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ESTUDO. TREZE HOSPITAIS CRIARAM PROGRAMAS DE RASTREIO NUTRICIONAL DOS DOENTES ONCOLÓGICOS - NO PRATO TAMBÉM SE COMBATE C CANCRO

Sábado

2026-11-04 07:02:02

A alimentação é tão importante quanto a quimioterapia. Se o doente estiver bem nutrido, tem maio tolerância aos tratamentos e pode mesmo ter melhores hipóteses de cura. Luciana Mendes, 45 anos, decidiu mudar a sua alimentação e tornar-se vegetariana na pior altura tinha acabado de receber o diagnóstico de um osteossarcoma (um tipo de cancro ósseo). “Estava obcecada com a dieta certa e deixei-me levar pelo que vi na Internet, fui muito radical”, conta à SãBADO. O tumor estava no maxilar superior e ela descobriu-o em plena pandemia: primeiro, julgou-se que era um abcesso e só depois de passar por quatro dentistas diferentes é que se percebeu que era algo mais sério. Teve de ser operada para retirar a massa e fazer uma reconstrução da boca com osso e pele da perna esquerda. Luciana, que até então trabalhava na comunicação de uma marca de luxo, ficou um mês e meio internada e a ser alimentada através de uma sonda. Quando teve alta, iniciou a quimioterapia e também a sua dieta vegetariana. Todos OS meses, ficava internada dois dias a receber o tratamento: eram duas infusões, de 8h cada. Os restantes 21 dias serviam para recuperar, mas eram muito difíceis. “Não tinha sequer forças para andar, porque não tinha massa muscular e tudo o que comia, vomitava. Passava semanas acamada”, recorda. Perdeu quase 30 quilos nessa altura e, ao fim de quatro sessões, teve mesmo de reduzir a dose do tratamento. “Toda a gente à minha volta achava que eu não ia aguentar”, diz. Só quando terminou os trata-c D mentos, e começou a informar,se melhor sobre a alimentação no cancro, é que deixou a dieta. Começou a comer de tudo e até a fazer suplementos nutricionais em alturas mais complicadas (desde então já fez mais de 20 cirurgias plásticas para reconstruir o rosto). Lamenta ter “tomado as piores decisões naquela fase”, mas também que os profissionais de saúde não tenham sabido informá-la melhor. “Ninguém me explicou a importância de me alimentar bem durante a doença, e também ninguém questionou porque eu não queria comer quase nada”, diz. ê mesmo importante não fazer restrições alimentares durante a doença oncológica. Razão: as células do cancro, assim como as do organismo, precisam de energia para sobreviver. Logo, o gasto energético é muito maior. “Há um desgaste grande ao nível metabólico e pode haver uma perda acentuada de peso e de massa muscular”, alerta Inês Onofre Domingues, nutricionista clínica especialista em Nutrição Oncológica. "Portanto, as necessidades de energia e de proteína no doente oncológico são maiores que as de uma pessoa saudável”, explica a farmacêutica Marta Costa, que é responsável pelo departamento médico da Danone Nutricia uma linha do grupo especializada em nutrição médica. Estima-se que entre 20% e 70% dos doentes oncológicos estejam em risco de desnutrição, o que significa que o seu organismo não recebe a energia e os nutrientes de que necessita. “A desnutrição pode levar a uma menor tolerância aos tratamentos, mais interrupções, diminuições de dose [como aconteceu com Luciana] e aumento de complicações com impacto na qualidade de vida. Mas também tem um impacto na mortalidade”, chama a atenção o oncologista médico, Diogo Alpuim Costa. Entre 10 e 20% destas pessoas podem morrer, não pelo canCro, mas pela desnutrição, revela. Via verde da nutrição ê justamente por existir essa evidência que, desde 2023, está prevista na lei a identificação do risco nutricional dos doentes oncológi-Cos no Serviço Nacional de Saúde quer os que estão em internamento, quer em ambulatório. Contudo, esta avaliação não está estruturada em todos os hospitais e nem sempre acontece atempadamente. “Por vezes, só tem lugar quando o doente já está muito magro, quando este rastreio deve ser feito logo no diagnóstico”, diz Marta Costa. Um estudo português publicado em setembro pela revista oficial da Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo a que a SáBADO teve acesso em primeira mão , pretendeu alterar para este panorama. “Em regra, na maioria dos hospitais não havia um circuito estruturado e, basica-mente, o que se fez foi iSSO: criar uma via verde