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LOUCOS POR LIVROS

Negócios Online

2026-08-23 19:49:03

Carina Fonseca O conceito japonês de “tsundoku” diz respeito à acumulação de livros por ler, prática familiar a qualquer pessoa que tenha por hábito adquirir novos títulos apesar dos que já tem empilhados em casa, à espera do momento certo para iniciar (ou retomar) a leitura. Existe uma edição em português sobre o tema - “Tsundoku - A Arte Japonesa de Acumular Livros”, de Taiki Raito Pym (Editorial Presença) -, e encontrámo-la em pelo menos uma das quatro bibliotecas particulares visitadas. Para acomodar tamanha paixão por livros, há quem os guarde em armazéns; e quem tenha doado boa parte da sua coleção para ficar acessível a todos. Carlos Fiolhais “Estendo o braço e, de repente, o mundo está na mão” Na garagem de Carlos Fiolhais cabem pelo menos dois carros, mas o seu fica na rua, porque é lá que guarda parte da extensa coleção de livros. Estima ter à volta de 30 mil exemplares em casa, e já libertou algum espaço, ao criar duas bibliotecas. A mais recente, inaugurada neste ano e batizada com o seu nome, fica na Estação Elevatória de Coimbra, no Parque Manuel Braga. Reúne cerca de 10 mil títulos, que doou ao município, e o catálogo continua a crescer. Antes, já havia construído, de raiz, uma biblioteca dedicada à cultura científica, no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (UC). Começou a cultivar o amor pela leitura aos 12 ou 13 anos, muito graças às bibliotecas, que ajudaram ao seu desenvolvimento, e agora dá o seu contributo para que outros façam o mesmo. Carlos Fiolhais, de 70 anos, é físico e professor catedrático emérito de Física na UC, onde também dirigiu a Biblioteca Geral. Tem mais livros publicados do que anos de vida. Além de cientista e divulgador de ciência, é fascinado pela diversidade humana. “Interesso-me por tudo”, assevera. Por isso, a sua biblioteca abrange os mais variados géneros literários, da ficção à poesia. Há secções com temas tão distintos como história da luz e da cor, pseudociência, portugalidade, inteligência artificial, literatura estrangeira, humor, arte ou banda desenhada. Edições recentes misturam-se com outras antigas, adquiridas em alfarrabistas. Os livros não estão catalogados, mas sabe o lugar de todos. “Estendo o braço e, de repente, o mundo está na mão.” No escritório, os volumes, sobretudo de não ficção, chegam praticamente ao tecto e ocupam até o parapeito da janela. Já na sala ficam os volumes mais pesados. Folheia alguns, encantado com mapas, ilustrações e infografias. Garante que viaja através daquelas e de outras páginas: “Vou a sítios onde nunca fui.” Inclusive, ao passado. Para Fiolhais, os livros “são uma espécie de vida eterna”. Não é avesso a ecrãs, tem “livros eletrónicos que nunca mais acabam”, mas prefere o papel. E não duvida: “É uma heresia ler poesia num ecrã.” Qual o livro da sua vida? “É difícil responder. Mas o que mais impacto teve na minha vida foi o meu primeiro livro Física Divertida (Gradiva, 1991). Podia também ser o primeiro livro que comprei com o meu dinheiro, no início da adolescência: O Átomo , de J.J. Thompson, na coleção Saber, da Europa América. Foi como a primeira moeda do Tio Patinhas.” Já fez alguma maluqueira por um livro? “Se por maluqueira significa dar muito dinheiro, já. Tanto que nem digo quanto. Quando vivi um ano nos EUA, comprei tantos livros, que gastei uma fortuna em excesso de bagagem, no avião. Uns anos antes, quando fiz o doutoramento na Alemanha, os livros vieram de lá de comboio: regressei com muita bagagem, tanto imaterial como material. Já movi tudo para recuperar livros perdidos: por exemplo, uma cadela minha, em pequena, mordeu-me um belo volume encadernado da História de Portugal do José Mattoso, do Círculo de Leitores. Consegui um exemplar da editora quando já estava esgotado. Também já comprei livros meus em alfarrabistas, pois os tinha dado todos...” Miguel de Carvalho “Quanto mais livros acumulas, mais queres ir atrás deles” Nasceu numa família de pescadores e armadores de Buarcos, na Figueira da Foz, e é nessa cidade que tem a livraria homónima. A paixão de Miguel de Carvalho pelo livro antigo surgiu quando estudava Engenharia Geológica, na capital: tinha um amigo cujo pai “era um dos grandes livreiros de Lisboa”, e ia muitas vezes à livraria dele. Passou então a frequentar alfarrabistas, a entusiasmar colegas com os seus achados e a fazer as primeiras vendas, quase por brincadeira. Miguel de Carvalho