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MENOPAUSA: ESPECIALISTAS ALERTAM PARA FÓRMULAS MANIPULADAS

Expresso

2026-10-30 06:32:02

Menopausa: especialistas alertam para fórmulas manipuladas Consumo de tratamentos disparou e há mais perigos com produtos não sujeitos a receita Os sintomas associados à menopausa deixaram de ser uma fatalidade e são mais as mulheres que os querem tratar. A prescrição de terapêutica de reposição hormonal (TRH) está a crescer e só nos primeiros oito meses deste ano foram mais as embalagens dispensadas, e comparticipadas, do que na totalidade de 2023. Mas os especialistas alertam: uma maior procura aumenta a oferta de produtos de venda livre ou manipulados na farmácia, ilusoriamente, à medida de cada mulher e que acarretam riscos. Os números avançados ao Expresso pelo Infarmed indicam um aumento de 25% na dispensa dos tratamentos sujeitos a receita médica e com comparticipação do SNS entre 2023 e 2025. As 191.120 embalagens vendidas passaram a 215.647 em 2024, 256.493 em 2025, e até agosto deste ano já totalizavam 195.472. Com um mercado potencial de quase três milhões de mulheres em Portugal todas a partir dos 45 anos, portanto, em processo de menopausa , a indústria farmacêutica focou-se neste negócio e, mesmo assim, com algumas falhas no abastecimento. Um dos produtos mais recentes a entrar no mercado está esgotado e só deverá ser reposto no fim de novembro. Trata-se da primeira combinação num comprimido das duas hormo-nas utilizadas na TRH, ambas bioidênticas às que a mulher produz através dos ovários: o estradiol e a progesterona micronizada, a parte mais disruptiva, e de dose baixa. “No primeiro mês vendeu 700 unidades e 7000 no segundo”, exemplifica Cláudio Tomé Rebelo, presidente da Secção de Menopausa da sociedade Portuguesa de Ginecologia. “A pressão repete-se em Espanha, mas não só, por dificuldades de fabrico. ê feito na Alemanha e nos EUA e as fábricas não têm capacidade para o atual volume de vendas.” As mesmas dificuldades no acesso têm sido sentidas em formulações em spray, de estradiol. “Recentemente verificou-se um constrangimento pontual, cerca de duas semanas, mas a situação está normalizada”, garante o laboratório. E dá uma novidade: “Em janeiro de 2027 está previsto o lançamento de uma nova opção terapêutica”, a quinta da firma nesta área. Cláudio Tomás Rebelo acrescenta outro lançamento, de outro fabricante. Um antagonista NK, que atua a nível cerebral na regulação térmica, e que vai poder ser utilizado em mulheres com cancro da mama. “o estudo incluiu mulheres dos 18 aos 70 anos e foi feito na Fundação Champalimaud”, revelac especialista. Riscos obrigam a ajustar terapêuticas “Passámos do oito para o 80 na terapêutica hormonal de menopausa, mas continuamos a ter as mesmas contra- -indicações. ê indicada para mulheres saudáveis com menos de 60 e nos primeiros dez anos após a menopausa. Por exemplo, as hormonas bioidênticas, como o novo comprimido, não podem ser dadas a mulheres obesas ou fumadoras”, explica a ginecologista-obstetra no hospital de Cascais Catarina Gama Pinto. E se nem todas as mulheres na menopausa podem aderir a qualquer dos tratamentos com receita médica comprimidos, spray, gel, creme, adesivo, dispositivo intrauterino, etc. 3 as que podem também não estão isentas de risco. “os riscos dependem do tipo de hormonas, dose, via de administração, duração do tratamento e características clínicas de cada mulher”, resume Ana Fatela, responsável pela consulta de menopausa na Maternidade Alfredo da Costa (MAC). “A terapêutica hormonal sistémica pode aumentar o risco de tromboembolismo venoso, de acidente vascular cerebral e de determinados cancros. A terapêutica combinada com estrogénio e progestagénio está associada a um aumento do risco de cancro da mama e nas mulheres com útero o estrogénio sistémico exige proteção progestagénica para prevenir a estimulação excessiva do endométrio. A via transdérmica pode apresentar menor risco de tromboembolismo venoso em determinadas