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TURISMO NÁUTICO CRESCE, MAS FALTA DE INFRAESTRUTURAS TRAVA EXPANSÃO

Sapo Online

2026-09-12 16:45:04

Procura pelo turismo náutico cresce em Portugal impulsionada pelos mercados internacionais e pela diversificação da oferta. Porém, faltam infraestruturas, além de mão-de-obra e financiamento O turismo náutico mantém uma trajetória de crescimento em Portugal, mas a falta de infraestruturas ameaça limitar a expansão do setor. No Douro, um dos principais polos de turismo fluvial do país, os operadores apontam para uma época alta positiva, mas identificam as eclusas e os cais como alguns dos principais constrangimentos ao crescimento da atividade. Escolha o ECO como fonte preferida no Google Escolher “A época alta está a decorrer de forma globalmente positiva”, afirma Vasco Silva, vice-presidente da Associação das Atividades Marítimo-Turísticas do Douro (AAMTD), que, com base nos indicadores recolhidos junto dos associados, aponta para níveis de procura “em linha ou ligeiramente acima” dos registados no verão passado. A evolução não é, contudo, uniforme em todo o país. António Marques Vidal, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE) aponta para uma época em “bom ritmo”, mas salienta que o arranque foi penalizado pelas condições meteorológicas adversas em maio. Nos meses seguintes houve uma recuperação, embora a procura se mantenha, em média, ligeiramente abaixo da registada no período homólogo, segundo a associação. Os dados mais recentes confirmam a trajetória de crescimento do turismo fluvial no Douro. Em 2025, a Via Navegável do Douro registou 1.388.646 passageiros, contra 1.377.858 no ano anterior, mantendo, segundo a associação, oito anos consecutivos de crescimento. A atividade envolveu ainda 113 operadores, 252 embarcações e quase 17 mil eclusagens. Os “cruzeiros turísticos de curta duração continuam a representar o segmento mais expressivo, enquanto os navios-hotel mantenham uma trajetória de crescimento sustentado”, detalha o vice-presidente da AAMTD. Entre as experiências mais procuradas estão os cruzeiros entre pontes e nas diferentes albufeiras, os percursos de um dia entre Porto, Régua, Pinhão e Barca d Alva, os programas ligados ao enoturismo e às quintas durienses e as experiências premium associadas ao vinho, gastronomia e património. A dimensão da atividade marítimo-turística insere-se num setor náutico mais vasto. Existem atualmente 2.577 embarcações marítimo-turísticas registadas em Portugal, num universo de mais de 73 mil embarcações de recreio. Segundo um estudo da ACAP Divisão Náutica, realizado em 2025 e citado pelo Fórum Oceano, a náutica de recreio envolve mais de 6.000 empresas, 10 mil trabalhadores e 556 milhões de euros de volume de negócios, colocando Portugal no 12.º lugar europeu. O número de novos registos de embarcações cresceu 6,8% entre 2022 e 2023, para cerca de 5.000 por ano. Estrangeiros puxam pela procura No Douro, a procura é fortemente impulsionada pelos mercados internacionais, com os Estados Unidos a assumirem particular destaque no segmento dos navios-hotel. Reino Unido, França, Alemanha, Canadá e Austrália estão também entre os principais mercados emissores, enquanto Espanha tem vindo a ganhar peso nos cruzeiros de um dia, assinala a AAMTD. “Trata-se, regra geral, de mercados de longa distância, associados a estadias mais prolongadas, maior despesa média e um impacto económico relevante para toda a cadeia de valor turística do Douro”, salienta Vasco Silva, vice-presidente da AAMTD. Um exemplo desta procura internacional pelo segmento de maior valor é a Pipadouro, operadora de turismo fluvial de luxo no Douro. A empresa cresceu 14% em 2025 face ao ano anterior e 90% dos seus clientes são estrangeiros. Com atividade desde 2007, a empresa diz ter acompanhado no último ano a tendência mundial do mercado de luxo para experiências cada vez mais personalizadas e não massificadas, com “elevados níveis de personalização e uma forte valorização da autenticidade e da ligação emocional aos destinos”. A Pipadouro opera no Douro com uma frota que inclui o Friendship I, de 1957, e o Pipadouro II, um Vintage Boat de 30 pés, datado de 1965. A empresa desenvolve o conceito de turismo fluvial de luxo Vintage Wine Travel e tem como acionistas Gonçalo Correia dos Santos, sócio fundador, Quinta do Crasto, Real