pressmedia logo

ANO DE CONFLITOS SEM SOLUÇÕES PARA UCRÂNIA E MÉDIO ORIENTE

NOVO

2023-12-24 07:01:05

Ano de conflitos termina sem soluções à vista na Ucrânia e no Médio Oriente Este ano está a terminar marcado por duas guerras de larga escala que vão continuar em 2024, por múltiplos pontos de tensão por instabilidade, mais marcante em África. O mundo tornou-se mais polarizado e vê afirmarem-se outros protagonistas, mas também se nota a erosão das instituições. Num quadro de mudança, os analistas apontam também os desafios do clima e da tecnologia, que vão manter-se no futuro que aconteceu em 2023 não desaparece com o encerrar deste ciclo, mas reverbera no tempo, com consequências nos próximos anos. A guerra provocada pela invasão russa da Ucrânia, que provocou o maior conflito militar na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, manteve-se e criou o enquadramento para que outros conflitos pudessem eclodir e testar as instituições internacionais e que fosse sinalizada a existência de novos centros de poder. "O mais marcante foi a crescente consciencialização da existência de um mundo, hoje. multipolar, desregulado, com instituições desadequadas à nova realidade, gerando crescente incerteza nos cidadãos quanto ao futuro". diz ao NOVO Vítor Ramalho, secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA). Na Ucrânia, a contraofensiva ganha pouco terreno a um custo elevado, indiciando que assistiremos. a partir de agora, a uma guerra de desgaste, com posições defensivas consolidadas. "O apoio norte-americano e da União Europeia [UE] não permitiu à Ucrânia recuperar grande parte dos territórios ocupados pela Rússia uma situação que se agravou não apenas devido às objeções levantadas pelo Senado dos EUA: malgrado a informação de [Joe] Biden no sentido de explicar que a ajuda representava 90% de investimento interno nos EUA e assegurava bons empregos, mas também pela dificuldade ao nível da produção desse armamento em tempo útil e do treino do exército ucraniano para a sua utilização", aponta José Filipe Pinto, professor catedrático da Universidade Lusófona, especialista em relações internacionais. O facto de esta ser uma guerra feita por um membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), a Rússia, faz com que este órgão, herdeiro do legado maquiavélico de uma hierarquia do poder em que o mais forte se impõe, seja incapaz de cumprir a sua missão. Na fronteira europeia, o Nagorno-Karabakh. um enclave de maioria étnica arménia dentro do Azerbaijão. numa região montanhosa, que gozava de autonomia no tempo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, deixou de existir, tomado pelas forças azeris. Em África, manteve-se a instabilidade. com três golpes de Estado, um deles no Sudão, que resultou numa guerra civil, e quatro tentativas falhadas, incluindo aqui as alegações do presidente da Guiné--Bissau. Umaro Sissoco Embalo, que justificou a dissolução do parlamento com uma tentativa de assalto ao poder. Em três anos. a África subsariana viu concretizarem-se sete golpes de Estado. Mas foi no norte que eclodiu um novo conflito em larga escala com repercussões globais. "O clima de estabilidade no Médio Oriente parecia promissor até ao final de setembro de 2023. Especulava-se que a Arábia Saudita poderia, em breve, estabelecer relações diplomáticas com Israel. Estava em vigor um cessar-fogo na amarga guerra civil do lémen. Isso mudou rapidamente. em 7 de outubro, quando o Hamas atacou Israel. Em resposta. Israel lançou uma ofensiva em Gaza sem precedentes. Contados três meses de conflito e sem fim à vista, já se contam mais de 19 mil mortos e o deslocamento forçado de 1,7 milhões de habitantes de Gaza", refere Carlos Morgado Braz. coordenador da licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Europeia. O Conselho de Segurança e a ONU são outra vez testadas. Tiago André Lopes, professor de Diplomacia e Relações Internacionais da Universidade Portucalense, destaca como marcante o dia em que António Guterres, "na condição de secretário-geral das Nações Unidas. por força da violência da resposta de Israel aos atentados cometidos pelo Hamas. invocou o artigo 99 da Carta das Nações Unidas forçando a discussão do assunto no Conselho de Segurança, que se encontra paralisado pelo uso continuado do veto pelos EUA". José Filipe Pinto Professor catedrático da Universidade Lusófona Vítor Ramalho Seo.