AUTORRETRATO DE PROFESSORA - REPENSAR O MUNDO, INOVAR NA ESCOLA
2024-01-24 13:41:05

S Sou professora há 34 anos. Comecei a lecionar em 1989, após terminar a licenciatura em História, na Universidade de Évora. Optei por esta carreira por, desde muito jovem, sentir que esta profissão me realizaria: gostava de ensinar familiares mais novos e, já nessa altura, produzia os meus materiais recorrendo a algum talento para o desenho e para trabalhos manuais. Reconheço também que recebi uma forte influência familiar: os meus pais eram professores de ensino primário e lembro-me de, numa altura em que não havia materiais pedagógicos e recursos disponíveis, passarmos as férias de verão a ajudar a minha mãe (que era uma verdadeira artista e uma professora apaixonada) a produzir painéis temáticos para o ensino da leitura, do estudo do meio, da aritmética, e materiais para o desenvolvimento da motricidade fina (esponjas forradas e “alfinetes artesanais” feitos com canetas velhas, para trabalhos de picotagem; materiais em cartão para produzir contornos ). Estas atividades, associadas à tarefa de ensinar, permitiam-me desenvolver um trabalho criativo que me dava muito prazer. Dos meus pais recebi esse gosto pelo trabalho com crianças, de uma forma que já eles faziam com muito gosto, mestria e criatividade. Já o gosto pela história está ligado ao meu interesse por conhecer o percurso da família e de o associar a cada momento histórico , os meus avós maternos foram viver para Angola no início da década de 1930, num contexto nacional e internacional difícil; o meu pai foi mobilizado para a Guerra Colonial; nasci em Angola e vim para Portugal na altura da descolonização, e cedo me interessei por compreender essas vivências. Quando terminei o ensino secundário e me apercebi da existência de um curso de História para o ensino, decidi, sem dúvidas, aquilo que seria o meu futuro profissional, e as expetativas foram cumpridas, pois a estrutura do curso, com uma componente pedagógica muito prática e dinâmica, foi ao encontro do que esperava. Sempre apreciei situações inovadoras, criativas, diferentes. Cansava-me a monotonia. Percebi, ainda como aluna, a importância da motivação e da mobilização de cada aluno para uma aprendizagem com sucesso. Enquanto professora percebi, muito cedo, que os alunos não aprendem todos da mesma maneira e compreendi a importância de estar atenta a cada um deles, ao seu estado de espírito, à sua condição, e de incentivar o seu envolvimento no processo de aprender. Entendo a relação pedagógica como a construção de uma relação de respeito, compreensão e amizade, a partir do diálogo, do exemplo e do aprofundamento do conhecimento mútuos. A responsabilização dos alunos pela sua aprendizagem, pela construção do seu futuro no presente, a demonstração dos passos essenciais para que possam atingir os seus objetivos, assim como a importância de desenvolverem competências e atitudes que os tornem bons profissionais e melhores pessoas, são também passos importantes nesta construção, assim como a interiorização do valor da Escola e das oportunidades que proporciona. Neste momento sou professora de História, História da Cultura e das Artes e Cidadania e Desenvolvimento, na Escola Secundária Quinta das Palmeiras, na Covilhã. Acredito que a Escola tem que ser um local onde as crianças e os jovens se sentem seguros, felizes e confiantes e onde têm que ter espaço e liberdade para se expressarem, decidirem, intervirem, compreendendo a importância e o sentido do que aprendem. A aprendizagem implica envolvimento e construção pessoal, daí que a minha prática docente passe por iniciativas e projetos mobilizadores de ação articulados com parceiros da comunidade, cujo contributo é determinante e precioso: procuro proporcionar vivências em contexto real, experiências imersivas de aprendizagem que permita aos alunos explorar, produzir e aplicar conhecimentos e desenvolver talentos e capacidades de investigação, comunicação, análise, espírito crítico, criatividade e autonomia. No âmbito da disciplina de História, desenvolve-se um trabalho de forte ligação do currículo à história local, da comunidade e da própria família. Percorremos o património e as comunidades locais. Os alunos investigam, contactam, recriam, com o apoio de historiadores, arqueólogos, investigadores; experimentam novas tecnologias e ferramentas digitais para apresentar os resultados do trabalho em formatos criativos e diversificados, que propõem a concursos a nível local e nacional, ou divulgam em meios digitais. Preparam-se debates ou tertúlias em torno de temas. Organizam-se bootcamps onde se criam ambientes de reflexão e trabalho em equipa. Preparam-se jornadas de conhecimentos onde os alunos