circunstâncias, mas não elimina todos os riscos”, esclarece a especialista. E, reforça, “importa também distinguir a terapêutica sistémica do estrogénio vaginal em baixa dose, que apresenta uma absorção sistémica reduzida e um perfil de segurança diferente”. Mas, “por outro lado, a terapêutica hormonal tem benefícios comprovados no alívio dos sintomas da menopausa e na prevenção da perda óssea durante a sua utilização”. Ou seja, cada mulher tem o seu caso. A terapêutica de reposição hormonal não é um tratamento para facilitismos e a comunidade médica está alarmada com a crescente proliferação de opções sem garantias de segurança. “Passámos da hormonofobia para a hormono-tendência e estou muito preocupada com as consequências a breve prazo”, alerta Adriana Lages, especialista em menopausa da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia. Os especialistas são unânimes de que a única terapêutica segura é a que está sujeita a receita médica, teve anos de estudos, com ou sem comparticipação do Estado. Fórmulas como suplementos ou cremes nem sequer têm fiscalização pelo Infarmed e sim pelas autoridades veterinárias, ou produtos manipulados em farmácias não têm sustentação científica e, pior, segurança. “Já assisti a engenheiros biomédicos a indicarem produtos manipulados em receitas de dentistas”, denuncia Cláudio Tomás Rebelo. Comprimidos triturados e misturados com creme “A maior parte dos manipulados são feitos a partir de comprimidos, de poucos euros, esmagados e colocados num creme ou outro e por um preço muito elevado”, afirma Alexandre Valentim Lourenço, diretor da Ginecologia do Hospital de Santa Maria. “ê igual para todos, mas vendida como personalizada”, ironiza. “As mulheres vão a estas novas clínicas de antienvelhecimento, fazem doseamento hormonal pela saliva a 200 euros, são vistas por profissionais com formações, às vezes até online, ou médicos sem conhecimento nesta área, prometem manipulados à medida e as mulheres aceitam muito bem”, descreve Fernanda Geraldes, coordenadora da consulta de menopausa no hospital de Coimbra. “Já vi este filme e receio que se repita, que as mulheres voltem a deixar de ser tratadas, quando começarem a surgir consequências das más práticas.” O antídoto é reforçar a informação fidedigna e o apoio do SNS. As consultas de menopausa são poucas, por exemplo O Santa Maria está agora a organizar a oferta nos seus centros de saúde, e onde existem são muito procuradas. “A atividade tem vindo a aumentar, cerca de 42,5% em 2026 face ao ano anterior. Este crescimento reforça a importância de os serviços de saúde acompanharem as necessidades da população”, demonstra Ana Fatela, da MAC. Já a associação VIDAs, com a Escola Nacional de Saúde Pública, está a fazer o mapeamento sobre quando as mulheres procuram tratamento, como procuram ou como o mantêm. “Temos de fazer esse levantamento porque sabemos pouco e há um aproveitamento do mercado. Há alertas porque até há médicos que fazem prescrição de medicamentos que não estão testados em termos de segurança. Ainda esta semana a academia americana publicou um alerta a chamar a atenção para a falta de evidência científica de eficiência e até segurança dos suplementos”, revela a médica e presidente da VIDAs, Cristina Mesquita. A comparticipação é outra das áreas a compreender. “Fazemos parte do comité do Infarmed para a avaliação dos medicamentos a comparticipar, damos a nossa opinião, no entanto não vemos novas comparticipações”, critica Cristina Mesquita. “Temos fármacos mais seguros, de baixa dose e só comparticipam os antigos”, reforça Cláudio Tomás Rebelo. Medicamento mais recente no mercado vendeu 700 unidades no primeiro mês e 7000 no segundo MERCADO 3 milhões de mulheres em Portugal estão em processo de menopausa 195 mil unidades de terapêuticas de reposição hormonal comparticipadas foram prescritas nos primeiros oito meses do ano Mulheres sem útero o tratamento dos sintomas é feito somente com estradiol, nas diferentes versões, com receita médica VERA LÚCIA ARREIGOSO