ESPECIAL - DOSSIER CONSTRUÇÃO METÁLICA
2024-01-29 06:00:45

ESPECIAL CONSTRUÇÃO METÁLICA “Este é um sector com uma vitalidade muito grande e um contribuinte líquido da economia portuguesa” _Em Portugal, o sector da construção metálica dá mostra de um grande dinamismo impulsionado pela necessidade de crescer e de se expandir para mercados externos exigentes. Mais investimento e a aposta em produtos mais sofisticados e sistemas inovadores foram a resposta das empresas e o processo de transformação do sector é já visível Manuela Sousa Guerreiro Fotos: DR O último grande encontro do sector em Portugal, organizado pela Associação Portuguesa de Construção Metálica e Mista, CMM, teve lugar há poucos meses e foi um bom indicador do estado do sector em Portugal, não só pelo número de empresas presentes, nacionais e internacionais, mas sobretudo como montra daquelas que são as linhas actuais de desenvolvimento de um sector que tem o aço por base. Em Portugal o sector dá mostra de um grande dinamismo impulsionado pela necessidade de crescer e de se expandir para mercados externos exigentes, como nos explica Luís Simões da Silva presidente da CMM. Na conversa, ou lição, que mantivemos com o professor houve ainda tempo para abordarmos o novo “Portugal Steel” - o programa de apoio da CMM que visa a promoção do sector no contexto nacional e internacional - que agora se desenha Os números do último grande encontro do sector organizado pela CMM são expressivos. Este é um bom momento para o sector? O Congresso superou as nossas expectativas em todos os indicadores de concretização, número de empresas, de participantes, etc., mas acima de tudo coloca--nos o desafio de continuar com esta trajectória positiva, de conseguir juntar todos os stakeholders interessados neste sector e conseguir ter mais influência na sociedade, nas decisões económicas, etc. A ênfase foi dada a duas áreas muito concretas: construção modular e a manufactura aditiva. Isto são os dois grandes temas que se colocam à indústria? Eu diria que é quase como fechar o ciclo porque temos um sector da construção em Portugal onde predominam as soluções tradicionais, fundamentalmente executadas em situ e, portanto, com tempos longos, pouca valorização dos recursos humanos, do qual é dependente, com reflexos na qualidade. E a construção metálica sempre foi o contraponto. Porquê? Porque a pré-fabricação esteve sempre presente. O que nós assistimos nos últimos dois/três anos foi que o sector globalmente percebeu que tinha de utilizar as soluções que a construção metálica já pratica há muitos anos e utilizá-las mesmo para todo o processo, mesmo com outros materiais, que não aço. É uma inevitabilidade. A construção modular não é mais do que a pré-fabrica-ção, a produção industrializada, agora com talvez com um nome mais fácil de perceber e de ser transmitido ao utilizador final, o cliente da construção. Hoje em dia, há a percepção de que a construção tem que ser modular, tem que ser industrializada, tem que ser flexível, tem que ser adaptável às exigências do utilizador final. São esses os desafios estão em cima da mesa não só em Portugal, mas de uma forma mais global. A discussão é global A seguir ao Congresso fui para a Austrália e para a Malásia participar em dois eventos internacionais e o foco foi na construção modelar. Portugal está na onda do que é o desenvolvimento. Claro que as empresas para terem sucesso, e têm demonstrado que têm conseguido, têm que acompanhar os avanços. E esta globalização irá produzir resultados mais rapidamente, em que domínios e de que forma? Deixava mais para a frente essa questão e o porque é que neste momento não há alternativa, para lhe falar do segundo tema que lançou: da manufactura aditiva ou melhor a opção 3D, se quisermos, que é um instrumento para a concretização dos objectivos da construção modular. Porquê? Porque permite a digitalização do processo e isso traduz-se numa coisa muito simples: conseguimos eliminar um conjunto de ineficiências que a não digitalização do processo traz. A partir do momento em