Companhia Velha e o grupo de investimento GLD. Massagem a bordo do Friendship l da Pipadouro29 junho, 2025 O mercado nacional mantém igualmente relevância, segundo a AAMTD, beneficiando da crescente valorização do turismo interno e da atratividade do Douro enquanto destino turístico. O líder da APECATE nota, contudo, diferenças significativas entre regiões: no Algarve e em Lisboa predominam os turistas estrangeiros, enquanto em outros destinos os portugueses assumem maior peso. No Algarve destacam-se os mercados europeus, enquanto no Douro sobressaem os norte-americanos. Segundo o secretário-geral do Fórum Oceano, Ruben Eiras, a procura tem correspondido às expectativas da Rede das Estações Náuticas de Portugal e já não está limitada às atividades tradicionalmente associadas ao mar ou aos meses de verão. Stand up paddle, canoagem, passeios de barco e vela ligeira estão entre as atividades com maior procura, enquanto o surf continua a ser um dos principais motores de atração, sobretudo entre os públicos mais jovens. Mergulho, kitesurf e pesca desportiva têm também vindo a consolidar-se junto de segmentos mais específicos, detalha Rúben Eiras. “Esta diversificação permite aos parceiros da Rede das Estações Náuticas captar segmentos de mercado muito distintos, que de outra forma não encontrariam na náutica uma proposta à sua medida”, diz Ruben Eiras. Apesar de a época alta continuar concentrada entre maio/junho e setembro, o turismo náutico é apontado como um dos segmentos que pode ajudar a combater a sazonalidade e impulsionar o crescimento no interior do país. A expansão para rios e albufeiras está a permitir levar a atividade para territórios do interior e criar oferta ao longo de todo o ano. A região Centro conta atualmente com 19 estações náuticas certificadas, sendo a região com maior número e aquela onde existem mais estações no interior do que no litoral, segundo o Fórum Oceano. O turista não tem fronteiras, procura experiências autênticas e diferenciadoras, esteja essa experiência associada ao mar, a um rio ou a uma albufeira no interior do país. Rúben Eiras Secretário-geral do Fórum Oceano “O turista não tem fronteiras, procura experiências autênticas e diferenciadoras, esteja essa experiência associada ao mar, a um rio ou a uma albufeira no interior do país”, defende Ruben Eiras. Para a AAMTD, o desafio já não passa apenas por aumentar o número de visitantes, mas por aumentar o valor gerado pela atividade, melhorar a experiência turística e assegurar um crescimento sustentável. O presidente da APECATE considera igualmente que existe margem significativa para crescer, do Alqueva às barragens e albufeiras do interior e ao longo de toda a costa, entre o Algarve e o Minho. Falta de infraestrutura é o principal travão É precisamente neste ponto que surgem alguns dos principais desafios. A AAMTD identifica a modernização e aumento da capacidade operacional das eclusas como um dos fatores que mais condicionam o crescimento futuro da atividade no Douro. A requalificação dos cais e das infraestruturas portuárias, a sustentabilidade ambiental, a escassez de recursos humanos qualificados e a gestão da crescente procura estão também entre os problemas identificados pelos operadores. A nível nacional, o diagnóstico do Fórum Oceano é semelhante. Em zonas de maior procura, sobretudo marinas e cais, a capacidade pode esgotar-se durante a época alta. No interior, existem ainda locais sem cais ou ancoradouros e outros onde as condições de segurança não são consideradas suficientes para suportar o desenvolvimento da atividade. “São necessários mais investimentos”, defende Ruben Eiras, apontando para a necessidade de reforçar cais, ancoradouros, rampas e equipamentos de apoio, sobretudo no interior. O Fórum Oceano aponta ainda para a escassez de oportunidades de financiamento especificamente dirigidas ao turismo náutico, sobretudo para investimentos em marinas, cais, rampas e outros equipamentos de apoio à atividade. O secretário-geral do Fórum Oceano alerta ainda que o setor enfrenta igualmente uma forte fragmentação empresarial, com muitas micro e pequenas empresas a sentirem dificuldades em áreas como a capacitação, digitalização e certificação. António Marques Vidal acrescenta à falta de infraestrutura, o excesso de burocracia e legislação que considera desajustada, bem como a falta de portos