BENJAMIM PEREIRA: QUEM É A ESCOLHA DE MONTENEGRO PARA A HABITAÇÃO QUE CRIOU UMA POLÉMICA SOBRE “SACRIFÍCIOS”?
2026-10-23 17:13:02

O atual presidente do IHRU era presidente da Câmara de Esposende quando aceitou o convite do primeiro-ministro. Dentro do PSD é visto sobretudo como um homem da atual direção e já atacou Passos Coelho No PSD, Benjamim Pereira, o atual presidente do IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana) envolvido numa polémica devido às suas declarações sobre os “sacrifícios” que os jovens de hoje não estão dispostos a fazer, é visto como um “homem de Hugo Soares”. São ambos do distrito de Braga, e estiveram do mesmo lado nas disputas internas. A ligação que é feita nas hostes laranjas podia explicar-se só pela “geografia” partidária, mas Benjamim Pereira tem feito questão de colocar-se publicamente ao lado de Luís Montenegro, em diferentes momentos. Foi a convite do primeiro-ministro que saiu da câmara de Esposende antes do final do terceiro mandato para dirigir o IHRU. De Montenegro e não do ministro com a tutela da Habitação, Miguel Pinto Luz, que esta quinta-feira descolou das declarações de Benjamim Pereira, horas depois de o presidente do IHRU ter dito no Parlamento que não sabe"se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício" da anterior, recordando que os seus próprios avós emigraram “para poderem ter uma casa”. Pinto Luz não gostou e pediu explicações, Hugo Soares desvalorizou. Benjamim Pereira recuou num comunicado em que promete “continuar a dar o seu melhor”. Mas a oposição já pede a demissão e novas audições no Parlamento. A 28 de agosto de 2024, numa cerimónia em Esposende com a presença de Montenegro, confirmou publicamente que tinha aceitado o convite. “Só aceitei este convite porque acredito em si”, afirmou. E o primeiro-ministro acrescentou que tinha estado ao lado do então autarca quando iniciou funções, e quase no último dia enquanto presidente da Câmara. “Se não tivesse esse apreço (por ele), ele não tinha tido o convite que teve e o desafio que vai enfrentar”, sublinhou. Benjamim Pereira era apontado há semanas como a escolha do Governo para aquele instituto público, substituindo António Gil Leitão, nomeado pelo Executivo de António Costa e que esteve no cargo cerca de um ano. O líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, considerou, na altura, que era um exemplo da “colonização laranja” da administração pública. Carreira autárquica e câmara perdida A saída do atual presidente do IHRU da Câmara de Esposende, em 2024, para aceitar o convite de Luís Montenegro, acabaria por custar ao PSD a perda da autarquia, que foi laranja durante 36 anos, nas eleições do ano passado. Benjamim Pereira deixou na presidência da Câmara o seu número 2, Guilherme Emílio, que foi escolhido pelo PSD como candidato em 2025, com Benjamim Pereira a cabeça de lista para a Assembleia Municipal. Perderam para um movimento de independentes que saíram das listas social-democratas. O atual autarca, Carlos Silva, foi presidente da Assembleia Municipal até 2024, eleito pelo PSD, mas acabou por sair e formar uma lista alternativa, que ganhou o município. Com um bacharelato pelo Instituto Superior de Engenharia do Porto, Benjamim Pereira é, como se lê no seu curriculum, engenheiro técnico desde 2001. Cinco anos depois, licenciou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Escola Superior Gallacecia, da Universidade Portucalense. Trabalhou numa empresa de construção de Barcelo e tece uma empresa de engenharia e avaliação imobiliária em nome próprio. Pelo meio, nas eleições de 2005, iniciou a carreira autárquica e em 2007 assumiu presidente da Junta de Freguesia de Forjães. Entre 2009 e 2013 foi vice-presidente da Câmara Municipal de Esposende e nas eleições de 2013 foi eleito presidente, cargo de onde saiu em 2024 para o IHRU. Ao longo dos anos foi desempenhando outros cargos públicos, como presidente da Agência de Energia do Cávado ou vogal do Conselho de Administração das Águas do Norte. Ao ataque contra Passos Coelho A proximidade a Montenegro e a Hugo Soares tem tradução também numa atitude de oposição a Pedro Passos Coelho, o