mil quartos na ilha de Sazan e em Zvërnec, na costa em frente. Rama abdicou de estudos de impacto ambiental naqueles locais, quando estivessem em causa projectos de interesse nacional. Foi o caso. Embora acuse o líder do executivo de utilizar Kushner para obter influência política junto da família Trump, Sali Berisha, líder da oposição, defendeu que o desenvolvimento do país está acima de tudo. O antigo Presidente e primeiro-ministro esteve proibido de entrar no Reino Unido e nos EUA, por suspeitas de corrupção e associação a práticas criminais, mas a Casa Branca revogou a sanção durante os protestos. A Comissão Europeia e uma grande parte da população têm uma opinião diferente sobre as facilidades concedidas ao turismo (que atraiu ao país mais de 12,5 milhões de pessoas no ano passado). Bruxelas pediu a Tirana que travasse o projecto nesta ilha montanhosa de cinco quilómetros quadrados, uma antiga base militar soviética, recheada de bunkers, e em Zvërnec, numa área de praias, arribas e lagoas, que o casal também quer comprar. A Comissão recordou que a Albânia devia dar provas de respeito pela legislação ambiental da União Europeia (UE), caso queira prosseguir com o processo de adesão, e que o turismo de massas naqueles locais não era consentâneo com isso. Os protestos de rua tornaram-se ininterruptos quando manifestantes derrubaram vedações do complexo a 30 de Maio e um deles, um proprietário local de terras, foi algemado e arrastado pelos seguranças privados perante a indiferença da polícia. O vídeo da agressão e um podcast de Ivanka Trump, no dia seguinte, a elogiar a “bela península com uma lagoa de um lado e o oceano do outro”, acordaram um país adormecido à espera da Europa. Silvana Begaj defende que quem se manifesta nas ruas albanesas são “pessoas que acreditam que o país [Albânia] merece mais do que fachada, mais do que propaganda, mais do que o êxodo de jovens e mais do que corrupção desenfreada”. Atraída pelo nível de vida nórdico, Silvana faz parte da corrente migratória que há uma década substituiu Itália e Grécia pela Suécia; de uma diáspora que organiza manifestações nos países de acolhimento ou que participa nas grandes concentrações de Tirana. Consultora e porta-voz dos emigrantes albaneses, tem uma visão agridoce quando olha para o seu país a partir do exterior. Por um lado, observa que “as pessoas vivem na Albânia como se ainda vivessem no passado, dependentes de uma rede clientelar, que não se terá desmantelado com a queda da ditadura comunista mais longa da Europa (após a morte de Enver Hoxa) e que o medo de perderem o emprego ou de serem perseguidas explica porque é que há pessoas que não se associam à contestação. Mas, por outro, sublinha o carácter cívico dos protestos, protagonizados por compatriotas que vivem num país de “pensões baixas e corrupção muito alta” e que querem fazer parte da UE. No discurso de Begaj há uma palavra que sobressai: transparência. “Não estamos contra o investimento estrangeiro, mas sim contra a falta de transparência.” A queixa desta emigrante coincide com as principais reclamações de quem aderiu à “revolução dos flamingos”: descrença no Governo de Rama, no líder da oposição, Sali Berisha, e na classe política em geral. “Eles estão a vender o país”, diz, numa alusão ao slogan dos manifestantes: “A Albânia não está à venda.” Lea Ypi é um dos rostos mais conhecidos da diáspora albanesa. A filósofa e professora de Teoria Política da London School of Economics é autora de Livre Como me tornei adulta no fim da história, um livro de memórias sobre como foi crescer num dos países mais isolados do mundo, e Indignidade Uma vida reimaginada, uma investigação sobre o passado da avó e as origens da sua família de judeus na Salónica do Império Otomano. O que mais a surpreende é que os albaneses tiveram fortes razões para protestarem antes disto e não o fizeram, como quando Rama aceitou que a Itália instalasse no país um centro de detenção de imigrantes, o que só aumenta a sua estupefacção perante a dimensão dos protestos. A filósofa e escritora não tem dúvidas de que a contestação tem uma carga geracional muito vincada, organizada por movimentos sociais, contra a oligarquização da vida política, e que reflecte a “incapacidade de muitas pessoas expressarem a sua agenda pelos canais tradicionais da política”. Apesar de admitir que se trata de