O DADO QUE NÃO CHEGA
2026-08-14 08:33:02

A crónica da semana passada parou na jurisdição, em quem manda nos dados. Faltava a camada que só quem combate põe à cabeça, a da entrega. Perguntei aqui, na semana passada, a quem obedecem os dados. Quem lidera tropas devolveu-me a pergunta seguinte, e mais dura: de que serve os dados serem nossos se não chegarem a quem deles precisa, no momento em que precisa e debaixo de fogo? Ter dados não é o mesmo que fazê-los chegar. A posse e a lei dizem de quem são. Não dizem que aterram no posto de comando no segundo em que decidem uma vida. Entregar é fazê-los chegar inteiros e a tempo, e negar essa chegada não obriga a cortar um único cabo. A crónica da semana passada parou na jurisdição, em quem manda nos dados. Faltava a camada que só quem combate põe à cabeça, a da entrega. Foi um alto responsável militar que ma devolveu, e tinha razão. As guerras recentes ensinam-na sem piedade. Em 2022, sobre a Crimeia, uma operação ucraniana ficou pendurada porque o serviço de satélite de que dependia, de um privado americano, não foi activado à hora, por uma decisão onde a política se misturou com o risco. A ligação existia; a entrega foi recusada, não no cabo, mas no comando do serviço. Em Março de 2025, segundo relatos públicos, Washington suspendeu a partilha de informações e imagens com a Ucrânia, e as fotografias de satélite, que existiam, deixaram de chegar a Kiev. A imagem estava tirada. Faltou deixá-la aterrar. E há a guerra silenciosa do espectro. No Báltico e em todo o flanco leste, o sinal de GPS é bloqueado ou falsificado à escala industrial. Cerca de 40% do tráfego aéreo europeu já voa com interferência, e treze países emitiram este ano um alerta conjunto. Ninguém cortou nada. Contaminou-se o ar por onde o sinal viaja. Nem tudo é declaração de guerra, e a atribuição é sempre disputada, porque falamos de medidas de zona cinzenta, abaixo do limiar do conflito mas de efeito estratégico. O que fica provado não é a culpa, é a capacidade de negar a entrega sem tocar naquilo a que chamamos nosso. Daqui sai o limite da coluna anterior. A soberania digital tem três camadas, e vale a pena nomeá-las. A jurídica, a de saber a quem os dados obedecem. A infra-estrutural, a dos cabos, dos satélites e dos centros que os guardam. E a operacional, a de os fazer chegar a quem deles precisa, debaixo de fogo. As duas primeiras, que tratei antes, não bastam. A que decide vive onde uma nuvem soberana nada garante: no espaço de onde os dados descem, no espectro por onde viajam e no comando que os converte em decisão. E pede redundância, mais do que uma órbita e mais do que um fornecedor, para que a perda de um não cale o resto. É aí que a Europa corre agora, a destempo. O serviço governamental de satélites entrou em funções em Janeiro, e o IRIS2, a constelação soberana, passou este mês do plano à construção, com serviço apenas em 2029 e menor do que o dos privados de que hoje depende. Contra a interferência, a União monta só agora a autenticação e a vigilância do sinal. Entretanto, o inimigo bloqueia hoje. E aqui a regra que não me canso de repetir: o que faz uma potência não é só a investigação nem o roteiro até 2029, é a produção em série, no terreno, a funcionar. Entre o programa e a capacidade vai a distância que separa o anúncio da máquina que arranca. Neste ponto, e ao contrário do costume, Portugal está a construir na camada certa, e fala pouco disso. Em Março pôs em órbita seis satélites, das constelações Atlântico e Lusíada, capazes de observar a terra e o mar por radar e imagem, de dia, de noite e através das nuvens, e de dar informação de navegação que não depende do GPS de terceiros. São observação e navegação nossas, civis e militares ao mesmo tempo, com a Força Aérea, o operador Geosat e o CEiiA desde o início. E servem tanto a defesa como a segurança de todos os dias, porque a mesma imagem que apoia uma operação militar permite à Marinha vigiar a plataforma continental e seguir o tráfego, o narcotráfico e a espionagem no nosso mar. Entregar a tempo não é só questão de guerra, é também de lei e de ordem. Em terra, a estação de Santa Maria já fala com satélites e vigia o Atlântico, a ilha prepara-se para lançar foguetões no porto espacial que o Atlantic Spaceport Consortium ergue na Malbusca, e nasce uma fábrica de satélites em Alverca. É a camada da entrega, e faz-se do modo certo, com quem combate, quem projecta e quem produz a trabalhar em conjunto, ainda que no princípio. Faltam duas coisas. Aqueles satélites subiram num foguetão americano, e enquanto pôr um satélite no céu depender de terceiros, falta autonomia onde ela mais decide. E uma constelação que se anuncia não é ainda uma constelação a funcionar, protegida contra a interferência e o ataque e mantida no ar todos os dias. Falta acabá-la, defendê-la e sabê-la lançar. Nada disto, porém, tem de ser soberania só portuguesa, nem podia ser. Um país do nosso tamanho não terá sozinho o lançamento ou uma grande constelação, e não precisa, porque a União é, ela mesma, uma extensão da nossa soberania. Schengen estendeu as fronteiras, o mercado único a economia, e nos dados e no espaço a soberania que conta é também europeia. A Portugal cabe fazer a sua parte e encaixá-la nessa soberania maior. Ser peça indispensável, não ilha. Porque a pergunta desta semana é mais afiada do que a da anterior. Não basta os dados serem nossos, nem a lei que os protege, se à hora da verdade não chegarem. Soberania não é ter. É entregar, debaixo de fogo. Jorge Silva Carvalho, Analista de Estratégia, Segurança e Defesa Hoje, 00:08 Jorge Silva Carvalho, Analista de Estratégia, Segurança e Defesa