ex-líder que tem acossado o atual poder com pedidos de reformismo e avisos de eventual regresso. Em março deste ano, o presidente do IHRU escreveu na sua página de Facebook uma reflexão sobre a vida interna do PSD. Passos tinha avolumado as críticas ao rumo do Governo de Montenegro e, em resposta, o líder social-democrata tinha acabado de antecipar o calendário das eleições internas do PSD. “Uma canalhice” - escreveu Benjamim Pereira sobre Passos Coelho, de quem revelou ter sido admirador e apoiante enquanto primeiro-ministro. “Há um homem que foi leal a Pedro Passos Coelho, que o defendeu e às suas decisões contra tudo e contra todos, e essa pessoa foi Luís Montenegro”, escreveu na publicação. “Defendeu na imprensa, defendeu no parlamento, defendeu junto das estruturas do PSD, quando nem estas entendiam a dureza das medidas impostas. Por isso escrevo estas palavras, Passos Coelho está a ser injusto com Luís Montenegro. Não o ajudou no seu percurso, nem no partido nem nas várias eleições legislativas disputadas. Não se decide, não diz o que quer, está ali, como uma sombra, curiosamente ao serviço da demagogia e populismo do CHEGA”, criticou, mas foi mais longe ainda. “Com as letras todas, o que Passos Coelho está a fazer é uma canalhice, um ato cobarde e vingativo contra Montenegro, porque sabe que Montenegro está a conseguir fazer aquilo que ele sonhava fazer, mas não conseguiu. Reitero aqui o meu total apoio ao dr. Luís Montenegro, ao seu projeto político e à sua visão para Portugal. Montenegro é um homem corajoso e decidido, fez muito bem convocar eleições dentro do partido. Venham daí os corajosos, os que acham que têm um melhor projeto para Portugal, que se mostrem e que assumam as suas posições em vez de andarem a fazer política rasteira e traiçoeira contra a liderança”, desafiou o presidente do IHRU que, com a polémica em curso, está também a mostrar outras divisões no PSD, com as posições muito diferentes assumidas por Pinto Luz e Hugo Soares. Divisões no poder laranja O ministro que tutela o IHRU foi claro a demarcar-se das declarações do presidente do IHRU. “Declarações absolutamente infelizes”, frisou Miguel Pinto Luz, em entrevista à TVI.“Eu acho que as declarações são absolutamente infelizes. Estou a medir as palavras. Absolutamente infelizes”, repetiu. Questionado se não retiraria consequências, o ministro respondeu apenas que já tinha pedido esclarecimentos, e acrescentou: “Assumo publicamente, porque tenho essa tutela, assumo publicamente e politicamente, não me revejo e acho declarações infelizes”. Quase ao mesmo tempo, o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, rejeitava, na SIC Notícias, criar “um caso” em torno das palavras de Benjamim Pereira, e optou por outra interpretação: “Entendi-as desta forma: Ainda bem que não têm de fazer esses sacrifícios porque há políticas para se fixarem em Portugal", afirmou. Já esta sexta-feira, porém, o próprio presidente do IHRU reconheceu que as suas palavras não foram felizes, num comunicado enviado às redações, mas sem colocar o lugar à disposição. “Embora sem qualquer intenção, aceito não ter sido feliz em todas as expressões que utilizei, mas acredito no que estou a fazer, acredito no caminho delineado pela tutela e dou todos os dias o meu melhor, colocando ao serviço dos portugueses a minha experiência profissional e política adquirida ao longo de anos de trabalho e de serviço público”, escreveu. O presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, também já entrou na polémica para dizer que as declarações do presidente do IHRU não refletem o posicionamento da generalidade dos políticos em Portugal. “Acho que o senhor ministro das Infraestruturas e da Habitação foi já muito claro quanto a esta matéria [afirmações do presidente do IHRU], foram umas afirmações que, evidentemente, não refletem, julgo eu, aquilo que é o posicionamento da generalidade dos políticos em Portugal, nomeadamente quem tem responsabilidades”, afirmou Pedro Duarte, questionado pelos jornalistas à margem da 3.ª edição do Encontro de Gestores de Entrada, na Alfândega do Porto. Paula Caeiro Varela Jornalista Paula Caeiro Varela