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ÂNGELA FERREIRA E TODAS AS LUTAS PELA LIBERDADE

Jornal de Notícias Online

2023-05-22 07:33:05

A artista expõe individualmente em Recklinghausen, na Alemanha, e em Braga, Portugal Inaugurou no Kunsthalle Recklinghausen, museu de arte desta cidade noroeste da Alemanha, uma exposição que reúne obras representativas de mais de três décadas de trabalho de Ângela Ferreira, um nome maior da arte contemporânea nacional e internacional. A exposição está patente até 6 de agosto de 2023 e é mais um passo na consagração da artista e, acima de tudo, de afirmação da sua mensagem anticolonial, anti opressão e de luta contra uma espécie de retorno a uma relação de superioridade do ocidente e dos países desenvolvidos sobre os outros. Simultaneamente, e até 27 de maio de 2023, Ângela Ferreira também expõe em Braga, na Zet Gallery. A obra de Ângela Ferreira é uma espécie de reparação da História, um elogio aos heróis da resistência africana ao colonialismo, à opressão, à segregação. A artista nasceu em Maputo, Moçambique, em 1958, e viveu na Cidade do Cabo, África do Sul, durante o Apartheid. Licenciou-se em escultura e obteve o seu Master of Fine Arts (MFA) na Michaelis School of Arts, Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul e é doutorada pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa onde hoje é Professora Auxiliar. Vive e trabalha em Lisboa. Em 2007 foi a representante portuguesa na 52ª Bienal de Veneza, sendo este apenas um dos marcos de um percurso internacionalmente reconhecido. PUB Não obstante a sua condição de branca e privilegiada no país do Apartheid, cedo compreendeu as diferenças de afirmação entre a arte contemporânea produzida na Europa ou na América do Norte e a arte contemporânea Africana. Cedo compreendeu que o fim do colonialismo não eliminava as desigualdades criadas durante séculos de exploração. Esta consciência marcou as primeiras fases da sua produção artística e, muito em particular, a que marca a década de 1990. Através de processos de investigação histórica, começou a desenvolver projetos e corpos de trabalhos que refletem sobre as consequências do colonialismo e do pós-colonialismo na sociedade contemporânea, no que poderíamos enquadrar na condição de pós-memória que, no seu caso, é a do elogio, a da manifestação de orgulho pelos seus conterrâneos, brancos ou negros, que ousaram resistir, denunciar, não sucumbir ao instituído, não ceder. O elogio destes cidadãos africanos que, em circunstâncias adversas, foram símbolos de resistência e de luta pela liberdade, começa, no trabalho de Ângela Ferreira, em 2011, com o projeto "Carlos Cardoso: Straight to the point". Ângela Ferreira mergulhou no arquivo de Carlos Cardoso e, através do desenho, iniciou um processo de ativação desse mesmo arquivo, usando a forma, a escultura e a instalação, para divulgar esta vida, este exemplo extraordinário de ativismo e de cidadania. A partir daqui a sua obra deixa de focar-se na exploração do trauma, partindo da prática da pós-memória e da memória construída pelo vivido, passando a fazer um investimento positivo através da História e das estórias destes símbolos de excelência como são Carlos Cardoso, a cantora Miriam Makeba, a poetisa Ingrid Jonker ou o projeto Rádio Voz da Liberdade. Ângela Ferreira constrói e explora os arquivos destas personalidades ou projetos do ponto de vista antropológico, sociológico e político, com o objetivo de traduzir em objeto e plasticidade a pós-memória da resistência. A exposição na Alemanha mergulha em várias destas estórias e personalidades. Por sua vez, na exposição em Braga apresentam-se obras de dois projetos que têm como ponto de partida a vida e obra da cantora, compositora, atriz, embaixadora da ONU e ativista Miriam Makeba (ZA, 1932-2008), também conhecida como "Mama Africa". No conjunto das exposições acentua-se o interesse da artista pelas tipologias e características da arquitetura tradicional e popular africana, bem como pela divulgação dos seus autores, facto que se associa a um irrefutável sentido de compromisso com todas as lutas que têm na Liberdade causa e efeito.