ONDE É O BALOCHISTÃO E O QUE PEDEM OS REBELDES QUE HÁ DÉCADAS CONDUZEM ATAQUES TERRORISTAS NO IRÃO E NO PAQUISTÃO?
2024-01-18 20:25:08

Ana França Jornalista da secção Internacional A zona histórica do Baloquistão toca três países - Paquistão, Irão e Afeganistão. Nos primeiros dois resistem ainda movimentos separatistas nascidos no fim do domínio britânico no subcontinente indiano, apesar de as reivindicações independentistas terem raízes com séculos. No início desta semana, o Irão lançou drones sobre território paquistânes com intuito, diz Teerão, de atacar os separatistas iranianos que operam dos dois lados da fronteira. Cerca de 24 horas depois, o Paquistão retaliou, alegando exatamente o mesmo. Onde é o Balochistão, o que pedem os separatistas e que consequências pode ter mais este foco de tensão no mundo? O Irão e o Paquistão trocaram ataques nos últimos dias. O que é que está em causa? Estes dois países têm um inimigo comum: os separatistas do Balochistão, que opera em ambos os países e por isso é alvo de ambos os exércitos. Na terça-feira, 16 de janeiro, a agência de notícias semi-oficial do Irão, a Tasnim, informou que o exército iraniano havia disparado mísseis e drones sobre a vila de Koh-e-Sabz, perto da cidade fronteiriça de Panjgur, na região do Balochistão, no Paquistão, visando dois principais redutos do grupo separatista Jaish Al-Adl. Esse ataque, diz o Paquistão, matou duas crianças e fez vários feridos. A fronteira porosa e problemática entre os dois países estende-se por cerca de 1000 quilómetros. O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amir-Abdollahian, havia confirmado na terça-feira, à margem do Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, que Teerão tinha apenas atingindo bases “do movimento terrorista”, referindo-se aos sunitas do tal Jaish al-Adl, ou “Exército da Justiça” e garantiu que nenhum civil “do país amigo e irmão do Paquistão” havia sido visado. Em retaliação por estes ataques, o Paquistão anunciou esta quinta-feira ter conduzido ataques “altamente coordenados” a “esconderijos de grupos armados” no Balochistão iraniano, aumentando ainda mais as tensões entre os vizinhos. O Irão diz que pelo menos nove pessoas morreram. Num comunicado publicado na rede social X, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão diz que “ao longo dos últimos anos”, Islamabade tem tentado mostrar ao vizinho iraniano as suas “sérias preocupações sobre os refúgios e santuários utilizados pelos terroristas de origem paquistanesa que se autodenominam Sarmachars nos espaços não-governados do Irão” sem que nada tenha sido feito, diz o ministério, para neutralizar essas atividades. “Esta ação é uma manifestação da determinação inabalável do Paquistão em proteger e defender a sua segurança nacional contra todas as ameaças”, lê-se ainda. Onde é o Balochistão? O Balochistão histórico abrange a parte sul da província iraniana do Sistão e Balochistão, a oeste, a província paquistanesa do Balochistão, a leste, e, a noroeste, parte da província afegã de Helmand. O Golfo de Omã constitui a sua fronteira meridional. A topografia da área é dominada por montanhas e deserto. Geograficamente, o Balochistão é a maior província do Paquistão (com 44% da área total do país), mas é a menos desenvolvida e menos habitada, com apenas 5% da população total. O Islão sunita é a religião predominante em toda a região. A “área fronteiriça tripartida” , onde o Irão, o Afeganistão e o Paquistão se encontram , é um deserto sem lei há muito conhecido pelo contrabando de drogas, pessoas e armas. É por aqui que hoje transitam os que querem chegar à Europa, fugidos destes três países e esperançosos numa viagem da Turquia para a Grécia. Quem são os separatistas que tanto Irão quanto Paquistão querem combater? No Irão, o principal grupo, como já foi dito acima, é o Jaish al-Adl, ou “Exército da Justiça”, considerado terrorista pelo Irão. Nasceu em 2012 e tem nas fileiras sobretudo membros do grupo sunita Jundullah, criado anteriormente, em 2002, mas em decadência desde 2010, quando o seu líder, Abdomalek Rigi foi condenado à morte e executado pelo regime iraniano. Os separatistas defendem sobretudo a criação de um país etnicamente baloche chamado Balochistão, que incluiria, além das terras de maioria baloche no Irão, também a província