que digitalizamos o processo não há interrupções. A grande eficiência que a impressão 3D traz, permite optimizar os processos porque é um processo aditivo. Ganhamos uma eficiência enorme porque eu consigo produzir juntando só ao material que preciso estritamente para conseguir aquele resultado e essa é que é a grande vantagem. Este é um instrumento essencial para a concretização da construção modular porque muitos dos processos das componentes para a construção modular vão ser executados através de fabrico aditivo. Porque é que é a construção modelar é uma inevitabilidade? É um reflexo de não ser efectivamente possível manter as soluções tradicionais, por falta de recursos humanos. O que a construção modular permite fazer é atingir o mesmo resultado, preferencialmente até com melhor qualidade, mas com muito menos mão de obra e, portanto, é uma questão pragmática. Para além da questão da sustentabilidade e emergência climática que, obviamente. tem também aqui um papel muito significativo. A única limitação neste momento é as empresas estarem preparadas para conseguir efectivamente fazer a construção modular e algumas estão a fazer um trabalho muito intenso e toda a cadeia obviamente que irá atrás, porque não tem outra solução. É preciso passar da excepção à prática corrente? Há países onde a prática da concessão modular já está implantada há bastante mais tempo e se formos, por exemplo, a Londres conseguimos encontrar concretizações suficientes para mostrar que, de facto, conjugadas a construção modular e construção em aço, há efectivamente concretizações que são comercialmente competitivas. Em Portugal eu diria que houve um despertar mais recente e temos neste momento algumas empresas que começam a encontrar aplicações que lhes permitem concretizar esta solução. As empresas portuguesas estão a investir significativamente e já estão a pôr no mercado soluções modulares num regime competitivo e esse reflexo será mais perceptível dentro de três ou quatro anos, onde não iremos precisar de apontar o dedo às excepções. IntErnacIonalIzação foI a chavE do crEscImEnto O peso dos mercados internacionais para o sector foi determinante neste processo? Foi e é avassalador e isso ficou bem patente no congresso. O que contribuiu para este sucesso foi haver uma aposta clara, a partir da crise de 2010/2011, nos mercados europeus abandonando as estratégias que privilegiavam os mercados de oportunidade de África e a experiência, falhada, do Brasil, mercados para onde inicialmente foram feitas as primeiras tentativas de internacionalização. As empresas acabaram por se virar para os mercados europeus com clientes que permitem planear a médio prazo e com maior exigência. Diria que neste momento as empresas nacionais já fornecem sem qualquer problema de qualidade em competição directa com empresas nos países da Europa Central e da Europa do Norte. Porquê? Porque trabalham num mercado exigente e fizeram o trajecto de conseguir dar resposta às exigências que esse mesmo mercado coloca. Esta curva de evolução das empresas está a mudar o sector? Se olharmos para os números macroeconómicos as provas estão lá: o contributo do sector para o produto interno bruto é de 2,6%, tem um peso de 3,34% nas exportações nacionais. Fazendo a compilação destas séries entre 2016 e 2022 houve um crescimento de 80% em volume de negócios, um crescimento nas exportações de 129% e o número de colaboradores do sector que atingiu em 2022 os 35 000 trabalhadores e não são mais por que não há. É um sector com uma vitalidade muito grande e um contribuinte líquido para para a economia portuguesa porque uma percentagem muito significativa é exportação. Como é que se comportou o sector em 2023? Só teremos os números mais para a frente, mas o que posso dizer neste momento é que é que não vai haver nenhum descalabro. Eu pessoalmente estou optimista porquê todos os factores de instabilidade a que assistimos, infelizmente, não surgiram só em 2023 e o sector tem vivido com instabilidade nos últimos anos. Espero que com o bom trabalho que as empresas