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DUELO POLITICAMENTE, O OCIDENTE AINDA ESTÁ COM A UCRÂNIA, MAS EM QUE É QUE ISSO SE MATERIALIZA? - A MÉDIO PRAZO, ESTARÁ EM RISCO O APOIO OCIDENTAL À UCRÂNIA?

Expresso

2023-12-22 07:01:05

Professor de Diplomacia e História na Universidade Portucalense Cientista política e especialista em relações internacionais da Universidade do Minho SIM Ajudas eternas nunca as houve. Em diplomacia, o eterno termina hoje. A primeira ideia que devemos ter presente é que em diplomacia e política nada é permanente. A ajuda à Ucrânia, seja pelos aliados da União Europeia (coletiva ou individualmente) ou pelos Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália, poderá sofrer reveses nos próximos meses. Em Washington, é muito claro que o assunto Ucrânia perdeu saliência mediática e social.com a aceleração das primárias, é muito provável que Kiev veja a ajuda de grande monta cair num “jogo de sombras e chantagens” que protele decisões significativas. No espaço europeu o desafio parece ser apenas Budapeste, para já, mas é preciso ter cuidado com o simplismo dessa análise. Ainda não sabemos qual a configuração do Governo dos Países Baixos, mas uma coligação de direita moderada e radical tenderá a fechar-se em assuntos de contenção de despesa, controlo migratório e defesa dos valores neerlandeses, o que poderá justificar menor apoio financeiro, mantendo-se sempre a retórica política de Amesterdão. Em Espanha, o Governo de Pedro Sánchez, a braços com uma coligação gargantuesca, terá maior foco em política interna, seja na questão da amnistia aos independentistas catalães ou na operacionalização de uma transferência de poderes para as regiões e comunidades, pelo que o assunto guerra na Ucrânia será menos saliente e a ajuda, menos prioritária. Convém lembrar que o novo Executivo eslovaco não aceita financiar mais armamento para a Ucrânia e que na Bulgária, Roménia e Polónia o grau de apoio à manutenção dos atuais níveis de ajuda caiu um pouco, por conta dos magros ganhos territoriais alcançados por Kiev com a contraofensiva de verão. Há ainda dois fatores que deveremos equacionar: em 2024, países como Portugal (março), Roménia (março), Bélgica (junho), Croácia (setembro), Áustria (setembro/ outubro) e Lituânia (outubro) terão eleições parlamentares que poderão alterar as suas prioridades de política externa. Olhos postos também nas legislativas do Reino Unido, em que os trabalhistas devem retomar o poder, não sendo certo que o atual ritmo de ajuda à Ucrânia se mantenha. A isto somam-se as europeias de 6 a 9 de junho, que poderão ver aumentar os eurodeputados alinhados com os populistas nacionalistas do grupo Identidade e Democracia ou com o bloco eurocético Conservadores e Reformistas Europeus. Em segundo lugar, uma nova subida da taxa de inflação, cenário que a presidente do Banco Central Europeu não descarta, pode obrigar os Governos europeus a escolhas pragmáticas, ao invés de idealistas. Entre controlar perda de poder de compra, que leve a antinomia social, e não enviar ajuda para um conflito militar com quase dois anos, parece-me mais fácil deixar cair a segunda. E não devemos esquecer a crise da habitação no espaço europeu, que exige respostas domésticas onerosas, à medida que a opinião pública se desliga lenta, mas gradualmente, do conflito que começou em fevereiro de 2022. NÃO Desde 7 de outubro de 2023, a Ucrânia passou a ser a “outra guerra”... a urgência geopolítica moveu-se para o Médio Oriente. Entretanto, o insucesso da contraofensiva do verão lançada por Kiev permitiu uma aceleração russa da guerra, a seu favor. A Ucrânia está numa situação delicada e o apoio ocidental revela as suas fragilidades, mas estas são sobretudo internas e não põem em causa as motivações profundas dos aliados de Zelensky. Os parceiros de Kiev não têm interesse num desempate do atual impasse a favor de Moscovo. O veto húngaro na União Europeia e a luta partidária nos Estados Unidos, que suspendem a aprovação de ajuda financeira adicional, são jogadas na perspetiva dos ciclos eleitorais de 2024. Os passos seguintes continuam a incluir novos armamentos e tecnologias e uma nova doutrina militar para esta guerra. A ideia de perda de apoio ocidental é alimentada pela propaganda russa em interesse próprio. Os meios aplicados são avultados e orquestrados pelo Kremlin, na vertente híbrida desta guerra. Estimular na população ucraniana um sentimento de traição pelo Ocidente é permitir a prazo um putsch pró-russo em Kiev. Numa leitura mais pragmática, a desordem no seio dos aliados prende-se com a necessidade de redefinir o que enviar para a Ucrânia: que meios, para que estratégia? A perspetiva de um segundo inverno debaixo das bombas, com fortes privações, reforça a imagem de re-siliência excecional dos ucranianos em prol das convicções euroatlânticas, apesar de não receberem os muito necessários meios aéreos e mísseis de longo alcance. A Ucrânia tem profundidade estratégica face à Rússia na medida em que beneficia do apoio ocidental. Sem ele, somente os ucranianos deveriam assumir responsabilidades perante o expansionismo territorial da Rússia autoritária. Por outras palavras, o preço da liberdade só seria pago por uns em benefício de todos. O sinal positivo para o início das negociações de adesão à UE é mais do que uma boia de salvamento lançada aos países que querem fazer parte da “família”. No continente, bálticos e polacos são os guardiões contra os cálculos frios de estratégia face à Rússia. Negociar com Moscovo tem um preço muito para lá de aceitar nova cortina de ferro na Europa (e no mundo). O momento da negociação só poderá ser uma escolha se o apoio ocidental se mantiver, e com ele as dinâmicas integradoras na Europa. Se a Ucrânia perdeu a batalha do verão, ainda não perdeu a guerra. O apoio ocidental não é escolha. É necessidade. As fronteiras da Ucrânia delimitam muito mais do que um mapa político, porque definem os modos de vida dos europeus e a possibilidade de viver em sociedades abertas, num mundo multipolar de ditaduras. Mesmo com Trump, é uma retrotopia muito rebuscada achar-se que vai dividir o mundo em zonas de influência com a Rússia numa lógica de nova Guerra Fria. As diplomacias são mais fluidas e voláteis e o apoio à Ucrânia é multifacetado. Na linha da frente está toda a construção europeia, porque todos sabem, embora o sintam de forma diferenciada, que Putin só irá até onde o deixarem ir. A ideia de uma perda de apoio ocidental é alimentada pela propaganda russa em interesse próprio Devemos ter presente que em diplomacia e em política nada é permanente Tiago André Lopes; Sandra Fernandes