chegou a trabalhar na área de formação, mas cedo se tornou livreiro antiquário. Os livros antigos, curiosos e raros encantavam-no mesmo enquanto objetos, fosse pelas gravuras, pelo tipo de impressão ou pelo “papel fortíssimo”. Já em miúdo ficara rendido a um dicionário de Inglês-Português do avô, por conter palavras com letras caídas em desuso. “Acumular livros tornou-se obsessivo: quanto mais acumulas, mais queres ir atrás deles”, conta, aludindo ao conceito japonês de “tsundoku”, o hábito de ir somando mais títulos aos que ainda estão por ler. “De repente, temos uma pilha sobre a mesa de cabeceira, depois passa para o chão, depois para a estante, depois formam-se duas filas na estante Quando damos por ela, adormecemos com livros em cima da cama.” Além de alfarrabista e bibliófilo, Miguel é responsável pela editora Debout Sur L Oeuf - Edições Surrealistas (DSO-edições). Recebe muitos contactos para ver bibliotecas particulares e faz “trabalho de detetive”, movido por um espírito de caça ao tesouro comum nos amantes dos livros. Por vezes, essa busca constante gera tensões com cônjuges que não partilham da mesma visão. Até porque resulta em problemas de espaço. Ele escolhe não atulhar a casa de livros, mantendo por perto sobretudo a bibliografia de estudo e o que toca nas suas áreas de interesse intelectual, como poesia, ensaios e surrealismo. Já na livraria, Miguel mostra a casa de banho cheia de sacos com volumes comprados, por arrumar - atualmente, vende livros antigos e comuns, em segunda mão. Há que fazer a triagem entre o que fica na loja e o que vai para os armazéns: tem três, o maior com cerca de 400 metros quadrados. As manhãs costumam ser passadas ali, e muitas noites também. Daí que tenha lá posto uma cama. As fronteiras que separam os seus livros dos que tem para venda são “nebulosas”, explica: “É difícil saber onde acaba a minha coleção e começa o meu negócio, porque os livros são ferramentas”. Vai levando alguns de casa para o armazém, e vice-versa. Ao todo, estima ter cerca de 80 mil exemplares. Já fez alguma maluqueira por um livro? “Já fui a Milão para comprar um livro e vim de lá com uma mala cheia. Os livros fazem-nos aproximar de pessoas, de lugares, e percorrer distâncias.” A quem oferecia um livro, e qual? “Oferecia um exemplar de Teoria da Viagem - Uma Poética da Geografia , de Michel Onfray, a cada pessoa que me pergunta: porque vais atrás dos livros?” Júlio Moreira “Aprendi mais francês a ler banda desenhada do que no liceu” Quando Júlio Moreira abre a porta de casa, no Porto, surgem logo livros à vista, no corredor. Estão um pouco por todo o lado e serão entre 10 e 15 mil, pela sua estimativa. Tem grande parte da biblioteca catalogada, mas esses registos carecem de atualização. Começou a ler muito novo. Aos 13 ou 14 anos, já frequentava alfarrabistas e vasculhava a Feira da Vandoma à procura de títulos que lhe interessassem. Os pais tinham muitos livros, alguns dos quais moram ali agora, assim como quase toda a Coleção Vampiro, que pertencera à tia. Na sala, rodeado pelos gatos Laurel e Hardy (em referência à dupla Bucha & Estica), destaca alguns volumes organizados segundo a data de nascimento do autor. Em dada altura, comprou bastantes em segunda mão. Às vezes, atraído pelo design das capas, a cargo de figuras como Câmara Leme, Sebastião Rodrigues ou Victor Palla. Júlio não costuma desfazer-se de livros, não os vende nem troca, embora já tenha doado alguns. “Sou um bocadinho acumulador”, admite. “Gosto de ter. Quando tenho livros repetidos, ofereço.” Vive na morada atual há mais de 25 anos, mas antes mudou várias vezes de residência. “Foi sempre um pesadelo”, lembra. “Quando me mudei para esta casa, o meu irmão disse-me que era a última vez que me ajudava nas mudanças. Estava farto de carregar.” Lê um pouco de tudo, em especial, ficção e banda desenhada. O gosto pela última vem de miúdo: “Aprendi mais francês a ler BD do que propriamente no liceu.” A sua biblioteca também reflete uma vida de trabalho rente à área da Cultura. Passou pela Câmara do Porto, por equipamentos como o Rivoli e a Casa da Música, foi programador no âmbito da iniciativa Porto 2001 e mais. Hoje, aos 65 anos, reformado, continua a fazer parte de projetos como a associação Turbina, a editora de banda desenhada A Seita ou a Bedeteca situada no primeiro piso do centro comercial Brasília, junto à livraria Mundo Fantasma, na Boavista. Assente no voluntariado, disponibiliza milhares de títulos de banda desenhada, de quarta a sábado, das 