têm feito 2023 tenha sido também positivo Como é que o Portugal Steel vai evoluir? Temos estado a fazer uma reflexão muito profunda sobre o que é que pretendemos fazer e há áreas onde as empresas nos estão a pedir, como associação, que tenhamos uma maior intervenção por exemplo ao nível dos recursos humanos tentando encontrar soluções que contribuam para o aumento dos recursos humanos qualificados no mercado. Estamos neste momento a montar um plano mais global para tentar encontrar soluções direccionadas que permitam dar resposta aos problemas do sector e, com isso, melhorar o seu desempenho e contribuição para a economia. A vertente de internacionalização do programa irá manter-se. Que mercados serão prioritários? No último programa, que acabou impactado pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, houve uma opção por mercados onde havia pouca presença portuguesa. Ainda não está fechado, mas agora queremos ir para mercados onde haja já alguma presença, porque o efeito multiplicativo que se consegue é maior e num curto prazo. Esta é a reflexão que estamos a fazer no sentido de pensar quais é que são os mercados para onde queremos ir. Iremos manter o Canadá, claramente mercados europeus, eventualmente o Médio Oriente, mas ainda não estão definidos. Quais são os principais mer-cados onde as empresas já estão? Diria que, saltando a Espanha, temos uma presença na França Bélgica, Holanda e Reino Unido. A Alemanha começa a ter também algum peso. Mas há um mercado interessante em que tem havido, não de uma forma generalizada, mas tem sido abordado por empresas específicas, porque é um mercado muito proteccionista e que obriga a investimentos locais, que é os EUA. Temos já um conjunto de empresas que fez o esforço de se instalar nos Estados Unidos e está a ser a ter sucesso nesse mercado. Pode dar exemplos? A Metalogalva é um caso de sucesso nos EUA, eles sáo especialista em torres de transmissão, de telecomunicações, etc, é um processo muito especializado e foi com esses produtos que eles abordaram, com sucesso, o mercado norte americano. 2024 vai ser um ano importante para a CMM e para o sector? É uma luta contínua. A trajectória tem sido positiva, mas os desafios são sempre diários. O Portugal Steel está bastante avançado na sua preparação e a ideia é começá-lo muito rapidamente. Há aqui uma mensagem clara que é a de conseguir mobilizar mais gente, melhorar a capacidade de comunicação à sociedade, sensibilizar. A associação tem aqui um papel importante aí temos um papel importante é tentar trazer as coisas para um nível de objectividade. c “Temos um sector da construção em Portugal onde predominam as soluções tradicionais, fundamentalmente executadas em situ e, portanto, com tempos longos, pouca valorização dos recursos humanos, do qual é dependente, com reflexos na qualidade. E a construção metálica sempre foi o contraponto. Porquê? Porque a pré-fabricação esteve sempre presente” “A grande eficiência que a impressão 3D traz permite optimizar os processos porque é um processo aditivo. Ganhamos uma eficiência enorme porque eu consigo produzir juntando só ao material que preciso estritamente para conseguir aquele resultado e essa é que é a grande vantagem. Este é um instrumento essencial para a concretização da construção modular” inovação é o que faz a indústria crescer a aposta em novos mercados A Metalogalva, do grupo VigentGroup, inaugurou em 2023 a sua primeira unidade produtiva nos EUA.com cerca de 1400 trabalhadores a empresa registou em 2022 um volume de negócios consolidado de 400 milhões de euros, estimando para 2023 uma facturação consolidada de 460 milhões de euros. A empresa especializada na engenharia e protecção de aço, inaugurou em Maio do ano passado a primeira fábrica nos EUA, em Memphis, no Estado do Tennesse. A nova fábrica dos EUA produz estruturas metálicas para a indústria fotovoltaica. A empresa fundada em 1971 é a mais antiga empresa do VigentGroup, reclamando a liderança nacional na área da engenharia e protecção de aço e apresentando-se como “um dos principais