pressmedia logo

O DOURO FAZ-SE PARA ALÉM DO RIO

Expresso Online

2026-09-02 07:32:07

O turismo fluvial já demonstrou a capacidade do Douro para crescer e afirmar-se como destino turístico. O futuro passa agora por ligar o rio ao território, articulando a mobilidade, as infraestruturas e outros ativos turísticos para criar mais valor A recente visita do Presidente da República ao Douro voltou a colocar a região no centro da discussão sobre o desenvolvimento do território e sobre a importância de uma visão estratégica e integrada para o seu futuro. Durante a viagem pela Linha do Douro, António José Seguro defendeu precisamente a necessidade de articular investimento, turismo e acessibilidades, envolvendo diferentes entidades numa estratégia capaz de potenciar o desenvolvimento económico e turístico da região. Esta reflexão é particularmente relevante quando se olha para o turismo fluvial. O crescimento desta atividade demonstrou a capacidade do Douro para se afirmar enquanto destino turístico, mas também evidencia uma realidade que deve ser tida em conta quando se pensa o seu futuro: o sucesso do turismo fluvial nunca dependeu exclusivamente do rio. Durante décadas, grande parte do crescimento dos cruzeiros de um dia foi construída através da complementaridade entre a navegação e a Linha do Douro. Milhares de visitantes realizaram percursos entre o Porto, Régua, Pinhão, Tua ou Pocinho combinando barco e comboio como partes de uma mesma experiência turística. O rio permitia conhecer o Douro a partir da água; a ferrovia permitia continuar essa descoberta pelo território. A articulação entre os dois meios não era, por isso, apenas uma questão de transporte, mas uma forma de construir uma experiência turística mais completa. Essa complementaridade foi também reconhecida institucionalmente. Em 2017, a CP e os principais operadores marítimo-turísticos do Douro celebraram um protocolo de cooperação destinado a reforçar o transporte de passageiros na Linha do Douro e a valorização da marca turística Douro, tendo sido criada uma oferta ferroviária dedicada aos turistas dos cruzeiros fluviais. O exemplo demonstra que a articulação entre diferentes infraestruturas e formas de mobilidade não é uma ideia meramente teórica: já existiu uma resposta concreta orientada para integrar diferentes componentes da experiência turística. Importa igualmente reconhecer o papel que os operadores marítimo-turísticos desempenharam na afirmação nacional e internacional do Douro ao longo das últimas décadas. O crescimento da procura turística, a criação de emprego, a dinamização de serviços locais e a atração de visitantes de todo o mundo resultam também do investimento contínuo realizado pelas empresas do setor. Este contributo demonstra que o turismo fluvial não é apenas um utilizador das infraestruturas existentes, mas um verdadeiro agente de desenvolvimento económico para a região. É precisamente esta lógica que importa recuperar quando se pensa no futuro do Douro. A experiência de quem visita a região não começa quando entra num barco. Começa na forma como chega, na facilidade com que consegue circular, nos pontos que consegue visitar e na possibilidade de combinar diferentes experiências ao longo da sua passagem pelo território. Por isso, pensar o futuro do turismo fluvial implica necessariamente olhar para além da navegação. A ferrovia é um exemplo evidente desta complementaridade, mas a questão é mais ampla. Estradas, cais, estações, localidades, quintas e outros ativos turísticos fazem parte da mesma experiência. Para quem visita o Douro, estas dimensões não existem como realidades separadas: fazem parte de um único destino. É precisamente por isso que não basta garantir que existem infraestruturas; é necessário que estas se complementem e contribuam para uma estratégia comum de valorização do território. Esta questão é particularmente relevante tendo em conta a dimensão que o turismo fluvial já alcançou. O setor deixou há muito de ser uma atividade complementar e assumiu um papel relevante na economia e na afirmação turística do Douro, demonstrando a capacidade da região para crescer enquanto destino turístico. A próxima etapa não deverá passar apenas por continuar a aumentar a capacidade de atração do destino, mas por garantir que existem condições para que os visitantes possam conhecer melhor o território e que o crescimento da atividade se traduza em valor para uma região mais ampla. Isso exige uma mudança de perspetiva: em vez de pensar cada infraestrutura ou atividade de forma isolada, é necessário pensar o Douro enquanto um destino turístico integrado. A mobilidade, a navegação, os acessos e os diferentes ativos turísticos devem ser entendidos como partes de uma mesma equação, porque é da sua articulação que depende, em grande medida, a qualidade da experiência oferecida e a competitividade futura da região. Esta visão integrada permite também olhar para o investimento de outra forma. O desenvolvimento de uma infraestrutura não deve ser avaliado apenas pelo seu impacto direto, mas também pela capacidade de potenciar outros investimentos, gerar novas oportunidades para o território e para as atividades que nele se desenvolvem. No Douro, onde o turismo fluvial se articula naturalmente com outras dimensões da economia regional, esta capacidade de criar efeitos positivos em cadeia é bastante relevante. O Douro tem no rio um dos seus maiores ativos, mas o futuro turístico da região dependerá também da capacidade de ligar esse ativo ao território que o rodeia. A competitividade do destino constrói-se na relação entre diferentes lugares, infraestruturas e formas de mobilidade, criando condições para que os visitantes conheçam e valorizem uma região que vai muito além das margens do rio. O Douro não se faz apenas no rio. Faz-se na capacidade de ligar o rio ao território e de transformar essa ligação numa vantagem para o futuro do destino. Vasco Silva Vice-presidente da Associação das Atividades Marítimo-Turísticas do Douro (AAMTD) Vasco Silva