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UMA REFLEXÃO DEPOIS DE OUVIR OBAMA EM LISBOA: O QUE A IA NÃO PODE SUBSTITUIR?

Sapo Online

2026-10-15 19:49:02

A inteligência artificial torna-nos mais eficientes. Mas será esse o objetivo? Assisti recentemente, em Lisboa, a uma intervenção de Barack Obama com particular interesse. Ouvi-o com a dupla perspetiva de quem é professora e advogada, duas profissões que estão hoje inevitavelmente confrontadas com a mesma pergunta: até onde pode, e deve, chegar a inteligência artificial? [...] A inteligência artificial torna-nos mais eficientes. Mas será esse o objetivo? Assisti recentemente, em Lisboa, a uma intervenção de Barack Obama com particular interesse. Ouvi-o com a dupla perspetiva de quem é professora e advogada, duas profissões que estão hoje inevitavelmente confrontadas com a mesma pergunta: até onde pode, e deve, chegar a inteligência artificial? Não tenho uma visão pessimista da tecnologia. Pelo contrário. Reconheço o papel extraordinário que a inteligência artificial pode desempenhar tanto no ensino como na advocacia. Permite-nos analisar mais informação, trabalhar mais depressa, automatizar tarefas e, em muitos casos, tomar decisões mais informadas. Em suma, permite-nos ser mais eficientes. Mas uma das ideias que retive da intervenção de Obama foi precisamente esta: a eficiência não é um fim em si mesma. E, sobretudo, não é necessariamente o valor mais importante. Pensemos na democracia. A democracia não é particularmente eficiente. Dar voz às pessoas dá trabalho. Ouvir posições diferentes dá trabalho. Debater, contradizer, procurar compromissos e respeitar procedimentos dá trabalho. O próprio Estado de Direito Democrático, princípio basilar que ensino aos meus alunos logo no primeiro ano, está repleto de mecanismos que tornam a decisão mais demorada. Ainda assim, não prescindimos deles em nome da eficiência. Porque há valores que consideramos mais importantes. Talvez seja esta uma boa forma de começar a pensar sobre inteligência artificial. A máquina pode tornar-nos melhores. Também pode tornar os nossos problemas mais eficientes. Na minha área, o Direito da Concorrência, esta ambivalência é particularmente interessante. A inteligência artificial pode ajudar uma empresa a analisar grandes quantidades de informação, compreender melhor o mercado, desenvolver melhores produtos e serviços e encontrar novas formas de competir e melhorar a experiência dos consumidores. Mas a tecnologia também pode colocar novos desafios concorrenciais. Algoritmos podem, por exemplo, facilitar determinadas formas de coordenação entre empresas e levantar questões sobre a fronteira entre comportamentos competitivos e resultados que afetam negativamente a concorrência. A tecnologia, portanto, não elimina as escolhas humanas. Torna algumas delas mais rápidas, mais sofisticadas e, por vezes, menos visíveis. E é precisamente por isso que a intervenção humana se torna ainda mais importante. A inteligência artificial pode identificar padrões, programar, organizar argumentos e propor respostas. Isso não elimina a necessidade de compreender o contexto em que essa informação será utilizada, de questionar o resultado, de ponderar interesses contraditórios ou de perceber que uma resposta aparentemente correta pode não ser a resposta certa para aquele caso concreto. Na advocacia, essa diferença é fundamental. Mas talvez seja ainda mais evidente quando entro numa sala de aula. Porque é que um professor continua a fazer diferença? Se transmitir informação fosse a única função de um professor, provavelmente já teríamos encontrado alternativas mais eficientes. Um e-learning pode apresentar conteúdos de forma consistente, estar disponível a qualquer hora e ser utilizado por centenas ou milhares de pessoas. Uma ferramenta de inteligência artificial pode responder imediatamente a uma pergunta e adaptar a explicação às dificuldades de quem pergunta. Mas ensinar nunca foi apenas transmitir informação. Uma plataforma não olha para uma sala e percebe que perdeu a atenção dos alunos. Não lê uma expressão de dúvida e decide explicar de outra forma. Não chama espontaneamente alguém para a discussão porque percebe que essa pessoa tem algo a acrescentar. Não cria, da mesma maneira, aquele momento imprevisível em que uma pergunta muda completamente o rumo de uma aula. Existe uma barreira digital entre quem transmite e quem recebe a mensagem que a eficiência tecnológica, por si só, não consegue eliminar. É precisamente nessa distância que começamos a perceber o verdadeiro valor da intervenção humana. O desafio não é competir com a inteligência artificial Enquanto professora de Direito da Concorrência, advogada e alguém particularmente interessada nos desafios que a inteligência artificial coloca também a este ramo do Direito, não vejo o futuro como uma competição entre pessoas e máquinas. A pergunta mais interessante é outra: o que devemos continuar a reservar ao julgamento humano? Quanto mais capazes forem as ferramentas que utilizamos para encontrar respostas, mais importante será sabermos fazer as perguntas certas. Quanto mais eficiente for a análise da informação, mais importante será distinguir informação de conhecimento. E quanto mais convincente for uma resposta produzida por uma máquina, mais necessária será a capacidade humana de a questionar. Talvez seja esse um dos paradoxos mais interessantes da inteligência artificial. Durante muito tempo imaginámos que a tecnologia nos obrigaria a provar que conseguimos fazer melhor aquilo que as máquinas fazem. Talvez aconteça exatamente o contrário. Quanto melhores forem as máquinas a fazer aquilo que exige eficiência, mais importante se torna aquilo que fazemos por razões que vão além dela. Na democracia. No Direito. Na sala de aula. E, sobretudo, na capacidade de ir além do aparente e chegar ao essencial: compreender o que verdadeiramente responde à necessidade concreta. Sílvia Bessa Venda, Professora de Direito da Concorrência na Universidade Portucalense SAPO