do Balochistão no Paquistão e territórios etnicamente baloches no Afeganistão. “Semelhantes aos curdos, os baloches são uma etnia sem Estado, cuja nação está essencialmente dividida entre três países, mas 40% do território fica no Paquistão, onde também acontecem a maioria dos ataques. São todos sunitas. Mas há islamitas e seculares, muitos são até inspirados por lutas de caráter marxista”, diz ao Expresso Felipe Pathé Duarte, professor da NOVA School of Law, especialista em terrorismo. Em 2019, “renovaram e consolidaram a insurgência, resultado da deterioração das condições regionais e de um Estado paquistanês cada vez mais repressivo”, acrescenta. Tiago André Lopes, Professor de Diplomacia e História na Universidade Portucalense e especialista em Estudos Asiáticos, explica que as reivindicações dos baloches surgem porque depois da descolonização britânica, este povo não quis fazer parte nem da Índia nem do Paquistão. Um pouco como os curdos, como também lembrou Pathé Duarte, mas “ao contrário destes, os baloches são a base da pirâmide social, são sunitas e vivem nas regiões mais pobres dos dois países”. A região é rica em quase todos os recursos naturais mais importantes como o gás natural, o petróleo, o carvão, o cobre, o enxofre, o flúor e o ouro, mas estes recursos não beneficiam a população local de uma forma igualitária. As reivindicações mais recentes pela independência radicam nessa disparidade de rendimentos e investimento em relação a outras zonas mais desenvolvidas do Paquistão e do Irão, porém vários estudos de opinião feitos nos últimos anos mostram que a maioria das pessoas residentes nesta mancha de território não são a favor da resistência armada. Estes movimentos são diferentes no Irão e no Paquistão? São similares e apoiam-se, mas têm focos diferentes de luta, cada um no seu próprio país. No Paquistão há mais do que um grupo separatista: o Exército de Libertação do Balochistão, designado como organização terrorista pelo Paquistão, Reino Unido e Estados Unidos, é o mais ativo. Desde 2000, são dezenas os ataques mortíferos no seu cadastro, contra as tropas paquistanesas, mas também contra a polícia, jornalistas, civis e instituições de ensino. Outros grupos separatistas incluem o “Lashkar-e-Balochistan” e a “Frente Unida de Libertação do Balochistão”. “A principal diferença entre eles é que, no Irão, os baloches querem direitos autonómicos, querem ter esses direitos protegidos juridicamente, já no Paquistão o desejo de ver nascer um Estado próprio está mais presente, porque entendem que foram anexados ao Paquistão injustamente. A Índia conseguiu um Estado, o Paquistão também, e o Balochistão não”, explica Tiago André Lopes. Estes insurgentes não fizeram parte do esforço evangelizador pela força movido pelo Daesh (autoproclamado Estado Islâmico). “Querem o controlo das suas fronteiras mas não têm agenda expansionista”, diz ainda. Quais as principais ações dos dois grupos nos últimos anos? Depois de mais de um século de insurgências, muitas ligadas ainda às lutas contra o império britânico, o início do novo milénio veio reacender as lutas dos rebeldes baloches. No Irão, em 2005, uma bomba explodiu perto de um carro que transportava o então Presidente Mahmoud Ahmadinejad durante uma emboscada na província, resultando na morte de um dos seus guarda-costas e de outro indivíduo. Em 2007, um carro armadilhado detonou em frente a um autocarro que transportava membros do corpo da guarda revolucionária iraniana em Zehedan, vitimando 11 pessoas. Depois de uma pausa de mais de dez anos, durante os quais se reorganizaram, os ataques voltaram a surgir em força em 2019. Logo no início do ano, duas bombas feriram três agentes da polícia, também em Zahedan, capital da província do Sistão e Balochistão. A 2 de fevereiro, um soldado da Guarda Revolucionária foi morto e cinco outros ficaram feridos num ataque de insurgentes a uma esquadra em Nik Shahr. Dois rebeldes escalaram os muros da base e começaram a disparar. Nesse mesmo mês, um atentado suicida com um carro-bomba contra um autocarro que transportava pessoal da Guarda Revolucionária na estrada entre as cidades de Khash e Zahedan matou pelo menos 27 soldados e feriu outros 13. Em julho, dois soldados da Guarda Revolucionária foram mortos e outros dois ficaram feridos ao fim da noite