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TURQUIA, ARÁBIA SAUDITA E PAQUISTÃO JÁ TÊM A SUA NATO : QUE IMPACTO TEM O PACTO DE MECA NO MÉDIO ORIENTE?

Expresso Online

2026-08-09 06:01:02

Os líderes dos três gigantes sunitas assinaram um pacto de defesa mútua, declarando que “qualquer ataque armado contra qualquer um dos três Estados será considerado um ataque contra todos”. Apesar da óbvia inspiração, “não estamos necessariamente perante uma nova NATO, mas perante uma tentativa de construir maior autonomia estratégica”, diz um investigador. “As potências regionais já não querem depender exclusivamente de Washington para garantir a sua segurança, porque este não a garantiu” Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, países sunitas geopoliticamente relevantes, assinaram, esta sexta-feira, um acordo de defesa mútua que, desta forma, compromete um país membro da NATO (Turquia), uma potência nuclear (Paquistão) e o guardião de Meca e Medina, os locais mais sagrados para os muçulmanos (Arábia Saudita). “O Acordo de Meca é mais importante pelo que revela sobre a transformação do sistema regional do que pelo seu conteúdo militar imediato”, comenta ao Expresso Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense. O que une Riade, Ancara e Islamabade? Que impacto pode ter este acordo na região? Sete perguntas e respostas para perceber o último realinhamento no Médio Oriente. O que prevê este acordo trilateral? O denominado Acordo Conjunto de Dissuasão de Meca estipula que um ataque contra qualquer um dos três signatários será considerado um ataque contra todos, no mesmo espírito do artigo 5,º do Tratado de Washington de 1949 que instituiu a Aliança Atlântica (NATO). “Esta cláusula cria uma nova lógica de dissuasão num Médio Oriente em que a confiança na proteção externa - e particularmente na proteção norte-americana - sofreu uma erosão evidente”, acrescenta o investigador. “É significativo que o acordo surja depois de meses da agressão dos EUA e Israel ao Irão, e da retaliação do Irão contra capacidades militares de EUA-Israel nos Estados do Golfo. A mensagem fundamental é que as potências regionais já não querem depender exclusivamente de Washington para garantir a sua segurança, porque este não a garantiu. Não estamos necessariamente perante uma nova NATO, mas perante uma tentativa de construir maior autonomia estratégica.” Este acordo segue-se ao anúncio, a 30 de julho, da formação de uma coligação de defesa marítima para garantir que as vias navegáveis de importância global em torno da Península Arábica - o golfo de Áden, o estreito de Bab al-Mandeb e o mar Vermelho - permanecem abertas ao tráfego internacional durante a guerra com o Irão e perante as ameaças dos hutis iemenitas. Designada Aliança Multinacional de Defesa Marítima, foi assinada em Riade e tem a participação de 14 países da região, incluindo Turquia e Paquistão. Para a Turquia, este acordo sobrepõe-se à Aliança Atlântica? Não. As autoridades de Ancara apressaram-se a esclarecer que “o desenvolvimento de parcerias regionais por parte da Turquia não é uma alternativa à sua adesão à NATO”, sossegou a presidência da Turquia, perante receios de que o novo acordo iria conflituar com o compromisso assumido com a Aliança Atlântica. Assinado em Meca, ao mais alto nível, pelo Presidente turco Recep Tayyip Erdogan, pelo príncipe herdeiro e primeiro-ministro saudita Mohammed bin Salman (MbS) e pelo primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif, este pacto não revoga ou substitui qualquer acordo bilateral ou multilateral existente. Visa reforçar a segurança coletiva numa região permanentemente instável e que, desde o ataque do Hamas a Israel, a 7 de outubro de 2023, tem vivido entre vários focos de guerra, com praticamente todos os países da região a sofrerem ataques transfronteiriços ou disparos de mísseis e drones. Citado pela imprensa turca, o Presidente Recep Tayyip Erdogan realçou que o novo pacto é de natureza defensiva e foi elaborado em torno do princípio da dissuasão coletiva. Afirmou também que não deve ser interpretado como uma aliança dirigida contra outro Estado e que mantém-se aberto à participação de “todos os países irmãos” empenhados na promoção da paz, prosperidade e estabilidade na região. Os signatários são agressores ou vítimas na guerra contra o Irão? Diretamente, apenas a Arábia Saudita, que abriga infraestruturas militares norte-americanas, tem sentido na pele as consequências da guerra de EUA e Israel contra o Irão, iniciada a 28 de fevereiro. O seu território tem sido alvo de ataques quer do Irão quer de alguns dos seus proxies, designadamente os rebeldes hutis do Iémen e milícias xiitas do Iraque. Para Riade, a guerra põe em risco as suas exportações de petróleo e mina os seus ambiciosos planos de desenvolvimento, assentes na Visão 2030, com que o príncipe MbS quer abrir o reino ao mundo e reduzir a dependência económica do petróleo. Geograficamentes mais distantes do coração do conflito, os outros dois signatários não têm sofrido impactos diretos da guerra nos seus territórios. O Paquistão tem sido mediador nas conversações de paz visando o fim da guerra e a normalização da situação no estreito de Ormuz, juntamente com Omã. E a Turquia tem desempenhado igual papel diplomático na frente que opõe Israel e o Hamas, na Faixa de