da nutrição dentro da unidade”, explica Diogo Alpuim Costa, que é coordenador do serviço de Oncologia do Hospital de Cascais, uma das instituições envolvidas no estudo. Participaram 13 hospitais portugueses, públicos e privados (a maioria do SNS), 60 profissionais de saúde (oncologistas, enfermeiros e nutricionistas) e 1.023 doentes oncológicos foram submetidos ao rastreio nutricional. “Descobriu-se que destes, 55% estavam em risco nutricional, 26 com risco elevado, o que pressupõe que exista uma intervenção dietética e um acompanhamento regular por um nutricionista”, revela o especialista. Mais: percebeu-se que a implementação destes protocolos permitiu reduzir em 43,2% o tempo de espera para uma consulta de nutrição, ou seja, os doentes foram observados mais rapidamente pelo especialista. Um doente que não sofra de malnutrição tem maior tolerância aos tratamentos. "Consequentemente, os resultados também são melhores, porque se a pessoa consegue fazer um ciclo de quimioterapia completo e tolerá-lo com menos infeções oportunistas, ou menos complicações, naturalmente vai ter uma probabilidade maior de sucesso”, diz Magda Serras, nutricionista do Instituto do Coração. Francisco Vilhena, 45 anos, tem bem presente a importância da alimentação na doença. Foi diagnosticado em fevereiro de 2025 com aquele que é o tumor cerebral mais agressivo, um glioblastoma no estadio mais avançado (a sobrevida é de apenas 12 a 18 meses). Tinha poucas probabilidades de resistir à cirurgia e ainda menos de ficar sem sequelas a massa na sua cabeça media 4,5 cm. Ultrapassou com sucesso essas etapas e depois fez 30 sessões de radioterapia e seis meses de quimioterapia oral. Em março de 2026, o cancro voltou e foi preciso retomar a quimioterapia, mas em agosto recebeu uma “ótima notícia”. “Está exatamente igual, não diminuiu mas também não cresceu”, diz o antigo diretor de uma loja de luxo em Braga. Desde O início do ano que é acompanhado por uma nutricionista e faz uma dieta anti-inflamatória: cortou com o leite, o glúten e os processados. Vai a cinco supermercados diferentes para comprar os melhores produtos de cada categoria e só abre exceções em festas. “Admito que deixei de ter muito prazer à mesa, mas sei que a alimentação ajuda muito e prefiro fazer tudo direitinho”, diz. Talheres de silicone Durante a doença oncológica, há três elementos que é preciso não descurar: o valor calórico da dieta, ou seja, a energia total que a pessoa consome; os ómega 3 (gorduras presentes em peixes e frutos secos, que ajudam a regular a inflamação do organismo) e a proteína. “Tem um papel importante na reconstrução celular, protege e atenua o tal desgaste da massa muscular e também suporta muito a parte da resposta imunitária”, explica Inês Onofre Domingues. Outra coisa a ter em conta é o volume dos alimentos. Razão: "Porque os doentes enjoam com facilidade, cansam-se de mastigar, estão pouco disponíveis para ter muito volume à frente", diz Magda Serras. Contudo, como é importante manter o peso, uma forma de garantir as quantidades necessárias SàO OS suplementos nutricionais orais , alimentos para fins medicinais específicos (que são diferentes dos suplementos alimentares). Estes produtos, à venda nas farmácias e parafarmácias, contêm os nutrientes em pequenos volumes. “Existem, inclusive, uns que se tomam em forma de shots, são garrafinhas de 125 mililitros que os doentes vão tomando por tampas ao longo do dia. No fim, corresponde a um prato de frango com arroz”, diz a especialista. Conseguir que o doente coma, para não perder massa muscular nem sentir fraqueza, pode ser um desafio. “Muitas vezes, a altura da refeição é um momento de desgaste emocional em casa”, c O atesta Inês Onofre Domingues. Há várias estratégias que podem ajudar a contornar isso. Por exemplo, fazer sopas enriquecidas em proteína com carne ou peixe, leguminosas ou ovos. “Pode ser apenas a clara do ovo, que é mais bem tolerada porque não tem sabor, nem gordura, logo dá menos náusea e enfartamento”, diz Magda Serras. Outra coisa é haver um fracionamento maior ao longo do dia: comer almoço e jantar em pratos de sobremesa e salvaguardar o resto em snacks. Ter horários rígidos para comer pode não ser viável. “Se só ao final da tarde é que a pessoa se sente com mais energia e disposta a comer, não há problema de