durante um confronto com homens armados perto da fronteira com o Paquistão. O ano de 2020 começou calmo mas registaram-se vários ataques contra forças iranianas a partir do início do verão. Em setembro desse ano, três membros das brigadas Basij, que basicamente faziam o trabalho sujo do regime, foram mortos em Nik Shahr. No primeiro dia de 2022, a Guarda Revolucionária anunciou que esteve em confronto com “terroristas armados” na região de Kurin, na província na qual morreram três membros dos Basij. Em janeiro deste ano, as forças de segurança iranianas atacaram o esconderijo de alguns rebeldes, matando nove pessoas, incluindo o Mullah Akram Naroi, que terá estado envolvido num anterior ataque à esquadra de polícia na cidade de Rask. Quanto ao Paquistão, no rescaldo do assassinato de Akbar Bugti, líder dos baloches que serviu como ministro e governador da província do Balochistão paquistanês, em 2006, o apoio à insurreição aumentou, e uma parte significativa desse apoio vinha da classe média baloche. Malik Siraj Akbar, jornalista baloche exilado nos EUA, escreveu no “Huffington Post” que a resistência pós-2010 criou “sérios desafios” para o Governo paquistanês “ao contrário dos anteriores movimentos de resistência”, porque dura há mais tempo do que as anteriores insurreições, tem uma maior amplitude - incluindo toda a província “desde as regiões rurais montanhosas até aos centros das cidades”, envolve mulheres e crianças baloche em “manifestações de protesto regulares” e atraiu mais atenção internacional - incluindo uma audição, em 2012, no Congresso dos EUA. Os relatórios do Centro Paquistanês para a Paz dão conta que, em 2020, o Paquistão registou 506 vítimas mortais destas insurgências. Em 2021, segundo a mesma fonte, 136 pessoas foram mortas em 81 ataques terroristas no Balochistão. Em 2022, esse número aumentou para 406 mortos. O jornal britânico “The Guardian” escreve que, em 2023, 10 soldados paquistaneses foram mortos em ações terroristas, mas ainda não há dados do Centro Paquistanês para a Paz. Não foi possível encontrar números concretos de mortes no Irão de nenhum organismo credível. E há ramificações geopolíticas? Há sempre, apesar de ser pouco provável que este conflito tenha uma escalada significativa. Como lembra o professor da NOVA School of Law, é preciso não desviar a atenção da China, que tem vários investimentos no Paquistão e vai sempre protegê-los militarmente. Além disso, a situação é por definição volátil, uma vez que toca diferentes potenciais. “Os militantes baloche têm usado o Irão e o Afeganistão como refúgios seguros para lançar ataques através da fronteira. E isso tem aumentado as tensões entre Teerão e Islamabade, apesar da cooperação ocasional em matéria de segurança. O Afeganistão, sob o domínio talibã, embora tenha prometido reprimir os grupos armados, tem sido em grande parte incapaz ou relutante em cumprir”, diz. O Irão atacou também a Síria e o Iraque nos últimos dias, o que, no caso do Iraque, pode ter consequências para a retirada das tropas norte-americanas. “Se houver uma continuidade de ataques do Irão no Paquistão e no Iraque isso pode atrasar a retirada das 2500 tropas que os Estados Unidos ainda têm na zona, porque os iraquianos podem aperceber-se que continuam a precisar de proteção”. Isto apesar de o primeiro-ministro iraquiano, Mohamed Shia al-Sudani, ter reforçado que quer o fecho das bases da coligação. Bases essas que, por seu lado, são alvos dos países que, na guerra de Gaza, entendem que a luta contra Israel passa também por atingir alvos do seu principal aliado na região. Por outro lado, o Paquistão tem usado um “trunfo” israelita para elevar o discurso da necessidade de defesa. “A linguagem, por parte do Paquistão, têm-se tornado mais extremada e já vieram dizer que têm todo o direito a defender as suas fronteiras. O precedente foi aberto por Israel, que usa o direito à defesa para exercer violência”, diz Tiago André Lopes. No geral, o que este conflito localizado mostra, diz ainda o especialista da Universidade Portucalense, é que “as linhas de divisão entre sunitas e xiitas acabam por destruir qualquer pan-islamismo unificado” numa altura em que a questão palestiniana pede uníssono. “A realidade é que os Estados que estão mais preocupados com os seus interesses internos”, resume.