-geral da UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa Os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente prosseguirão em 2024. "Ambos continuam sem um fim imediato à vista, embora em fases diferentes, em que o apoio incondicional dos aliados ocidentais ao esforço de guerra na Ucrânia comece a ser testado, à medida que também surgiram, no último trimestre, as primeiras divisões políticas dentro da Ucrânia com o presidente Zelenski", diz Luís Tavares Bravo, presidente da International Affairs Network. "Também na Faixa de Gaza a intervenção de Israel começa a perder suporte internacional, à medida que o custo humanitário junto da população civil começa a ser posto em causa", acrescenta. Tiago André Lopes refere ainda que o ano foi marcado pela normalização das relações diplomáticas entre Irão e Arábia Saudita, com mediação chinesa. "A aproximação dos dois Estados, que estavam sem relações diplomáticas ou consulares desde 2011. tem potencial para transformar a região do Médio Oriente a longo prazo." E. na Tmquia Recep Táyyip Eidogan foi reeleito e toma-se o mais importante governante do país desde Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna. "No mundo de múltiplas ordens em formação, a memória do Império Otomano leva a Turquia a sonhar com a liderança da Ordem Islâmica. Daí o papel, enquanto mediador, no conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Por isso, o apoio à causa palestiniana e a condenação violenta da resposta israelita", diz José Filipe Pinto. "Num cenário difícil devido aos terramotos que tinham assolado o país. em fevereiro, e causado uma onda de destruição e morte, a vitória de Erdogan face a um opositor apostado numa reaproximação ao Ocidente, uma visão que colhe nas duas maiores cidades, constitui uma ameaça devido à pertença turca à NATO e às ligações privilegiadas que Ancara está a estabelecer com regimes autoritários e totalitários", acrescenta. Populismo e direita Vítor Ramalho encara os dois grandes conflitos militares que decorrem como exemplos de afirmação de uma nova realidade que não é só geopolítica. "Tornou-se mais percetível com a guerra na Ucrânia e. agora, no Médio Oriente", diz. apontando que. perante esta nova realidade, a UE apresenta-se "desarmada de princípios de estratégia e de meios de defesa. assistindo ao crescimento dos populismos e ao enfraquecimento das suas próprias instituições democráticas". Neste ano, a extrema-direita e também os populistas continuaram a fazer caminho. Se. na Polónia, uma coligação de esquerda pôs termo a oito anos de governação do Partido Lei e Justiça, na Hungria Viktor Orbán mantém--se como primeiro-ministro e é, agora, o governante da UE há mais tempo no poder Roberto Fico venceu as eleições na Eslováquia, o populista Partido Progressista também venceu na Sérvia e, na Suécia. sustenta uma coligação governamental. Depois, nos Países Baixos, o Partido da Liberdade populista, anti-islâmico, de extrema-direita. foi o mais votado e mudou o xadrez político neerlan-dês. "A vitória de Geert Wilders e do seu partido unipessoal nas legislativas nos Países Baixos prova que o populismo cultural ou identitário não é um epifenómeno ou uma realidade circunscrita à Hungria de Orbán". alerta José Filipe Pinto. "Continuaram a acentuar-se tendências de elevada polarização e de erosão dos partidos moderados tradicionais e que, na Europa, continuam a marcar a agenda em vésperas de importantes eleições para o Parlamento Europeu em 2024", diz Luís Tavares Bravo. "As tensões sociais continuam também a ser cada vez mais evidentes - a reforma das pensões em França durante a primeira metade do ano atingiu proporções de protestos elevados, num ano em que a desigualdade nos países desenvolvidos também tem vindo a aumentar", acrescenta. Facto é que a extrema-direita ganha espaço e, na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha já surge nas sondagens como o segundo partido preferido dos eleitores. enquanto em França os estudos indiciam que Marine Le Pen poderá ter uma real possibilidade de vitória em 2027. E não sabemos que impulso o ano eleitoral norte-americano poderá dar a estes movimentos, com o concurso de Donald Trump, até porque a instabilidade e a erosão da autoridade das instituições não são um exclusivo europeu, longe disso. "Entre os episódios que marcaram 2023, a invasão dos