JOSÉ VIALE MOUTINHO, O ESCRITOR TOTAL
2026-09-25 23:56:02

1945-2026. Escritor, jornalista e investigador, deixa uma obra literária vasta, traduzida em várias línguas e muito premiada, além de uma intervenção no coletivo cultural Um certo cansaço pode aparecer nos leitores, associado ao excesso de posts de homenagem e comentários elogiosos sobre uma pessoa quando morre. Primeiro lemos, comovidos, as histórias de cada um com aquela pessoa que nunca mais veremos. Como numa trend que andou por aí, aceitamos e não julgamos. E depois ficamos cansados, pois bem se costuma dizer que tudo o que é demais acaba por desinteressar. Os factos, porém, não cansam. Temos datas, causas de morte, locais de morte, notícias que mostram como as coincidências existem. Jorge Palma, Walter Osswald, José Viale Moutinho são três pessoas que deram contributos muito relevantes ao nosso país e que desaparecem quase ao mesmo tempo, no fim do verão. O escritor prolífico José Viale Moutinho morreu a 22 de setembro, no Porto, de doença súbita. José Viale Moutinho nasceu a 12 de junho de 1945, na Rua da Carreira, nº 74, no Funchal, sítio imortalizado num desenho a lápis do escultor Ricardo Velosa para um texto publicado no seu blogue. A apresentação dos seus pais nesse mesmo “arremedo autobiográfico” revela um escritor de fôlego, cuidadoso com a linguagem e que ama a língua portuguesa. Assim, conta que era “filho de um homem do Douro, extraordinário efabulador, desinteressado das vinhas e dos olivais da família, dele e de uma inglesa, que levara como dote uns brincos de sua mãe e memórias de uma riqueza palaciana carregada de preconceitos, inclusive de classe”. Em 1966 escreve a sua primeira obra, mas conta que queimou toda a edição, por isso se fala de “Natureza Morta Iluminada” como o seu primeiro livro As férias eram passadas no Douro a ouvir as histórias contadas pelo pai, sempre ricas de personagens e acontecimentos que não compreendia. A casa dos avós estava repleta de objetos fascinantes, como eram tipicamente as casas dos avós, que não se preocupavam nem a acumular nem a desfazer-se de nada. A matéria para a escrita de Viale Moutinho ali estava para sempre. No final do texto, depois de lembrar uma série de pessoas importantes na sua vida, Viale Moutinho conclui: “Ah, mas já não está aí ninguém? Pois, nunca aí esteve ninguém. Também me vou embora, só me resta ser o escritor e o bonhomme que me parece sempre fui.” Antes desta despedida antecipada, que ficaria bem no fim deste obituário, houve uma vida cheia, variada e plena, no sentido em que Viale Moutinho cumpriu um poema escrito em grego, fazendo da sua vida “o que quis”. Estudou em Espinho e mais tarde seguiria para o Porto, e aí ganhava “o gosto da História e de alguns caminhos da Antropologia”. Já tinha colaborado no suplemento literário do “Jornal de Notícias” quando começa a escrever notícias e a fazer reportagens. Conhece o país e entrevista Eugénio de Andrade. Começa a ir a Lisboa e conhece Urbano Tavares Rodrigues, uma influência “decisiva”. Trabalha durante 30 anos no “Diário de Notícias”. Em 1966 escreve a sua primeira obra, mas conta que queimou toda a edição, por isso se fala de “Natureza Morta Iluminada” como o seu primeiro livro. Segue-se uma produção literária riquíssima nos mais variados géneros: romance, conto, poesia, ensaio, literatura infantil. Organiza uma fotobiografia de Camilo Castelo Branco, autor sobre o qual publica uma extensa obra. Faz recolhas e antologias de literatura tradicional portuguesa, recuperando autores e uma tradição oral que faz parte do nosso património. Foi premiado pela sua obra, entretanto traduzida em várias línguas, nomeadamente com o Prémio D. Dinis, por “Cimentos da Noite”, o Prémio de Consagração de Carreira Inês de Castro, o Grande Prémio de Literatura DST, o Prémio de Conto Branquinho da Fonseca e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, em que seria repetente. Ainda no seu “arremedo autobiográfico” confessa: “Andei pelo associativismo cultural, mas desencantei-me.” Foi diretor da Associação Portuguesa de Escritores (APE), da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia e do Círculo de Cultura Teatral e presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Militante do PCP, foi candidato em eleições pelo círculo da Madeira. A CDU/Madeira realçou “o homem corajoso, implacável, por vezes paradoxalmente afável, poético, militante, impiedoso”. Viria a dedicar-se à Guerra Civil Espanhola e à História em geral, a área do saber mais próxima da ficção. Referências Presidente da República lamenta morte de José Viale Moutinho Notícia da morte, Jornal de Notícias “Arremedo autobiográfico”: Obituário Diário de Notícias Obituário AbrilAbril Nota de pesar Fundação Casa de Mateus Nota de pesar Museu do Aljube Resistência e Liberdade Entrevista Entre Nós Carla Quevedo Carla Quevedo