almoçar a essa hora. O objetivo final é que o doente consiga nutrir-se”, diz Inês Onofre Domingues. Servir o prato mais frio porque o quente dissipa mais os odores e só o cheiro pode deixar a pessoa enjoada -, e até usar talheres que não sejam metálicos, também pode fazer a diferença. “Estes doentes têm uma alteração do paladar e ficam com um travo metálico na boca por causa da quimioterapia, portanto os talheres podem agravar isto”, explica Magda Serras. Idealmente, e se houver alternativa, também é preferível não ser o próprio a cozinhar. A Sociedade Europeia de Oncologia Médica tem, desde 2021, um guia prático com 43 recomendações sobre a nutrição em doentes com cancro reconhecendo os impactos diretos e indiretos que tem no percurso da doença. “e tão importante quan-to o medicamento adequado”, sublinha Diogo Alpuim Costa. Dá um exemplo: “Um doente com cancro do estômago, se tiver uma pré-habilitação operatória, vai ter menores problemas de cicatrização e de infeção”, aponta o especialista. Até os sintomas da quimioterapia podem ser reduzidos com a ajuda da nutrição. Prioridade: manter o peso Maria Silva, 80 anos, é testemunha disso. Descobriu em julho um cancro na cauda do pâncreas, tentaram removê-lo sem sucesso e foi preciso logo avançar com quimioterapia. Contudo, antes de iniciar os tratamentos, quis consultar a sua nutricionista , já era seguida desde 2019, na altura para perder uns quilos, mas manteve sempre uma alimentação regrada e saudável. “Ela disse-me uma coisa que não esqueci: Nós preparámos o seu corpo muito bem para enfrentar uma coisa destas ”, conta a empregada de laboratório já reformada. A verdade é que tem mesmo corrido bem: Maria não tem praticamente sintomas, a não ser alguma obstipação e também não tem falta de apetite. Ao regime alimentar que já fazia, foi preciso acrescentar só uma coisa. “Ela não estava habituada a comer muito ao fim do dia, então introduzi-lhe um suplemento ao lanche para garantir que faz a proteína na dose certa, mas é um volume pequeno para não ficar maldisposta”, enquadra Magda Serras, que a segue. A formulação é em frasquinhos, mas também há em pudim. Outra recomendação foi não se preocupar com a dieta , a prioridade agora é manter o peso. “Acho que a alimentação conta muito para me sentir como sinto, o meu organismo está a combater”, diz, satisfeita. O Sociedade ê importante que o doente va variando as escolhas alimen tares e procure fruta e legumes da época Crus O problema dos alimentos crus é poder haver contaminação, porque estes doentes têm as defesas em baixo ESTIMA-SE QUE ENTRE 20% E 70% DOS DOENTES ONCOLOGICOS ESTEJAM EM RISCO DE DESNUTRIçáO o A nutricionista Magda Serras recomenda batidos e produtos frescos e fluidos O Francisco Vilhena diz que a alimentação o ajudou a estabilizar o tumor que tem na cabeça Açúcar é proibido? Refinados e processados devem evitar-se Depende do tipo de açúcar. Não convém evitar os provenientes de hidratos de carbono. Razão: "Porque iSSo não evita só a evolução do tumor, também vai privar o organismo da energia de que necessita para aquela fase específica e promover o desgaste de massa muscular”, alerta Inês Onofre Domingues. Leite Não há evidência de que faça mal no cancro, os próprios suplementos clínicos são à base de soro de leite ESTUDO EM 13 HOSPITAIS PERCEBEU QUE O RASTREIO Sô ACONTECE QUANDO O DOENTE Jà ESTà MAL Hà TRES ELEMENTOS IMPORTANTES A NàO DESCURAR NA DIETA: PROTEINA, CALORIAS E ôMEGA 3 o Luciana Mendes quase não suportou a quimioterapia porque se alimentou mal durante os tratamentos Nada em excesso Especialistas recomendam sempre acompanhamento Mesmo alimentos bons podem ser prejudiciais em excesSO. Por exemplo, em alguns tratamentos “o objetivo é oxidar as células tumorais para as destruir”, diz Inês Onofre Domingues. Se ingerir grandes quantidades de antioxidantes promove o efeito contrário ao tratamento, alerta. o Marta Costa, responsável pelo departamento médico da Danone Nutricia, que patrocinou este estudo o A nutricionista Inês Onofre Domingues nota que há mais pessoas a procurar consulta logo no diagnóstico SERVIR O PRATO MAIS FRIO, PORQUE O QUENTE DISSIPA MAIS O ODOR, PODE DIMINUIR A NaUSEA DOS DOENTES Risco Para calcular o risco nutricional contam os sintomas, o peso, o sítio do tumor e estadio e a dieta do doente Lucília Galha