pressmedia logo

2026: BOAS ANÁLISES, MAU PROGNÓSTICO

Sapo Online

2026-09-29 10:05:04

Denis Pizhin: Licenciatura em Medicina - Universidade Estatal da Crimeia, Ucrânia; Equivalência do grau - ICBAS, Universidade do Porto; Internato de Medicina Interna - Centro Hospitalar Universitário do Algarve; Formação em Medicina Intensiva - Hospital de São José, CHULC; Especialista em Medicina Intensiva e Medicina Interna; competência em Medicina de Emergência; INEM: médico de VMER desde 2015; anteriormente CODU e SHEM Revisão do ano na saúde em Portugal: menos urgências fechadas, mais doentes fora do tempo, mais hospitais privados. Não é contradição. É desenho. Ou maldição? Há um erro que se ensina no primeiro ano da formação médica, como exemplo do que não fazer: tratar a análise em vez do doente. O potássio normaliza. O doente morre na mesma. Em 2026, o sistema de saúde português apresentou boas análises. As urgências estiveram encerradas durante 278 dias este verão, contra 848 em 2025 e 1.412 em 2024. Na obstetrícia, 255 dias até agosto; depois, 691 e 1.040. São números verdadeiros. Resultam de trabalho em rede, de escalas combinadas e de algo raro no SNS: planeamento. Os outros números também são verdadeiros. Menos 4,7% de cirurgias programadas no primeiro semestre. 88.077 doentes à espera para além do tempo máximo garantido, mais 17,9% num ano, quase um terço da lista. 1.563.710 pessoas sem médico de família no fim de 2025, mais do que um ano antes. É um Quadro Global de Referência que fixa, para 2028, a cobertura de 2024, quando a meta era cobrir 98% já este ano. Foi também o ano em que a Direção Executiva mandou os hospitais não crescerem. Em março, instruiu-os a não aumentar as consultas nem as cirurgias, sem reforço de meios. O orçamento da saúde cresceu 2,7% em termos nominais, num sistema em que só a dívida vencida tinha crescido 31% no ano anterior. A 22 de setembro, no Parlamento, a ministra garantiu que o SNS “não está nem vai estar em cuidados paliativos”. Tem razão num ponto. Em cuidados paliativos, há um plano, objetivos escritos e alguém responsável por eles. Fechar menos não é tratar mais O indicador escolhido para medir o sucesso foi o dia de encerramento. É um bom indicador para quem gere e um mau indicador para quem espera. A porta ficou melhor guardada. Com o SNS 24 a filtrar à entrada, os episódios de urgência do inverno desceram de 2,02 para 1,85 milhões. Mas os casos realmente urgentes subiram para 67% do total e o tempo de permanência voltou a aumentar. O problema não saiu do hospital. Mudou de sala. Mudou para o corredor. A APAH contou com 2.807 pessoas internadas com alta clínica: 13,9% das camas do SNS, 351 milhões de euros por ano, três hospitais grandes a fazer de lar. Em maio, metade dos serviços de medicina intensiva tinha camas fechadas - 120 no total - por falta de enfermeiros. Em setembro voltaram as esperas de quase dez horas, e a Ordem dos Médicos pediu um grupo de trabalho só para Lisboa e Vale do Tejo. Goodhart deixou uma lei para isto: quando um indicador passa a ser o objetivo, deixa de ser um indicador. Diane Vaughan deixou outra: a prática que viola o padrão repete-se, não acontece nada e passa a ser o padrão. A maca no corredor já não é contingência de inverno. É mobiliário. A resposta é mais um grupo de trabalho para repensar a rede de urgências e as urgências regionais de ortopedia e traumatologia até ao fim do ano. Pode resultar. Mas o gargalo do serviço de urgência não é a entrada. O gargalo está na saída, e nenhum grupo de trabalho abre camas. O prémio por peça A quebra cirúrgica tem explicação, e foi a própria Direção Executiva que a deu: a produção base subiu 0,4%; a produção adicional caiu 11,4%. Traduzindo: a capacidade cirúrgica do SNS depende de um prémio pago à peça, fora do horário. Quando o prémio vacilou, a lista cresceu. Após os casos de abuso noticiados, várias administrações suspenderam a atividade adicional. Braga fez 29% menos cirurgias; Santa Maria, 27% menos. No fim de junho, a Portaria n.