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ESPAÇO PÚBLICO - UM CARNAVAL TÃO CIVILIZADO QUE ATÉ VAI ÀS NAÇÕES UNIDAS

Público

2024-02-08 13:42:05

Em Público o N um ano em que o Carnaval lisboeta anda a braços com uma crise de sobrevivência, chega-nos de Loulé a notícia de que, ali, o tema forte do desfile serão os ODS. O resto não será descurado, pois por lá andarão também coisas da política nacional, dramas internacionais (Ucrânia-Rússia, (UcrâniaRússia,Israel-Palestina), as trapalhadas com o sempre adiado futuro aeroporto de Lisboa e o que mais se der à sátira e à folia do momento. Mas os ODS ganham, comparando com o resto: a interpretá-los estarão nada menos do que 600 figurantes e 17 carros alegóricos. É obra. Mas o que são esses ODS, para tamanho destaque merecerem? São os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas, que incluem tópicos como erradicar a pobreza e a fome, saúde e educação de qualidade, igualdade de género, água potável e saneamento, energias renováveis e acessíveis, trabalho digno e crescimento económico, redução das desigualdades, proteger a vida marinha e terrestre, paz, justiça e instituições eficazes, etc. Em suma, um mundo “perfeito” como ainda não vimos e, a atentar no rumo das coisas, não veremos tão cedo. E tudo por causa de uma invenção louletana mais do que centenária: o Carnaval “civilizado”. A história resume-se em poucas palavras. Sendo o Carnaval coisa antiga, e dada a excessos, Loulé não se diferenciava nele das demais localidades. No livro Carnaval “Civilizado” de Loulé, 1906-1976 (Ed. Câmara Municipal de Loulé, 2015), a investigadora Luísa Fernanda Guerreiro Martins conta que, “por todo o país, e nomeadamente no Algarve, o período do Entrudo permitia toda a sorte de manifestações agressivas”, que incluíam batalhas “de pastéis de nata, bisnagas, louça velha, ovos, farinha, tremoços, tubos de vidro por onde se sopravam milho e feijão, luvas e sacos com areia, laranjas, tangerinas, goma e toda uma gama de produtos menos próprios [ ]. Das janelas, postigos e portas das casas, atiravam-se à rua, ainda, púcaros e tachos de barro e alguidares, colheres de pau, paus de vassoura, para agredir os transeuntes e eliminar objectos velhos, tendo em vista a renovação, a limpeza, a expulsão do mal: das coisas e das almas”. Como, além de tudo isto, as “brincadeiras” incluíam “bofetões”, “sopapos”, “pauladas, pedradas e até uma navalhada”, crescia o descontentamento. Até que, em 1905, ao voltar de uma viagem a Antuérpia (onde, escreveu em 1956 o jornal A Voz de Loulé, reproduzido no citado livro, “fizera um estágio de dois anos, na aprendizagem de línguas e negócios de exportação”), o cidadão José da Costa Guerreiro vinha entusiasmado com algo que ali vira, fazendo disso assunto de conversa no (já extinto) Café Barbosinha, onde se reunia a juventude da época. E o que Guerreiro contou, ao relatar “as maravilhosas festas” de Carnaval a que assistira na Bélgica, animou toda a gente, em particular o dono do café, o senhor Ventura de Sousa Barbosa. Ainda segundo A Voz de Loulé, Guerreiro “demonstrou como tudo era diferente do que se fazia, do género dos carros ornamentados, da elegância e distinção que ali se punha na celebração de tais festividades”. Terá sido então que Ventura (nesse tempo os Venturas eram outros) desafiou, sonhador: “Porque não fazer em Loulé um Carnaval civilizado? Porque não havia Loulé de organizar uma realização que desse brado no Algarve?” Parte lenda, parte realidade (o livro citado explica-o bem), assim nasceu em 1906 o louletano Carnaval “civilizado”, que fez história e atravessou décadas. Mas voltemos às celebrações deste ano e à evocação carnavalesca dos desejos dos ODS da ONU. Se visitarem, via Internet, o Centro Regional de Informação para a Europa Ocidental das Nações Unidas, encontrarão aí os “17 Objectivos para transformar o nosso mundo”, compactados numa sigla: ODS (Objectivos de Desenvolvimento Sustentável). À direita, verão dois rectângulos azuis: ODS Portugal e ODS Brasil. Se carregarem no segundo, terão a versão brasileira dos 17 com muitas notícias agregadas e alguns dos objectivos redefinidos; por exemplo, em vez de “erradicar a fome” passa a estar “fome zero e agricultura sustentável”. Mas se carregarem no primeiro, aparecerá no ecrã a seguinte mensagem: “404 Categoria não encontrada. Entrada”. Ora indo por esta “Entrada”, vamos parar a um sítio, meio em inglês, meio em português, intitulado Global Compact Network Portugal, dedicado à aplicação dos ODS “na gestão e nas operações das empresas, repercutindo o seu impacto na cadeia de valor”. Nada mais que isto. Conclusão: os ODS portugueses ainda não chegaram em condições ao espaço da ONU, mas pelo menos já desfilam nas folias carnavalescas. Valha-nos Loulé e o seu Carnaval “civilizado”. Jornalista. Escreve à quinta-feira Os ODS portugueses não chegaram em condições ao espaço da ONU, mas pelo menos já desfilam nas folias carnavalescas Nuno Pacheco