OPINIÃO - O QUE NOS FALTA? BATERIAS OU CARREGADORES?
2023-12-11 10:48:04

Ideias O número de automóveis elétricos (ou eletrificados) tem aumentado de forma substancial nos últimos tempos. Apesar disso, permanece a dúvida se os mesmos substituirão totalmente os atuais automóveis de combustão interna. A resposta completa a esta questão é complexa e envolve múltiplos aspetos, não se limitando apenas à questão sobre a tecnologia envolvida. Mas a tecnologia pode ter uma palavra a dizer... Para limitar o aquecimento global a 1,5°C, o acordo de Paris sobre as alterações climáticas definiu o ano de 2050 como o prazo estabelecido para que que o planeta atinja, globalmente, emissões líquidas nulas dos gases com efeito de estufa. Isto significa que, até lá, os automóveis de combustão interna terão de estar praticamente fora de circulação. Considerando que os automóveis têm uma vida útil de 15 a 20 anos, atingir o objetivo da neutralidade carbónica em 2050 significaria que não deveria haver nova produção de automóveis de combustão interna após 2035. Terá sido esta lógica que levou a que a Comissão Europeia tenha decido proibir a venda de novos automóveis a gasolina ou gasóleo a partir de 2035. A venda de automóveis elétricos tem vindo a aumentar de forma expressiva e, entre muitas notícias sobre a aquisição de veículos elétricos por parte de governos, autarquias, empresas, etc., soubemos até que o Papa decidiu renovar toda a frota automóvel do Vaticano, passando a ter apenas automóveis elétricos. Mas qualquer um de nós que recentemente tenha pensado em comprar automóvel por certo terá pensado se a opção certa seria comprar, ou não, um automóvel elétrico. Para além de outras questões que nos influenciam nesta decisão, uma deles será a de sabermos se teremos uma rede de carregadores que nos permita usar o automóvel elétrico tal como usamos o automóvel de combustão. Em Portugal existe uma empresa pública que é a entidade gestora da rede de mobilidade elétrica, a MOB.IE, que gere uma rede de carregadores e que cobre uma boa parte do país, com mais de quatro mil carregadores. De acordo com o portal de informação desta rede, em 2023 foram instalados uma média de 26 carregadores elétricos por semana em Portugal e, mais relevante para este efeito, damos conta de que, em média, os portugueses carregam 16 kWh em cada carregamento (o que significaria aproximadamente 100 km de autonomia), com um tempo médio de carregamento de cerca de hora e meia. Se a utilização dos automóveis elétricos até poderá ser uma opção para determinados casos, há uma certa desconfiança de que, em geral, sairemos prejudicados, quando tivermos de carregar a sua bateria, pois levaremos bastante mais tempo a carregá-la do que levaríamos a abastecer o depósito com gasolina/gasóleo. Uma forma de ultrapassar esta desconfiança seria através do desenvolvimento de carregadores mais rápidos, pois é evidente que a velocidade de carregamento é um fator relevante na decisão de comprar de automóveis elétricos. Mas, se por um lado a presença de carregadores no território ainda é escassa, por outro lado parece ser cada vez mais necessário que eles sejam rápidos (sem penalizar os tarifários). Mesmo assim, os carregadores rápidos atuais ainda não são alternativas competitivas ao abastecimento com gasolina/gasóleo. Desta forma, além de termos de melhorar a infraestrutura de carregadores, existe uma pressão muito grande na melhoria dos tempos de carregamento. Há poucos dias, o maior fabricante mundial de baterias para veículos elétricos, a chinesa CATL, anunciou que passará a fabricar novas células de bateria que poderão ser carregadas praticamente ao dobro da velocidade da atual concorrência. Este salto tecnológico no campo das baterias pode ser um marco importante. No entanto, a questão da velocidade de carregamento não se limita apenas à questão das baterias. A parte interessante é que um avanço tecnológico nesta área constitui uma “dança” entre os avanços na tecnologia do carregador e na tecnologia da bateria. Ou seja, precisamos de ambos para conseguirmos acelerar os tempos de carregamento. Um carregador mais potente não significa necessariamente um carregamento mais rápido. Tal acontece porque só alguns automóveis elétricos conseguem “absorver” a capacidade fornecida por esses carregadores mais potentes. Por isso, gerir a velocidade de carregamento de uma bateria não é tão simples quanto ligar o automóvel a uma tomada mais potente. À medida que uma bateria carrega, há iões lítio em movimento. Se os iões na bateria estiverem a movimentar-se mais rápido do que conseguem chegar ao elétrodo, por exemplo, podem começar a transformar-se em metal de lítio, o que rapidamente destruirá a capacidade e a vida útil da bateria. Embora haja um grande esforço na tentativa de aumento da densidade de energia - a quantidade de energia que pode ser “embalada” numa bateria de um dado peso e tamanho , tem também existido um foco crescente na velocidade de carregamento. É aqui que se destaca o anúncio da empresa CATL: as suas baterias poderão ter taxas de carregamento que seriam praticamente o dobro dos carregadores rápidos dos automóveis da Tesla. Apesar do salto tecnológico, ainda não se sabe quando é que estas baterias ficarão disponíveis comercialmente e, acima de tudo, qual será o seu custo. Embora ainda imersos em incerteza, o que poderemos esperar é que os fatores relacionados com o tempo de carregamento e com a disponibilidade de carregadores passem, gradualmente, a ser um fator cada vez menos relevante no momento de comprar um automóvel elétrico. PEDRO AREZES