º 281/2026 passou a descontar o preço das próteses no pagamento às equipas. Em julho, ortopedistas, oftalmologistas e neurocirurgiões pararam. Não é preciso má-fé em nenhum ponto desta cadeia. Basta o desenho. O SNS paga o ato e não a prontidão. O caso curto e limpo opera-se ao sábado; o complexo fica na lista. E a lista é o melhor argumento comercial de quem está do outro lado da rua. Há ULS com mais de metade dos doentes fora do tempo clinicamente recomendado: Loures-Odivelas, com 63%; Estuário do Tejo, com 55%; Algarve, com 51%. Loures foi gerida em parceria público-privada até 2022, com pagamento por capitação, população ajustada ao risco, indicadores auditados e penalizações. Em março de 2025, o Governo aprovou o regresso das PPP a cinco hospitais, incluindo o de Loures, com concursos para a ULS inteira em 2026. Em julho, o estudo solicitado à ACSS para as justificar ainda não havia sido entregue. Não afirmo que o modelo de gestão explique os 63%. Afirmo que, dezoito meses depois da decisão, ninguém publicou as contas. Decide-se por convicção e adia-se por prudência. O médico não se perdeu. Ficou mais caro. Em 2025, o SNS gastou 249,7 milhões de euros com médicos tarefeiros, mais 17%, um recorde. A resposta de 2026 foi trancar a porta das traseiras. Desde 1 de julho, quem não concorra às vagas num raio de 60 quilómetros de onde fez o internato, ou que tenha saído do SNS nos dois anos anteriores, fica impedido de trabalhar à tarefa no SNS por dois anos. Em outubro sai a portaria com os novos valores por hora, e os prestadores já admitem não comparecer às escalas. O inverno dirá quem tinha razão. Há duas maneiras de tornar o quadro mais vantajoso do que a saída: melhorar o funcionamento e a organização, ou piorar a saída. A segunda é mais barata no Orçamento e mais cara no terreno. O mesmo Quadro Global de Referência que promete valorizar os profissionais limita os novos recrutamentos permanentes a 1,4%: uma ULS com um médico disponível e uma vaga por preencher pode ficar impedida de contratá-lo. Chama-se a isto política de recursos humanos. O concurso de julho para médicos de família preencheu 273 das 711 vagas. Mas os colocados representaram cerca de 90% de todos os que concluíram a especialidade. Não recusaram o SNS. Não chegam e não estão onde estão as vagas. Lisboa e Vale do Tejo ocupou 113 de 446. O Litoral Alentejano, nenhuma das suas 24. A solução prometida no Plano de Emergência eram 20 USF modelo C para 360 mil utentes. Abriu uma, em agosto, em Torres Vedras, para 5.463. Portugal tem mais de 66 mil médicos inscritos na Ordem e pouco mais de 32 mil no SNS. Aqui o médico não apanha um avião. Atravessa a rua. Nenhum decreto fecha a rua. E os conselhos de administração das ULS continuam responsabilizados pelos resultados, sem controlar o meio essencial: a contratação. É uma equação impossível. A integração jurídica das ULS realizou-se ao longo de um ano. A integração real vai levar uma década, e ninguém a está a gerir. Pré-hospitalar: reorganizar é fácil, medir é que custa O INEM passou pela maior reorganização em muitos anos. Um despacho de maio transformou as SIV em viaturas ligeiras, com enfermeiro e técnico, sem capacidade de transporte. Outras 54 ambulâncias de emergência médica são direcionadas às ULS. O Despacho n.