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“NA CIDADE INTELIGENTE, CHEGO À PARAGEM E O AUTOCARRO ESTÁ LÁ; LEVO O LIXO E O CONTENTOR ESTÁ VAZIO. ISTO IMPLICA SENSORES EM CADA ESQUINA”

Expresso Online

2023-11-28 14:47:03

Hugo Séneca João Ribeiro Sonoplasta “O grande desafio da construção da cidade inteligente é juntar a administração local, a academia e as empresas com foco nas pessoas”. Quem o diz é Miguel de Castro Neto, que antevê um futuro em que não haverá paragens de autocarros fixas, mas também lembra que a informação em tempo real permite dar indicadores importantes sobre os locais onde há maior probabilidade de acidentes ou crimes. “As pessoas têm uma genuína vontade de participar na construção das cidades e querem estar nos orçamentos participativos”, afirma o fundador do laboratório Nova Cidade , Urban Analytics Lab, escolhido em 2017 como personalidade do ano na área das cidades inteligentes. Oiça aqui a entrevista no podcast O Futuro do Futuro O fundador do laboratório Nova Cidade , Urban Analytics Lab, Miguel de Castro Neto, depressa se habituou a percorrer cidades com um pé no passado e outro no futuro. Nalguns casos, depara-se mesmo com situações que obrigam a abrandar a marcha. De acordo “com os dados históricos de Lisboa, a existência de radares favorecia a ocorrência de acidentes”, adianta o atual diretor da faculdade da Universidade Nova de Lisboa que opera na área ciência de dados e que é conhecida como Nova Information Management School (Nova IMS). Aceleras e pretensos ases do volante podem achar que tal frase evidencia que os radares que monitorizam a velocidade dos automóveis deveriam ser retirados dos espaços urbanos, mas o especialista em cidades inteligentes esclarece, em entrevista ao Futuro do Futuro, que a solução camarária passou pela redução das discrepâncias de velocidades nas artérias de Lisboa com a inclusão de mais radares. Os dados servem para detetar padrões e tendências, mas também permitem prever ocorrências quando trabalhados com inteligência. As câmaras devem "tirar partido da capacidade de recolher dados para saber onde é que há acidentes, onde é que há crime, onde é que há problemas específicos que impõem a necessidade de maior presença de iluminação pública ou de maior intensidade”, refere como exemplo. A mesma “inteligência” que hoje se encontra numa sala de comando e controlo municipal que extrai informação de múltiplos sensores promete ainda abrir caminho a novos negócios ao mesmo tempo que altera alguns hábitos já centenários. “Num futuro não muito distante, não vai haver carreiras fixas, ou seja, as paragens do autocarro, as horas a que passa mudam ao longo do dia e nós conseguimos comunicar com as pessoas onde é que está a paragem e onde é que ele pode apanhar o transporte mais conveniente”, prevê o investigador. Em contrapartida, a evolução tecnológica poderá não garantir, logo à partida, o fim dos engarrafamentos. “Não nos podemos enganar e pensar que isso (os carros autónomos) vai resolver o problema dos engarrafamentos”, alerta Castro Neto. O diretor da Nova IMS recorda que carro autónomo também permite alargar o número de tarefas que podem ser executadas , mesmo quando o proprietário não está presente. “Chego ao emprego, depois mando o carro buscar os filhos e levar os filhos à escola, e depois o carro também pode ir buscar as compras ao supermercado... eu não sei se não vamos acabar a ter mais carros na cidade”, exemplifica Castro Neto. Lisboa, Porto, Fundão, Viseu e região intermunicipal do Oeste são apontados como os casos de sofisticação que Miguel de Castro Neto destaca num panorama nacional que tem vindo a evoluir a várias velocidades e ainda se pauta pela heterogeneidade digital. Parte da solução poderá passar por facilitar os repositórios de dados que hoje são detidos pelas empresas de transportes, distribuição de água, energia ou telecomunicações, admite o investigador. “Devíamos construir um modelo em que a administração pública, central e local, tivesse acesso gratuito a estes dados”, sugere. Para os dois desafios que costumam ser colocados no podcast Futuro do Futuro, trouxe um vídeo ilustrativo do trabalho do laboratório Nova Cidade, e ainda um videoclipe de Patti Smith com o tema“Power for the People”. A escolha do tema musical remete para o poder que as tecnologias podem ter na gestão da cidade ou até na avaliação que os eleitores fazem dos gestores camarários. Miguel de Castro Neto considera a Inteligência Artificial como instrumento fundamental, e desmistifica a ideia de que pode diminuir o processo democrático no que toca à tomada de decisões. Para o investigador, as cidades só têm a melhorar com o conhecimento e a existência de dados, que sustentem as intervenções no espaço urbano. “Muitas vezes, as redes sociais condicionam decisões. E seria muito melhor que as discussões que são realizadas fossem sustentadas com informação e factos, o que não acontece na maior parte das vezes”, alerta o professor da Universidade Nova de Lisboa. Hugo Séneca conversa com mentes brilhantes de diversas áreas sobre o admirável mundo novo que a tecnologia nos reserva. Uma janela aberta para as grandes inovações destes e dos próximos tempos