players europeus na produção de colunas de iluminação pública e de outras estruturas ligadas a áreas como a do transporte de energia, renováveis, telecomunicações, rodovias, ferrovias e galvanização a quente”. A empresa está actualmente presente cerca de 15 países “Os investimentos que temos vindo a realizar à escala internacional reflectem a ambição que caracteriza o nosso grupo, mas igualmente a consciência de que precisamos de apostar continuamente na inovação e na consolidação do nosso portefólio, de modo a assegurar uma resposta eficaz aos desafios do mercado e às exigências dos nossos clientes”, afirmou a propósito da abertura da fábrica no EUA Sérgio Silva, presidente executivo do VigentGroup. a inovação em forma de produto A aposta mais recente da portuguesa Perfisa dá pelo nome de Thermosteel e apresenta-se como “uma solução inovadora capaz de diminuir a condutibilidade térmica dos próprios perfis, através da adição de um padrão ajustável de fendas assimétricas, C s e U s, na sua alma. Estas fendas forçam o frio/calor a percorrer um percurso labiríntico de dissipação em vez de linear, aumentando consideravelmente as zonas de transferência térmica. Deste modo, consegue--se uma redução na condutividade térmica equivalente de até 10x por cada perfil empregue no sistema”, explica a empresa. Resultando na redução em 90% das pontes térmicas, sem necessidade de reforçar o isolamento. “A Perfisa tem já 30 anos. Temos vindo a fazer um grande investimento e um grande trabalho no desenvolvimento do LSF no mercado. Estamos a trabalhar no desenvolvimento deste novo produto desde 2018, que tem por base o uso do BIM e a digitalização do processo de construção. Para além de ter um sistema de encaixe mais facilitado, o novo sistema reduz as pontes térmicas, que era, se quiser, o ponto fraco do sistema LSF”, conta Gonçalo Martins. O administrador da Perfisa conta que o processo de desenvolvimento “obrigou-nos a repensar toda a lógica que está por detrás do sistema de construção em aço leve, mas creio que conseguimos ter o sistema mais avançado a nível europeu neste momento”, assegura. Para além do investimento no desenvolvimento em nova maquinaria, a empresa reforçou a sua capacidade de industrialização e de capacitação de recursos humanos qualificados para operar com o novo sistema. “Temos a nossa sede em São Pedro do Sul, o novo sistema está a ser produzido no nosso novo logístico em Albergaria-a-Velha, numa nova unidade com cerca de 2000 m2 inteiramente dedicada ao sistema Thermosteel”, refere Gonçalo Martins. o cluster português da construção modular Em Portugal o grupo DST está tomar a dianteira da construção modular com o projecto R2U Modular System (que se deve ler Ready to Use Modular System). O consórcio, liderado pelo grupo DST, envolve 48 entidades, 18 do tecido científico e académico e 30 empresas, envolve um investimento global de 177,5 milhões de euros, que serão aplicados no desenvolvimento de 92 novos produtos e serviços e permitirá a criação de 584 novos empregos, dos quais 50% serão de “alta qualificação”. Peça central do projecto é a construção de um Living Lab, com cerca de 4000 metros quadrados, uma espécie de protótipo que integrará componentes 2D e 3D à escala real onde serão testadas as soluções de construção modular desenvolvidas no âmbito deste novo cluster. Serão cerca de 80 as unidades modulares personalizadas para os quatro programas funcionais previstos: residências universitárias, apartamentos de um e dois quartos, alojamento em hotel, residências sénior e ambiente hospitalar. O investimento previsto apenas neste “laboratório vivo” está orçado em 7,4 milhões de euros, dos quais 4,2 milhões de euros serão da responsabilidade da DST e a sua construção arrancará no terceiro trimestre de 2024. Também na primeira metade do ano deverão avançar as duas unidades fabris previstas no projecto. Os novos produtos daqui resultantes irão gerar um volume de negócios de 21,7 milhões de euros até 2027, com 99,5% de compras com origem no mercado nacional. Manuela Sousa Guerreiro