especificamente preparados para a atividade de animação turística. Custos pressionam margens O aumento da procura não está, contudo, a traduzir-se automaticamente numa melhoria equivalente da rentabilidade das empresas. No Douro, os operadores têm feito atualizações moderadas dos preços, mas a AAMTD alerta que os custos de combustíveis, energia, manutenção, seguros, financiamento e recursos humanos continuam a pressionar as margens. “Apesar da robustez da procura, a rentabilidade não cresce necessariamente ao mesmo ritmo da faturação, uma vez que subsistem desafios relacionados com custos laborais, manutenção da frota, exigências regulatórias e investimentos associados à transição energética e sustentabilidade das operações”, aponta ao ECO Vasco Silva, vice-presidente da AAMTD. Apesar da robustez da procura, a rentabilidade não cresce necessariamente ao mesmo ritmo da faturação, uma vez que subsistem desafios relacionados com custos laborais, manutenção da frota, exigências regulatórias e investimentos associados à transição energética e sustentabilidade das operações. Vasco Silva Vice-presidente da AAMTD O presidente da APECATE aponta igualmente para um aumento dos custos e da carga fiscal. Os preços das atividades náuticas, segundo a associação, têm evoluído globalmente em linha com a inflação, mas o aumento dos custos continua a penalizar a rentabilidade das empresas. A escassez de mão-de-obra qualificada é outro dos principais problemas. Persistem dificuldades no recrutamento e retenção de tripulações, técnicos especializados e profissionais ligados à operação turística, numa atividade que enfrenta ainda o desafio adicional da sazonalidade do emprego. A Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos alerta ainda para constrangimentos legais à contratação de navegadores de recreio, que, segundo a associação, poderiam em alguns casos suprir parte das necessidades das empresas. A Associação das Atividades Marítimo-Turísticas do Douro defende, neste contexto, a criação de modelos de qualificação e certificação profissional mais ajustados à realidade da Via Navegável do Douro. A nível nacional, o Fórum Oceano identifica também a sazonalidade da mão de obra qualificada como um dos obstáculos ao desenvolvimento do setor, nomeadamente no caso de monitores, skippers e guias certificados, difíceis de reter fora dos meses de verão. Douro gera até 450 milhões por ano Embora não existam dados oficiais consolidados sobre a faturação do turismo náutico em Portugal, a AAMTD estima que o turismo fluvial no Douro gere atualmente entre 350 e 450 milhões de euros por ano e seja responsável por mais de 8.000 postos de trabalho diretos. A nível nacional, o secretário-geral Fórum Oceano, Ruben Eiras, salienta que o turismo náutico não dispõe ainda de uma rubrica estatística própria e desagregada nas estatísticas oficiais, o que dificulta a medição do peso económico da atividade e o planeamento estratégico do setor. Para o Fórum Oceano, a falta de dados consolidados pode também dificultar o acesso a financiamento, uma vez que muitas linhas de apoio exigem informação sobre a dimensão do mercado e o seu potencial de crescimento. Margem para crescer, mas com mais valor O porta-voz do Fórum Oceano considera que a margem de crescimento continua a ser significativa, sobretudo nas águas interiores, na náutica de recreio de médio e longo curso e na ligação entre experiências náuticas, gastronomia, património e natureza. Rúben Eiras aponta a digitalização da oferta e a certificação de qualidade são outras áreas com potencial, enquanto a adoção de soluções de menor impacto ambiental começa também a ganhar espaço, nomeadamente através de embarcações elétricas e eletrossolares. Para a AAMTD, o objetivo é consolidar o Douro como destino fluvial de referência internacional, mas garantindo que o crescimento é acompanhado por investimento, planeamento e sustentabilidade. O setor não precisa apenas de crescer mais, precisa de crescer melhor. Vasco Silva Vice-presidente da direção da AAMTD “O setor não precisa apenas de crescer mais, precisa de crescer melhor“, resume o vice-presidente da direção da AAMTD. A aposta num turismo náutico de maior valor acompanha, assim, uma mudança mais ampla no setor turístico português: depois dos anos de recordes, o desafio passa cada vez mais por crescer com maior valor acrescentado. ECO