15 às 19 horas (encerra em agosto). Há uns anos, por questões de espaço, Júlio adquiriu um armazém - ou arquivo, como prefere chamar-lhe - onde guarda jornais, revistas, programas de teatro, cinema e outros documentos. “Precisava de um espaço que pudesse ser mexido”, explica. “E gostava de, um dia, fazer um inventário do trabalho que fiz.” Terminada a visita à sua casa, remata: “Dizem que já não tenho paredes para pôr estantes, mas ainda se arranja. Vou ter de decidir o que sai daqui para o armazém.” Já fez alguma maluqueira por um livro? Já foi até Loures só para comprar livros no armazém de uma associação. “Gastei 300 e tal euros nesse dia, trouxe para aí 150 livros; no meio deles, vinha um catálogo do cinema americano dos anos 1950, da Gulbenkian, que não se encontra com facilidade”, recorda. A quem oferecia um livro, e qual? “Poderia recomendar qualquer uma das publicações que a Bedeteca de Lisboa publicou ou ajudou a publicar nos seus anos de enorme pujança cultural, mas escolhi este catálogo que celebra a exposição de autores portugueses no maior e mais importante Festival de BD do mundo, o de Angoulême. E aproveito para o dedicar ao presidente da Câmara de Lisboa, para lhe recordar que tem nas suas mãos uma Bedeteca que fez história em Portugal e precisa de ser reativada com um programa e uma ambição à altura dessa importância histórica.” Helena Mendes Pereira “Gosto de ter poesia na cabeceira, para ler às vezes, como a Bíblia” Sempre apreciou a escola e a leitura. Lembra-se de, no segundo ano, ter partido um pé e ficado na cama, “com o pé ao alto, a ler”. Helena Mendes Pereira, filha única, cresceu numa casa com livros e fez deles companhia. Alguns, que se revelaram estruturantes na sua formação cívica e política, descobriu ainda adolescente (e releu mais tarde). Foi o caso de “A Condição Humana”, de André Malraux. Acresce que uns autores a conduziram a outros, como Simone de Beauvoir (“Se pudesse ressuscitar alguém para conversar, era ela”), porque os livros vão abrindo portas quase por “magia”, nota a diretora-geral das galerias ZET e do Muzeu - Pensamento e Arte Contemporânea dst, equipamentos ligados ao grupo bracarense DST. Gestora cultural, curadora e professora, também ligada à associação cultural Astronauta, Helena guarda alguns livros no seu gabinete, no Muzeu, outros na residência dos pais e milhares na sua casa, em Braga. Casa essa que lembra uma galeria, com várias obras de arte nas paredes e estantes bem recheadas. É apaixonada por livros em papel, assim como o marido e o filho, Jaime, de apenas dois anos. “Todos os dias, ao acordar, quer uma historinha. Desde pequenino, contacta com livros e ouve histórias. Por agora, nós é que decidimos que livros compra, mas quando for maior será mais complicado”, observa, aludindo a eventuais problemas de espaço. Quando se mudou para a presente morada, há quatro anos, fez uma tentativa de contabilização dos livros que ficou pelo caminho: “Entretanto, já comprámos mais estantes”. E está a estudar formas de acomodar novas aquisições, quiçá sacrificando o espaço dedicado a outros objetos. Procura organizar os títulos por temáticas, mas nem sempre acontece: “Quando começam a existir muitos livros, é um bocado onde couber”. Dos que estão à vista, Helena estima que 70% sejam seus. Não gosta de ler em ecrãs. Mesmo como arguente em teses de mestrado e doutoramento, faz questão de imprimir tudo. Agradam-lhe a textura e o cheiro dos livros, e tem por hábito dobrar os cantos das páginas prediletas. À mistura com os livros e catálogos de exposições surgem recordações de viagens, discos de vinil, CD e DVD. “Mesmo nos discos e filmes continuamos a ler, noutros suportes.” As idas ao estrangeiro passam, invariavelmente, por livrarias. Privilegia o comércio tradicional e considera a livraria bracarense Centésima Página “uma das melhores do país”. “Às vezes, numa conferência, referem um livro, vou procurá-lo online e compro-o logo”, assume. No âmbito profissional, lê muito sobre estética e filosofia. Anda com vontade de se dedicar aos romances. E acontece-lhe encontrar respostas em poemas, desde há longo tempo: “Gosto de ter um livro ou dois de poesia na mesa de cabeceira, para ler às vezes, como a Bíblia. Sou crente na poesia.” O livro da sua vida: “ A insustentável leveza do ser , de Milan Kundera.” Já fez alguma maluqueira por um livro? “Por um livro, não. Mas já esperei três horas numa fila para que o António Lobo Antunes me assinasse todos os livros que tinha dele.” Carina Fonseca