Gaza. Ancara, Riade e Islamabade unem-se num contexto de preocupações partilhadas decorrentes da guerra contra o Irão, da retaliação de Teerão sobre os países do Golfo, do expansionismo de Israel e do impacto económico da crise provocada pelo bloqueio do estreito de Ormuz. Que peso têm estes três países na região? São dos Estados mais influentes no mundo muçulmano sunita. O facto simbólico do acordo ter sido assinado em Meca, numa sexta-feira (o dia da semana mais sagrado para os muçulmanos) não terá sido obra do acaso, conferindo ao ato uma dimensão emocional particular. São também países geopoliticamente relevantes. A Turquia é um dos 32 países membros da NATO - tem o segundo maior exército, atrás dos EUA. O Paquistão é o único país muçulmano com o estatuto de potência nuclear - não signatário do Tratado de Não Proliferação nuclear. E a Arábia Saudita, além de ser a guardiã de Meca e Medina, os lugares mais sagrados do Islão, é o maior exportador de petróleo do Médio Oriente. Num comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão acrescentou que o acordo foi “guiado pelos laços históricos de longa data entre os três Estados, baseado nos laços duradouros de fraternidade e solidariedade islâmica que os unem, e fundamentado nos seus interesses estratégicos partilhados e na longa cooperação em defesa”. Em que medida este pacto visa o Irão? “Para o Irão, o acordo constitui simultaneamente um aviso e uma oportunidade”, diz Pedro Ponte e Sousa. “É um aviso porque formaliza uma capacidade coletiva de resposta que Teerão terá necessariamente de incorporar nos seus cálculos estratégicos. Mas seria um erro interpretá-lo simplesmente como uma aliança anti-iraniana. A Arábia Saudita e o Irão restabeleceram relações diplomáticas em 2023 e, apesar da guerra recente, ambos têm interesse em evitar que a rivalidade se transforme numa guerra permanente.” E como é percecionado em Israel? “Para Israel, o Acordo de Meca é uma notícia ambivalente e potencialmente preocupante”, diz o professor da Portucalense. “Israel construiu durante décadas uma posição de superioridade militar regional assente também na fragmentação estratégica dos seus vizinhos e numa extraordinária dependência destes da proteção e do armamento norte-americanos. Uma aproximação entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão altera esse cálculo.” Acresce a esta análise a deterioração da sua relação com a Turquia, o único dos três países que reconhece formalmente o Estado judeu, situação que é admitida tanto em Telavive como em Ancara. A 17 de fevereiro passado, discursando na Conferência de Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas, em Jerusalém, o antigo primeiro-ministro israelita Naftali Bennett Bennett afirmou que “está a emergir uma nova ameaça turca” e defendeu que “a Turquia é o novo Irão”. Bennett descreveu Erdogan como “um adversário sofisticado e perigoso que procura cercar Israel” e denunciou que a Turquia está a tentar colocar a Arábia Saudita contra Israel e construir um eixo sunita hostil com o Paquistão nuclear. Mais recentemente, a 3 de julho, falando ao lado do primeiro-ministro do Paquistão, em Istambul, o Presidente Erdogan acusou Israel de tentar minar o Memorando de Entendimento assinado entre os EUA e o Irão, a 17 de junho. “Estamos a acompanhar de perto as tentativas do Governo israelita de dinamitar o acordo. O atual Governo israelita, viciado na guerra, não deve ter permissão para afogar novamente a nossa geografia no cheiro da pólvora e do sangue”, disse. Após o 7 de Outubro, Israel travou uma guerra em Gaza percecionada em grande parte da região e do mundo como “genocídio”, invadiu o sul do Líbano, ocupou território na Síria e lançou duas ofensivas aéreas contra o Irão. Adivinha-se mais uma guerra na região? A assinatura deste pacto “não significa que estes três Estados estejam a preparar uma guerra contra Israel - não estão -, mas significa que o espaço para a hegemonia militar israelita e para a gestão norte-americana da segurança regional pode estar a estreitar-se”, diz o investigador. “ Depois de uma agressão injustificada e ilegal que demonstrou os limites da força como instrumento de ordenamento do Médio Oriente, o Acordo de Meca corresponde aos Estados da região começarem a procurar uma ordem de segurança menos dependente de Washington. E essa talvez seja, a prazo, uma das consequências geopolíticas mais importantes da guerra.” Para Donald Trump, o arquiteto dos Acordos de Abraão que há muito tenta persuadir a Arábia Saudita a assina-los, normalizando dessa forma a relação diplomática com Israel e arrastando outros países muçulmanos, esse parece ser um objetivo cada vez mais distante. Riade insiste que não o fará até que haja um caminho para a criação de um Estado palestiniano que, no terreno - com Gaza destruída e a Cisjordânia indefesa perante a violência dos colonos -, é cada vez mais uma miragem. “A política de força de Washington e Telavive pode estar a produzir aquilo que pretendia evitar: uma maior coordenação entre potências regionais e uma redução da dependência destas relativamente aos Estados Unidos”, conclui Ponte e Sousa. “O Irão continua isolado em vários aspetos, mas a arquitetura regional está menos disponível para ser organizada exclusivamente a partir de Washington.” Margarida Mota Jornalista Margarida Mota