partilham conhecimentos com colegas de outras turmas, professores e pais. Organizam-se exposições temáticas, dinâmicas e interativas criando-se ambientes de aprendizagem imersivos, associados a conferências com palestrantes convidados, encenações, visualização de documentários e filmes. Na mesma senda do desenvolvimento de projetos como forma de construir aprendizagens significativas, utilizo, em colaboração com professores de TIC, ferramentas inovadoras para os alunos produzirem aplicações digitais como o GPI , Guias de Percursos Interativos - onde se criam percursos pelo património edificado ou artístico da Covilhã, ou se recria o património através de utilização de ferramentas 3D. Dinamizo com os alunos e colegas o Projeto QTV , um canal de TV escolar, que produz reportagens das atividades desenvolvidas na escola e uma rubrica intitulada “Repensar o Mundo”, no qual os alunos debatem temas da atualidade do seu interesse. No âmbito do Plano de Inovação da Escola, fui responsável pela criação da disciplina de oferta de escola, Projeto Integrador, que se desenvolve ao longo do 3º ciclo e que pretende promover nos alunos competências empreendedoras, com base no conhecimento mais aprofundado do meio local. No 7º ano, os alunos aprofundam o conhecimento das características, recursos e património das freguesias rurais e urbanas da Covilhã, desenvolvendo pesquisas, visitas e contactos com dirigentes associativos, políticos e populações locais. No 8º ano, são promovidas capacidades no domínio comportamental, fundamentais na formação do espírito empreendedor e softskills na área do empreendedorismo, através de diversas atividades e dinâmicas, com a participação de diversos parceiros. No 9.º ano, os alunos formam equipas, criam ideias de negócio com base no aproveitamento dos recursos da região e criam os produtos que apresentam à comunidade em feiras de empreendedorismo ou em concursos locais ou nacionais, promovidos por entidades parceiras. Como coordenadora de Cidadania e Desenvolvimento propus a modalidade de projetos para a implementação desta área nos 10º e 11º anos. Esta área transversal funciona desde 2018 em todas as turmas, com muito sucesso. Os projetos são desenvolvidos em grupo, coordenados pelos diretores de turma e monitorizados pelos professores dos conselhos de turma. Os alunos são levados a planificar e desenvolver projetos de cidadania ativa, com ações concretas, criando parcerias com instituições diversas da comunidade, como lares de 3ª idade, infantários, hospital, centro de saúde, associações, instituições de solidariedade social, de defesa do ambiente, de acolhimento de crianças e jovens, GNR, PSP, bombeiros, etc. Os projetos são desenvolvidos autonomamente pelos alunos, com iniciativas e atividades com/nas instituições parceiras e, no final do ano, os resultados são partilhados em apresentações públicas (com os colegas, professores, familiares, representantes dos parceiros dos projetos dos alunos e outros convidados). Este é um momento muito significativo, em que os alunos se sentem valorizados pelo trabalho que desenvolvem. No 12º ano, e na sequência de uma consulta de interesses aos alunos, propus ainda a criação de uma disciplina - Vivências e Experiências de Cidadania -, que possibilita a abordagem de temas mais negligenciados no currículo (como a literacia política e a literacia financeira), o debate de temas da atualidade com a participação de diversos convidados, e o desenvolvimento de projetos locais promotores dos ODS. Ao longo de todo este trajeto sinto-me muito reconhecida: por todos os que me rodeiam e rodearam nesta nobre tarefa pela qual continuo apaixonada , direções das escolas, colegas, colaboradores e, de forma especial, pelos meus alunos. Sinto gratidão pela responsabilidade de que me sinto investida , de ajudar a desenvolver almas novas, confiantes, ousadas, criativas, lutadoras, interventivas. Continuo a acreditar que a Escola é o espaço onde se respeita e valoriza a diversidade e onde todos têm lugar, onde todos são importantes e contribuem para um crescimento recíproco. Penso que as sociedades civis deverão colaborar com a Escola e com os professores neste complexo papel, articulando esforços, recursos e contributos. Os governos devem ser proativos, apoiar as escolas públicas no desenvolvimento de uma educação de qualidade, proporcionando os recursos necessários, orientando políticas educativas eficazes e valorizando os professores e as escolas. J Lídia Mineiro é professora de História e coordenadora dos departamentos de Ciências Sociais e Humanas e de Cidadania e Desenvolvimento, na escola Secundária Quinta das Palmeiras, na Covilhã. Foi finalista do Global Teacher Award Portugal, em 2022 Lídia Mineiro