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A INSUSTENTÁVEL BULLSHITIZAÇÃO LABORAL NA EDUCAÇÃO E NA SAÚDE

Jornal de Notícias Online

2026-10-03 20:18:02

Houve um tempo da vocação sagrada de ensinar e curar... Um tempo mitificado, mas as sociedades também vivem de mitos inspiradores! Então, a arte de ensinar e a arte de curar seriam vividas como vocações e missões, apreciadas unanimemente pela sua nobreza ética e social. Seriam formas de vida integralmente orientadas por um bem intrínseco absoluto: o bem da pessoa, carente de formação ou carente de saúde. Hoje, professoras e médicas continuam a apaixonar-se pelas artes de ensinar e de curar. Todavia, a paixão desvanece diante da crueldade do Real, pois uma segunda profissão de gestos anónimos se impõe, em cada instante, preenchendo todo o tempo, esgotando toda a energia, até à exaustão. Trata-se da antiquíssima profissão de escrivão: documentar minuciosamente tudo o que se faz e como se faz, tudo o que deveria ter sido feito e como deverá vir a ser feito... O escrivão docilmente rebelde, o inoperante Bartleby, sussurra-nos: "I would prefer not to." Por isso, as "Escolas de Pedagogia" e as "Escolas de Medicina" perdem o magnetismo espiritual vocacional. Uma professora ainda ensina, mas sofre com grelhas, plataformas, atas, planos, indicadores e "evidências". Uma médica ainda observa, diagnostica e cuida, mas regista, codifica, autentica, referencia e alimenta sistemas informáticos que, demasiadas vezes, parecem reclamar mais atenção do que o próprio doente. O paradoxo é trágico: inventou-se uma gigantesca maquinaria destinada a garantir que estes profissionais, sobre os quais se lançou a suspeita de perda de qualidade, fazem bem as suas tarefas essenciais. Essa maquinaria de controlo de qualidade ameaça destruir o sentido fundamental da ação, impedindo a dedicação gratificante às artes de ensinar e curar. David Graeber (2018) chamou "bullshit jobs" os empregos percebidos como "inúteis" ou "absurdos" (pointless), que provocam danos psicológicos e morais. No nosso contexto, assiste-se à bullshitização, ainda parcial, mas crescente, de profissões profundamente significativas e necessárias. A vocação educativa converte-se em trabalho didático hiperprotocolizado e a vocação médica em trabalho clínico administrativamente coreografado. Nos termos de H. Rosa (2026), passamos da lógica situacional, onde a interpretação e a decisão envolvem toda a personalidade e toda a inteligência dos profissionais, à lógica executiva, determinada por uma "constelação" predefinida de procedimentos, regras, métricas e algoritmos, reduzindo e esvaziando o espaço humano de liberdade, criatividade e responsabilidade. Além de burnout, esta constelação ansiógena e depressiva do trabalho hiperestruturado pode produzir sofrimento moral muito doloroso, o sofrimento de quem sabe o que deveria fazer enquanto profissional, mas se vê sistematicamente impedido de o fazer pelas condições organizacionais. Sofre-se um aparente cansaço de ensinar ou de cuidar, mas, na verdade, sofre-se uma crise existencial e vocacional profunda, porque não se consegue ensinar ou cuidar como se aprendeu ser cientificamente mais correto e como se julga ser eticamente mais humano. Os afetos negativos, simbolicamente intensificados pela associação semântica, ainda que filologicamente incerta, entre "trabalho" e "tripalium", instrumento de tortura, são evidências vivas da modernidade administrativa. As vocações didáticas e clínicas escaparam talvez durante séculos ao "tripalium", mas atravessamos um novo limiar. A vocação implode sob o signo dos procedimentos e o profissional converte-se em funcionário da sua própria impotência. Paulo Jesus Docente na Universidade Portucalense Paulo Jesus