HÁ MAR E MAR... E PAÍSES SEM NENHUM
2026-08-07 06:00:04

São 45 os Estados que não têm acesso aos oceanos. Ficam dependentes da boa vontade dos vizinhos Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a Terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Neste excerto do poema “O Infante”, incluído na “Mensagem” (1934), Fernando Pessoa exalta a unidade da Humanidade e atribui ao mar o poder de ligar continentes e culturas. É assim, com alguma dose de idealismo, já que à superfície terrestre há 45 países onde o mar não chega. E se, no passado, a navegação era a via de comunicação mundial por excelência, hoje continua a sê-lo. “Não nos podemos deixar iludir pela nuvem digital ou pela rapidez da aviação. A economia física do mundo continua a flutuar na água”, diz ao Expresso Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense. “A internet e os cabos submarinos, que chegam a terra através de estações costeiras que os países sem litoral não controlam, movem dados. Os aviões movem bens de alto valor e baixo peso, como microchips ou vacinas - 35% do valor do comércio global, mas apenas 1% do volume. Mais de 80% do volume do comércio internacional de mercadorias é transportado por mar. Se quisermos transportar cereais, petróleo, minerais ou contentores com bens de consumo, o mar é insubstituível.” O exemplo da Suíça Para os países que não têm litoral, essa circunstância geográfica acarreta desafios acrescidos, desde logo custos de transporte mais elevados e uma dependência dos países vizinhos para acederem a rotas comerciais. “Um país sem mar é refém da boa vontade, da estabilidade política e das infraestruturas dos seus vizinhos”, acrescenta o investigador. “Para os Países em Desenvolvimento Sem Litoral, a ONU estima que os custos de transporte e com seguros sejam, em média, 30% a 40% mais altos do que para os países costeiros, quando o seu comércio externo é muito menor.” Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, fora da Europa, apenas um Estado sem litoral, o Cazaquistão, tem “desenvolvimento humano muito elevado” (grupo que inclui 74 países). Na Europa, Áustria, Luxemburgo e Suíça são interiores e avançados. Ponte e Sousa particulariza o caso da Suíça: “Compensa a falta de mar apostando em bens de altíssimo valor acrescentado (nas áreas farmacêutica, das finanças e tecnologia), numa política externa de neutralidade, que atrai organizações internacionais, e utilizando artérias fluviais como o rio Reno”, que desagua no Mar do Norte. Não ter acesso ao mar não condena, pois, os países à irrelevância política. “Obriga a uma diplomacia de sobrevivência, baseada na integração regional e no direito internacional. No pior, gera agressividade estratégica”, conclui. “Um país com mar pode projetar poder (como Portugal faz, no quadro da NATO e no Atlântico); um país sem mar pode passar grande parte da sua política externa a gerir as vulnerabilidades das suas fronteiras terrestres.” ESCALA 2059 quilómetros separam o mar da capital mais distante: Bisqueque, no Quirguistão. Segundo o “Livro Guinness dos Recordes”, Urumqi, na China, é a cidade mais remota do mundo 7 países sem acesso ao mar são mais pequenos do que Portugal. No extremo oposto está o Cazaquistão, com um território 33 vezes maior Os 45 países que não tocam o oceano*USBEQUISTÃO, UM CASO (QUASE) ÚNICO Na Ásia Central, onde cinco países não têm acesso ao mar, o Usbequistão é o mais encarcerado de todos. Este país - que é o coração histórico da Rota da Seda, com centros políticos, culturais e comerciais como as cidades de Samarcanda e Bucara - não só não tem litoral, como está rodeado por países que também não o têm: Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão e Turquemenistão. Para chegarem ao mar, os usbeques têm de