um “protesto anti-sistema, mas sem uma ideia clara de como seria um sistema alternativo”, Lea Ypi acha que os sinais desta dignidade alba-c nesa podem constituir um exemplo para o resto da Europa. “O slogan A Albânia não está à venda revela uma nação que se respeita e que não venderá a sua alma por investimentos.” Orgulhosamente, Lea Ypi está convicta de que o seu país pode dar ao “velho continente uma lição de auto-estima”. Durante uma entrevista com Lea Ypi, a cantora Dua Lipa, nascida em Londres, mas de ascendência albanesa, associou-se a este movimento e disse que o que realmente a preocupa é que o “Governo possa simplesmente mudar a lei para eliminar as protecções ambientais sem qualquer consulta pública”. O apoio de Dua Lipa, ídolo albanês, quer lá como no Kosovo, foi mais um impulso para um movimento que não pretende desistir. Até quando? Analogias com a Sérvia Klejd Këlliçi, cientista político da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Tirana, divide os manifestantes em três grandes grupos. “O primeiro é constituído por activistas experientes, associados a organizações não governamentais, que recebem financiamento estrangeiro, nomeadamente da UE e dos EUA; o segundo é composto por pessoas que desenvolveram um sentimento de identidade colectiva graças à participação nos protestos e que se sentem politicamente marginalizados e insuficientemente representados pelos partidos tradicionais; e o terceiro é formado por apoiantes e membros do Partido Democrata [de Berisha] e dos três partidos recentemente criados e que conseguiram eleger deputados nas eleições mais recentes”. A “revolução dos flamingos” não tem um líder? Não. A causa ambiental pode ter estado na sua génese, e o flamingo como principal símbolo destemovimentosignificaqueháconsenso nesta matéria. Mas não é isso que explica a indignação generalizada. O que está em questão não é propriamente o projecto da família Trump, “mas a suspeita de que o seu envolvimento servia, sobretudo, como cortina de fumo para o financiamento dos irmãos sírioqataris Moutaz e Ramez Al-Khayyat, acusados de manter ligações suspeitas com o crime organizado, juntamente com capitais alegadamente provenientes de redes criminosas albanesas e de operações de branqueamento de capitais”. Na sequência de uma investigação à compra fraudulenta de terrenos em Zvërnec, com recurso a documentos forjados, as contas de uma empresa detida pelos irmãos, sócios de Kushner, foram congeladas na Albânia. “Os protestos parecem ter produzido, ou talvez restaurado, a consciência de que a situação social e económica do país está longe de ser tão positiva quanto o Governo procura apresentar”, analisa Klejd Këlliçi, e “revelaram também os limites de um sistema político baseado em trocas de pequena escala, no qual os votos são assegurados através de favores pessoais, oportunidades de emprego ou acesso a recursos estatais. Para um número crescente de pessoas” prossegue o cientista político , “essas transacções já não parecem suficientes para compensar sentimentos mais amplos de insegurança económica, exclusão política e insatisfação social”. O primeiro-ministro é o destinatário primordial da insatisfação de que fala Klejd Këlliçi. Edi Rama chegou ao poder em 2013, venceu três eleições e governa com maioria parlamentar. O professor da Universidade de Tirana refere que há muito que existem alegações de que redes de criminalidade organizada apoiam ou influenciam o Partido Socialista em regiões como Durrës e Elbasan e que representantes do partido mantêm o apoio eleitoral através de trocas clientelistas, distribuindo empregos, serviços ou outros favores em troca de votos noutras zonas do país. Em suma, há a sensação de que, “se os protestos conseguirem minar esta arquitectura de interesses convergentes, a sua aura de invencibilidade desaparecerá”. Rama não dá sinais de recuo e não há alternativas viáveis nem à esquerda nem à direita. Klejd Këlliçi considera que “partidos menores, como o esquerdista Lëvizja Bashkë e o centrista de direita Mundësia, podem ganhar algum apoio,masnãoosuficienteparadesestabilizar o sistema existente”. Tanto o Partido Socialista como o Partido Democrático mantêm bases eleitorais substanciais e, fora de Tirana, relativamente poucas pessoas permanecem completamente desvinculadas de um dos dois grandes partidos. “É por isso que uma das