Três Poderes levada a cabo por bolsonaristas radicais, espécie de déjà-vu do que havia sucedido nos Estados Unidos, demonstra que a História se repete e que as crises nas democracias atuais são uma realidade", aponta Paulo Brardo Duarte, professor de Ciência Política na Universidade Lusófona do Porto. Este foi também o ano de afirmação dos BRICS, o grupo de países formado pelo Brasil, Rússia, índia. China e África do Sul. que beneficiaram da procura de Moscovo por palcos alternativos, para fugir ao isolamento que resulta da guerra que iniciou com a invasão da Ucrânia, mas também da tentativa de afirmação internacional de Pequim. "O ano dos BRICS e da defesa do Sul global" é. também. "o ano do regresso do Brasil aos palcos mundiais", assinala Paulo Brardo Duarte, professor de Ciência Política na Lusófona do Porto. Entre o verão deste ano e Clima e tecnologia Os analistas ouvidos pelo NOVO destacam também, no ano que passou, as questões relacionadas com as alterações climáticas, quando, já este mês. a 28. a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, acabou por ser histórica, porque no texto final se alude, pela primeira vez, ao fim da utilização de combustíveis fósseis e se fixa uma meta para que isso aconteça, até 2050, e porque começou a ser operacionalizado o fundo para compensar eventuais perdas económicas causadas pelas alterações climáticas nos países em desenvolvimento. ainda que os volumes sejam diminutos, por agora, não ultrapassando 1% do que se calcula serem as necessidades anuais. "As alterações climáticas deixaram de ser uma ameaça futura. É a nova realidade do mundo. O novembro de 2024, a República Federativa do Brasil terá um protagonismo inusitado a nível internacional, com a presidência do Mercosul e do G20, a ação no âmbito dos BRICS, com a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, e a participação no Conselho de Segurança da ONU. ano de 2023 foi, provavelmente, o ano mais quente de que há registo. O resultado tem sido eventos climáticos extremos em todo o mundo que vão desde incêndios florestais históricos a secas extremas e inundações recorde", sublinha Carlos Morgado Braz. "Este ano é, pois, a concretização no curto prazo de problemas ambientais que eram relegados para parte incerta no futuro", reforça Paulo Brardo Duarte. Acrescente-se a esta equação a evolução demográfica, no ano em que a índia ultrapassou a China e se tornou o mais populoso país do mundo. "O crescimento da população no planeta tem levado a discussões intensas sobre a gestão global de recursos e consumíveis, num ano marcado por uma COP que ficou notavelmente contaminada pelas vitórias diplomáticas do sector das energias fósseis", diz Tiago André Lopes. Este é um risco - e uma oportunidade de mudança - que se prolonga no tempo, como outro, também assinalado, gerado pela evolução tecnológica particularmente os avanços no desenvolvimento da inteligência artificial. "A tecnologia baseada nos chamados modelos de linguagem computorizada melhorou a versão mais recente do ChatGPT ao ponto de desencadear uma corrida desenfreada de governos, empresas e indivíduos", considera Caiios Morgado Braz. O banco de investimento Goldman Sachs calcula que o investimento em inteligência artificial generativa pode duplicar, entre 2022 e 2025, chegando aos 200 mil milhões de dólares (cerca de 182 mil milhões de euros). "Paralelamente, começou a questionar-se se estamos a entrar numa nova era de criatividade e prosperidade humanas ou a abrir uma caixa de Pandora com consequências imprevisíveis", finaliza Morgado Braz. "O ano dos BRICS e da defesa do Sul global" é também "o ano do regresso do Brasil aos palcos mundiais", assinala Paulo Brardo Duarte Tiago André Lopes Prof, de Diplomacia e Relações Internacionais da Univ. Portucalense Carlos Morgado Braz Coordenador da licenciatura em Rei Internacionais da Univ. Europeia Paulo Brardo Duarte Professor de Ciência Politica na Universidade Lusófona do Porto Luís Tavares Bravo Presidente da International Affairs Network A guerra em Israel, provocada pelo ataque terrorista protagonizado pelo Hamas, foi mais um conflito militar de larga escala que se iniciou em 2023 e se prolongará para 2024 A vitória do Partido da Liberdade, populista, anti-islâmico, de extrema--direita, nos Países Baixos, foi mais um exemplo da mudança do quadro político europeu Ricardo Santos Ferreira