atravessar, no mínimo, duas fronteiras. No mundo, há apenas mais um Estado nestas condições: o pequeno principado do Liechtenstein, entalado entre a Áustria e a Suíça. infografia Jaime Figueiredo * 45 países sem litoral África (16): Botsuana, Burquina Faso, Burundi, República Centro-Africana, Chade, Essuatíni, Etiópia, Lesoto, Maláui, Mali, Níger, Ruanda, Sudão do Sul, Uganda, Zâmbia, Zimbabué. Ásia (12): Afeganistão, Arménia, Azerbaijão, Butão, Cazaquistão, Quirguistão, Laos, Mongólia, Nepal, Tajiquistão, Turquemenistão, Usbequistão. Europa (15): Andorra, Áustria, Suíça, Chéquia, Hungria, Eslováquia, Sérvia, Moldova, Macedónia do Norte, Kosovo, Liechtenstein, Luxemburgo, São Marino, Vaticano, Bielorrússia. América Latina (2): Bolívia e Paraguai. Etiópia ameaça com guerra Adeus Este antigo império, com igrejas mais antigas do que catedrais europeias, ficou sem mar em 1993, após a independência da Eritreia Peso 95% do seu comércio marítimo passou a transitar pelo minúsculo Jibuti Solução A 1 de janeiro de 2024, a Etiópia reconheceu a independência da Somalilândia (região separatista da Somália), que lhe deu acesso a uma faixa da costa por 50 anos Exigência O primeiro-ministro Abiy Ahmed disse que não ter porto “impede a Etiópia de ocupar o lugar que lhe cabe”. E ameaçou: “É uma questão de tempo, vamos lutar” nos extremos O mais populoso Com quase 140 milhões de habitantes, a Etiópia é o país sem litoral onde vive mais gente O menos populoso Em 2019, havia 673 cidadãos no Vaticano: 458 dentro dos muros, incluindo 120 guardas suíços Os mais ricos Suíça e Luxemburgo têm dos rendimentos per capita mais altos do mundo Os mais pobres Burundi e Maláui são dos países mais necessitados do mundo Sem acesso ao mar, mas COM MARINHA A Bolívia perdeu a sua costa para o Chile em 1879, na Guerra do Pacífico, e não mais deixou de reivindicar o acesso soberano ao mar. Mesmo sem costa, possui uma força naval que patrulha o lago Titicaca e os seus maiores rios. Em 2018, tinha cerca de 5000 efetivos. Para os bolivianos, a Marinha é a prova que o país não desistiu de recuperar o acesso perdido ao mar. Também o Paraguai tem uma marinha que opera nos principais rios do país, nomeadamente o Paraguai e o Paraná. As suas embarcações podem chegar ao oceano Atlântico navegando rio abaixo através da Argentina. Esta marinha participou na Guerra do Paraguai (1864-1870) e na Guerra do Chaco (1932-1935). VIZINHOS DE UM GRANDE LAGO Três países sem litoral (Azerbaijão, Cazaquistão e Turquemenistão) estão encostados ao Mar Cáspio, que, apesar de ter “mar” no nome, tecnicamente é um lago - muitas vezes designado “o maior lago do mundo” -, já que não tem ligação direta a qualquer oceano. Esta extensa massa de água interior fechada é uma das regiões mais ricas do mundo em hidrocarbonetos (petróleo e gás natural). À superfície, há petroleiros e barcaças a navegar, mas não seguem para lado nenhum. CRUZADOS POR RIOS LONGOS Alguns países sem litoral são atravessados por alguns dos maiores rios do mundo. O Nilo, por exemplo, que se espraia ao longo de cerca de 7000 quilómetros, cruza onze países africanos. Mais de metade não têm costa: Uganda, Sudão do Sul, Sudão, Ruanda, Burundi e Etiópia. Na Ásia, a Mongólia é atravessada por três dos dez rios mais compridos do mundo; e o Laos, pelo Mekong, que corre ao longo de mais de 4000 quilómetros. COM ÁGUA DE SOBRA O reino do Lesoto, totalmente rodeado por território da África do Sul, é o único país do mundo inteiramente acima dos 1000 metros de altitude. Este enclave possui abundantes recursos hídricos que lhe valem o epíteto de “a torre de água da África Austral”. Uma das suas prioridades estratégicas é exportar energia limpa e água de alta qualidade para a região. Margarida Mota Jornalista Margarida Mota