principais exigências dos protestos é a alteração da lei eleitoral, actualmente encarada como conferindo uma vantagem injusta ao Partido Socialista e ao Partido Democrata”, acrescenta. A contestação ao turismo de elite transformou-se num coro contra o sistema político, quando a população tomou consciência das “facilidades conferidas a este tipo de investimentos bilionários e ao mesmo tempo subsistem problemas particularmente graves de acesso à habitação, à saúde, ao emprego e de percepção de corrupção generalizada na máquina estatal”, refere Pascoal Pereira. O professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense faz uma analogia entre estes protestos e o que se passa na Sérvia, uma vez que quer Edi Rama, quer Aleksandar Vucic, o Presidente sérvio, se mantêm no poder há muitos anos. No seu entender, “a permanência do mesmo partido e do mesmo líder, inevitavelmente, alimenta a lógica de apropriação clientelar do poder político para proveito próprio, em articulação com interesses privados, nacionais ou estrangeiros”. “Mas o que há aqui também de comum entre os dois países é uma tremenda fadiga de quem percepciona uma vida política minada pela corrupção, pela pouca transparência e prestação de contas por parte dos responsáveis políticos e de fundamentadas suspeitas de ligação ao crime organizado”. À semelhança da “revolução dos flamingos”, a contestação dos sérvios não tem um líder. A Sérvia tem sido agitada por constantes protestos desde que a queda de uma cobertura recém-construída, na estação ferroviária de Novi Sad, causou a morte de 16 pessoas em 2024. Manifestações estudantis rapidamente se alastraram a todo o país e a uma grande parte da população. Fizeram-se ouvir pedidos de demissão do Presidente, da prisão dos responsáveis pelo acidente, suspeitos de negligência e de corrupção, e exigências de mais transparência democrática. Além disso, o Parlamento sérvio aprovou uma lei especial para que Kushner pudesse construir um hotel de luxo nos edifícios do Ministério de Defesa da antiga Jugoslávia, cujas ruínas foram transformadas em monumento nacional desde os bombardeamentos da NATO a Belgrado, em 1999. O ministro da Cultura, Nikola Selakovic, começou a ser julgado por ter revogado o estatuto de protecção do monumento, com base em documentação falsa, e o investimento foi suspenso em Maio do ano passado, depois de muita contestação pública. Neste momento, Pascoal Pereira comunga da ideia de que não há uma alternativa política na Albânia, na medida em que “não há uma plataforma cívica ou política que possa congregar todos estes movimentos de insatisfação numa plataforma eleitoral”, ao passo que na Sérvia o partido do presidente continua a ter “sondagens extremamente favoráveis”. É isso que explica que Vucic tenha anunciado que se iria demitir quando está em final de mandato. Esta seria uma forma de antecipar as eleições presidenciais e legislativas, que decorreriam no próximo ano, apanhando a oposição de surpresa, e de ocupar o lugar de primeiro-ministro, como na alternância entre Putin e Medvedev. Sérvia e Albânia são candidatos à adesão à UE e ambos assumiram compromissos de aplicação de legislação europeia, reformas institucionais e legislativas. “Mas, paradoxalmente, a aplicação dessa legislação não tem evitado que a prestação de contas passe a ser uma norma nesses países. É um pouco contraditório, não é?”, interroga-se Pascoal Pereira. “Na prática”, conclui, “continuam a vigorar sistemas políticos administrativos, partidários, extremamente opacos e reféns de interesses privados. É de certa forma paradoxal que a agenda dos manifestantes esteja mais próxima daquilo que defende a União Europeia (sustentabilidade ambiental, democracia, etc.) do que a dos responsáveis políticos destes países.” P16 a 18 Mais do que “propaganda” Um proprietário maltratado por seguranças privados e um vídeo de Ivanka Trump foram o rastilho para os protestos daqueles que acreditam que a Albânia “merece mais do que fachada, mais do que propaganda, mais do que o êxodo de jovens e mais do que corrupção desenfreada”, nas palavras da emigrante Silvana Begaj [Os protestos] revelaram também os limites de um sistema político Kledj Kelliçi, cientista político “Revolução flamingo” A ave de perna longa tem habitat numa das áreas onde Ivanka e Jared querem construir o seu complexo turístico Amílcar Correia