DISTRIBUIÇÃO - PODERÁ PORTUGAL TER UMA GUERRA DE PREÇOS ENTRE SUPERMERCADOS E MARCAS?
2024-02-02 06:00:18

Em França, o Carrefour entrou em conflito com a Pepsi. Por cá, APED e Centromarca desdramatizam No início do ano passado, já em plena trajetória de desinflação, começava a popularizar-se o termo greedflation, que denota uma subida de preços devido à ganância (greed) de quem vende. As empresas do retalho e as marcas eram acusadas de aproveitar a alta generalizada dos preços para engordar as suas margens de lucro. As pressões de preços fizeram sentir-se em toda a cadeia, com todos a quererem garantir a melhor situação para si mesmos. É nessa diferença de objetivos que nasce o confronto entre marcas e retalhistas, com as segundas a acusarem as primeiras de aumentos de preços sem fundamento. A situação mais notória foi a da retalhista Carrefour, que suspendeu novos fornecimentos de produtos da Pepsi, em França, no início de janeiro, em protesto contra as propostas de aumentos de preços feitas pela multinacio nal norte-americana. Já em Portugal, tanto a grande distribuição como os fornecedores garantem que reina a concórdia. “Em Portugal, o ambiente entre fornecedores e retalhistas é positivo e toda a cadeia de valor está empenhada em que haja um bom ambiente de trabalho”, garante ao Expresso Gonçalo Lobo Xavier, diretor--geral da APED Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, afastando a possibilidade de vermos uma insígnia portuguesa replicar o que fez o Carrefour em França. Sem comentar o braço de ferro entre o retalhista francês e a multinacional norte-americana nem a nota colocada ao lado dos produtos da PepsiCo que ainda estão nas prateleiras dos supermercados Carrefour, a dizer “não iremos continuar a vender esta marca devido aos inaceitáveis aumentos de preços”, Gonçalo Lobo Xavier garante que “em Portugal não há tensões na cadeia de valor”. “O que temos é um esforço de todos, produtores, indústria e distribuição, para mitigar os aumentos de preços decorrentes da inflação. O quadro é de cooperação”, assume. Mas será mesmo assim? Uma ronda do Expresso pelas insígnias a operar em Portugal no sector da distribuição (o Carrefour não está presente no retalho alimentar nacional) mostra que a tendência é não responder ou evitar uma resposta concreta. A MC, dona do Continente e líder do retalho alimentar em Portugal, com uma quota próxima dos 25%, remete para a APED, enquanto o Lidl, com uma quota de 13%, apenas sublinha a importância da relação qualidade/preço. Já o grupo Jerónimo Martins, que detém o Pingo Doce e tem uma quota superior a 20%, não fecha a porta a uma posição na mesma linha do Carrefour. “Este caso em França traduz bem o esforço determinado e consistente que o sector do retalho alimentar faz para travar as pressões dos produtores/ fornecedores para aumentar os preços nas prateleiras. Na verdade, os retalhistas alimentares em geral assumem como sua missão utilizar o seu poder negocial para defender o melhor interesse dos consumidores”, diz fonte oficial do grupo. “Não sendo em Portugal o caso da PepsiCo, o Pingo Doce confirma que tem sentido um aumento generalizado dessa pressão (para subir preços) por parte das empresas multinacionais detentoras de grandes marcas de produtos de consumo”, refere a empresa. A Centromarca Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca opta por um discurso em linha com a APED, apesar de admitir que na Europa foram ocorrendo “outros casos de tensão”. “Este tipo de situações acontece com alguma frequência e revela um tipo de padrão negocial em que a cadeia de distribuição quer a marca mas não consegue o preço que quer e tenta criar um ónus de culpa sobre a marca”, afirma Pedro Pimentel, diretor--geral da associação. Guerra lá fora Em França, a negociação de preços entre os fornecedores e as retalhistas é feita numa janela específica, o que não acontece por cá. A última começou a 1 de dezembro, um mês mais cedo do que o habitual, graças a uma lei que visou refletir mais cedo os novos preços nas prateleiras. Na Alemanha, a cadeia de supermercados Netto colocou no final do ano passado etiquetas semelhantes às do Carrefour, alertando os consumidores para a diminuição das quantidades vendidas ao preço anterior. Também na Alemanha, a Edeka e a Rewe encetaram no ano passado uma guerra de preços com a Mars. E em 2022 a britânica Tesco suspendeu os fornecimentos de produtos da Kraft Heinz devido às subidas de preços, também classificando-as de “injustificáveis”. “Em Portugal, não nos parece que estejamos próximos de algo idêntico ao que aconteceu em França”, conclui Pedro Pimentel, da Centromarca. mmcardoso@expresso.impresa.pt Novo comparador de preços A plataforma de comparação de preços KuantoKusta lançou esta semana uma nova ferramenta, chamada Kabaz, dedicada à comparação das ofertas de produtos dos supermercados. O objetivo é identificar o supermercado onde uma lista de compras fica mais barata e otimizar a poupança dos consumidores se estes optarem por dividir as compras pelos supermercados onde os preços são mais baixos. Segundo a agência Lusa, o KuantoKusta investiu EUR500 mil ao longo dos últimos dois anos para desenvolver esta ferramenta. Uma simulação para uma lista de 30 produtos, através desta nova plataforma digital, resultou em faturas que vão dos EUR94 aos EUR123. Pingo Doce admite alguma pressão das multinacionais no que toca aos preços FOTO NUNO FOX MARGARIDA CARDOSO; PEDRO CARREIRA GARCIA