º 5777/2026 entregou ao INEM o transporte inter-hospitalar do doente crítico: o CODU decide o meio, a urgência e a pertinência; o INEM executa, audita e fatura ao hospital. O hospital responde pelo doente, mas deixa de controlar o percurso. Uma equipa de resgate ECMO continua sem poder circular em marcha de emergência. A lógica da viatura ligeira não é má. Conheço-a da VMER: a equipa diferenciada chega mais depressa e liberta-se mais cedo. Mas só funciona se houver uma ambulância de suporte básico no local a tempo. Os bombeiros asseguram cerca de 90% dessa resposta e, em abril, estiveram a um passo da rutura, quando a Liga decidiu rescindir o acordo com o INEM devido a uma dívida de cerca de 20 milhões. Em maio, o Governo decidiu conceder um subsídio mensal de 10.800 euros por ambulância. A formação de base de algumas dezenas de horas, a recertificação e o registo de atos ficaram onde estavam. O doente crítico continua a receber o meio disponível no seu concelho, não o que a sua gravidade exige. A greve dos técnicos, marcada para setembro, foi desconvocada após cedências de ambas as partes. A discussão, disse a ministra, não termina aí. Em maio, o Ministério Público arquivou os seis inquéritos às mortes ocorridas durante a greve de 2024, embora a IGAS tivesse associado três delas a atrasos no socorro. Num dos casos, em Bragança, passaram 48 minutos entre a primeira chamada para o 112 e o acionamento dos meios de socorro. Não se provou nexo causal. Na aviação, cada acidente reescreve as regras. Na emergência médica portuguesa, reescrevemos despachos. Quem executa não pode auditar. O privado é o sintoma A 21 de setembro, a ministra inaugurou o oitavo hospital da Lusíadas na Grande Lisboa, um investimento de 40 milhões. No dia seguinte foi ao Parlamento defender o SNS. É uma cronologia. E a cronologia do privado em 2026 é de crescimento e de concentração. Receitas recorde de 2,8 mil milhões de euros em 2025, com cinco operadores a deterem 92,2% do mercado e os prémios de seguros a subirem 12,3%. A Macquarie comprou 40% da Luz Saúde. A CUF entrou no Algarve, no Alentejo e na Madeira através do HPA, com a Autoridade da Concorrência a obrigar-lhe a construir um hospital para vender a um concorrente. O fundo dono da Lusíadas pôs o grupo à venda e, com ele, a Ribera Salud, que gere o Hospital de Cascais, a única PPP hospitalar em funcionamento. Já em 2023 havia 3,92 milhões de portugueses com seguro de saúde. É tentador ler isto como uma acusação. Não é. O privado faz o que o contrato lhe pede. Vende tempo, e o SNS fornece-lho de graça: cada semana de espera é publicidade que o público paga e o privado recebe. O doente com seguro faz lá fora a parte barata e previsível. Quando o plafond acaba ou o caso complica, volta pela urgência. O SNS é o ressegurador de último recurso, e não fatura a ninguém a continuação do episódio. O privado não é a doença. É o sintoma. A doença está no que o Estado paga e no que deixa de medir. O mesmo lugar A oposição fez a lista das reformas suspensas: o SINACC, os centros de elevado desempenho em obstetrícia, a regulamentação dos tarefeiros, as USF modelo C. O Governo promete apresentar a reforma da saúde no tempo certo. Os administradores hospitalares consideraram 2026 perdido e pedem que se comece a trabalhar para 2027. Não é um problema de pessoas. Mudam ministros, diretores executivos, conselhos de administração. Mudam os discursos e as fotografias de inauguração. No Norte preencheram-se 95% das vagas de medicina geral e familiar; em Lisboa e no Alentejo, uma em quatro. A geografia continua a ser o principal fator de risco clínico do país e não consta em nenhum indicador. É um problema de desenho. Pagamos o ato e não a prontidão. Responsabilizamos quem não controla os meios. Auditamos com quem executa. Medimos encerramentos e não desfechos. E chamamos de reforma a cada despacho. Um sistema de saúde sobrevive a um mau ano. O pior que lhe pode acontecer não é falhar. É acordar daqui a três, cinco ou dez anos e descobrir que está exatamente no mesmo lugar. SAPO