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SANDRA BAÍA MOSTRA A NOSSA "CICATRIZ."

Jornal de Notícias Online

2023-12-17 19:22:04

A artista apresenta em Braga, até 17 de fevereiro de 2024, uma exposição individual. Permitam-me que seja, desta vez, totalmente tendenciosa, mas, "Cicatriz." - patente na Zet Gallery, em Braga - é, talvez a mais importante e representativa exposição individual de Sandra Baía (PT, 1968) porque dá à sua produção artística recente uma hipótese de leitura que a enquadra, na questão sobre o que é a Beleza no século XXI. A reflexão é urgente e não deixa de vir revestida de contraditórios pois, simultaneamente, nunca como hoje vivemos um tempo de defesa tão profunda de direitos, liberdade e garantias, que tem nas escolhas individuais e na construção da equidade vetores essenciais. Falamos da importância do esclarecimento e normalização de conceitos como orientação sexual e identidade de género, somos feministas sem moderação, combatemos o body shaming e o assédio sexual, defendemos o não julgamento pelas aparências, pelos credos e pelas origens de cada um, mas, depois, tornamo-nos reféns de modelos e padrões físicos preconizados pela família Kardashian e não conseguimos lidar com a nossa dependência de um ideal de perfeição que nos diz que não há espaço para as normais consequências de uma gravidez, da idade ou de uma cicatriz que a vida nos trouxe. Queremos ter o corpo e a vida glamorosa daquela influenciadora e não conseguimos evitar a frustração pelo facto de realidade e ficção se misturarem, aos nossos olhos, enquanto fazemos um scroll sem culpas e sem noção. A história de vida de Sandra Baía adensa esta narrativa e intensifica as camadas que, consciente ou inconscientemente, adicionou à sua produção artística da última década, não obstante a aparência minimal das obras que apresenta. Sandra Baía começou o seu percurso profissional na área da moda, como modelo internacional, tendo vivido e trabalhado entre Paris, Londres ou Nova Iorque. A sua geração é a geração do estigma da magreza, do 86-60-86 e essa pressão não só a marcou como terá ditado que encurtasse o prazo de validade da carreira com a maternidade, por volta dos 28 anos. Descobre, nas memórias que as mãos e a mente guardam da infância e da adolescência, a sua vocação artística e começa por procurar formação no campo das artes plásticas. É na pintura que inicialmente se encontra e é com a pintura que escreve as primeiras linhas do seu currículo como artista. Viria a abandonar a pintura depois de uma grande e bem-sucedida exposição em Los Angeles, EUA, percebendo que lhe faltava a urgência e a brutalidade da matéria e a ação do corpo sobre o que vem da indústria, transformado o perfeito, pela catarse, em deformação. Perfeição e beleza são conceitos altamente subjetivos, numa subjetividade que nem as múltiplas definições de Arte ultrapassam. Não obstante, e muito influenciada pela frequência de um atelier em Cascais, situado em ambiente fabril, Sandra Baía inicia um processo de pesquisa em redor de materiais e tecnologias industriais, procurando a sua forma bela. Prefere o metal e a sua cromatização através de um processo de pintura eletrostática a pó, dando à matéria bruta um efeito, por vezes aveludado, por vezes em efeito espelho, que lhe cria o contrasta, que a complexifica na mensagem. O trabalho é sempre experimental e, sem saber explicar quando ou onde, um dia a marreta liberta a força na perfeição da forma e começa a deformá-la e a deformar o nosso reflexo nela. Somos desafiados e ver-nos numa espécie de espelho que assustaria Narciso, sem sermos como somos, mas até onde aguentamos ver-nos. "Cicatriz." de Sandra Baía é o elogio ao imperfeito, sendo o nosso corpo, marca do vivido, do que se superou, do que se aproveitou. É, como hipótese, a crítica à prisão da autoimagem em que as redes sociais nos colocam e é, acima de tudo, o belo absoluto que só a Arte atinge. A vulgarização das videoconferências durante o período pandémico, trouxe-nos também a novidade de nos vermos enquanto falamos com os outros, o que ampliou um mercado de produtos e aplicações que têm como objetivo melhorar a nossa imagem, a nossa autoimagem. O teletrabalho vulgarizou a utilização das Ring Light, as lâmpadas led em forma de anel que melhoram a nossa (auto)aparência à luz de qualquer câmara de um computador. Na obra "Vanity splendor", produzida para esta exposição, utiliza 24 destas lâmpadas numa estrutura em alumínio que alude para os espelhos de camarim de estrela de Hollywood, ao jeito contemporâneo. A rebeldia do objeto, com a cabelagem à vista, contrasta com o esplendor da vaidade que elogia e/ou critica. Em "Cicatriz." de Sandra Baía é indispensável que se coloque o ponto final (.) depois da palavra porque vivemos um tempo de celebração da absoluta diversidade de Seres Humanos, de lutas pela Liberdade de cada um ser, exatamente, aquilo que deseja e uma cicatriz é apenas parte de identidade, não um defeito. "Vanity splendor" é um dos trabalhos em destaque na Zet Gallery, em Braga. Helena Mendes Pereira