EFACEC VAI FECHAR ÁREAS DE NEGÓCIO
2024-03-22 06:31:06

Novo dono dispensa pessoal na Efacec Reequilíbrio da operação com ajuste de custos e saída de trabalhadores deverá acontecer este ano A Efacec continua a emagrecer. O fundo alemão Mutares, que comprou a empresa de engenharia portuguesa, começou a fazer a lista dos trabalhadores a dispensar logo em novembro, quando entrou. Foi no final de fevereiro que o grosso das saídas, através de rescisões por mútuo acordo, aconteceu. E já saíram algumas dezenas de trabalhadores desde que a empresa foi privatizada, há cinco meses. Quantas não foi possível contabilizar, apesar de a pergunta ter sido feita à Efacec, ao Ministério da Economia (que deu a cara pela venda) e à Parpública, que conduziu o processo e assinou o acordo de venda com a Mutares. A Efacec reconhece que está a haver cortes no quadro de trabalhadores e justifica-o com a necessidade de ajustar os custos à nova dimensão da empresa para equilibrar a operação. “Para alcançar os nossos objetivos é imperativo otimizar a estrutura de custos, num processo que passará, essencialmente, por alocar os recursos financeiros e humanos onde eles são verdadeiramente necessários. Em projetos relevantes e rentáveis em mercados de baixo risco. Mas também por um ajustamento da organização, incluindo o número de efetivos, às necessidades que o negócio exigir a cada momento”, avança fonte oficial da empresa. Assumindo que “o reequilíbrio deverá acontecer este ano, acentuadamente no primeiro semestre”, a Efacec diz que 2024 será um exercício de “forte recuperação”. Foram convidados a sair, sabe o Expresso, trabalhadores acima dos 50 anos, embora haja alguns mais novos. Está a haver também a dispensa de pessoas que trabalham nas filiais da Efacec em operações fora do país. A maioria dos efetivos sai com um acordo de rescisão, mas há também alguns quadros a sair pelo seu próprio pé. Aliás, o “Público” noticiou a 12 de fevereiro que a Efacec perdeu 23% dos licenciados e 45% dos doutorados e mestres desde a nacio nalização, em meados de 2020, e viu encolher em 23% o quadro de funcionários, ao perder 587 trabalhadores. Negócios caíram 60%, trabalhadores, 30% A Efacec dá números. “No perío do de 2020 a 2024 a empresa reduziu o volume de negócios em 60% e o número de efetivos em 30%. Até voltarmos ao equilíbrio sustentável há ainda um ajustamento que resultará do ritmo de recuperação da empresa e da possibilidade real da realocação de pessoas para áreas de negócio definidas como prioritárias, que serão também as de maior crescimento”, explica fonte oficial. A sangria de quadros da Efacec, como o Expresso tem noticiado, já se arrasta há algum tempo (uns foram para a concorrência, outros para a EDP ou a Siemens e houve quem criasse a sua própria empresa), mas a nova onda de saídas, dada a dimensão, criou alguma perplexidade no sector. É que António Costa Silva, o ministro da Economia, tinha assegurado no Parlamento, a 6 de novembro, que o acordo com a Mutares previa a manutenção dos cerca de dois mil postos de trabalho. “Nunca aceitámos o desmembramento da Efacec. Houve propostas que previam a criação de uma Efacec boa e uma Efacec má, que rejeitámos liminarmente. A Mutares deu garantias de que vai preservar a força de trabalho e o centro de decisão em Portugal”, resumiu. A empresa tem sido um dossiê conturbado. Costa Silva admitiu, numa entrevista ao Expresso, a 11 de janeiro, que a privatização da Efacec foi o dossiê mais difícil que enfrentou nos quase dois anos como ministro da Economia. Lamentou que o processo de venda, concluído três anos após a nacionalização, se tenha arrastado e tenha obrigado o Estado a injetar EUR200 milhões para garantir a operacionalidade da empresa e outro tanto para assegurar a venda ao fundo alemão Mutares por EUR15 milhões. O fundo está ao leme da Efacec desde novembro, num processo que está a ser acompanhado pelo Banco Português de Fomento. A Mutares tem tido uma equipa na empresa a acompanhar os antigos diretores, mas até ao momento não se traduziu em grandes mudanças de organização e gestão, que, à exceção do administrador financeiro, se mantém praticamente a mesma, afirmam fontes conhecedoras da operação. Há um atraso no plano de reestruturação, onde se incluiriam melhorias de processos e de organização de gestão. A Parpública desdramatiza a inexistência de resultados visíveis. “A concretização de venda ocorreu há menos de cinco meses, sendo necessário que o comprador disponha do tempo necessário para concretizar as mudanças e o desenvolvimento que se propôs atingir”, afirma a empresa estatal. E apazigua receios dizendo que o acordo celebrado estabelece a impossibilidade de venda nos primeiros três anos por parte da Mutares e “obrigações de reporte de informação periódica à Parpública”. O Estado não tem ninguém na administração, apesar da injeção de capital que fez na empresa. “A operação de reprivatização da Efacec está balizada e respeita os princípios previstos no funcionamento da União Europeia, designadamente nas matérias de concorrência e de auxílios de Estado, que limitam decisivamente a intervenção do Estado”, justifica a Parpública, dizendo que a empresa é detida integralmente pela Mutares. E acrescenta: “A equipa de gestão da empresa é responsável pela definição e implementação da estratégia de negócios [...], com importantes desafios competitivos a vencer.” Perder fôlego nos negócios inovadores Fontes conhecedoras avançam que a empresa perdeu fôlego nos negócios da mobilidade elétrica e automação, que atualmente estão reduzidos ao mínimo. É que saíram as pessoas que tinham o conhecimento, e nestas áreas a componente de software é crítica e sem ela o negócio pára. O único negócio que se mantém ativo e com visibilidade é o dos transformadores, dizem as mesmas fontes. A Efacec continua a ser dominante nesta área e os trabalhadores, mesmo que queiram sair, não têm alternativas. Mas até aqui corre a informação de que irá fechar a secção de transformadores a seco (arrefecem sem óleo) para edifícios públicos. “Começamos a entrar numa fase que já temíamos há muito. Entrou dinheiro, sim, há material para trabalhar, há encomendas, mas começa a faltar mão de obra, e como é quem tem mais experiência a sair, sem passar o testemunho a novos que venham a entrar, há perda líquida de know-how”, diz um trabalhador. “A empresa foi vendida, mas o ambiente continua a ser de tensão, ansiedade e receio pelo futuro. O plano de reestruturação tarda e todos receiam que signifique mais despedimentos”, comenta Miguel Ângelo Pinto, coordenador do SITE Norte Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Actividades do Ambiente do Norte. acampos@expresso.impresa.pt Efacec está a dispensar pessoal desde fevereiro A sangria de quadros na Efacec arrasta-se desde a nacionalização, mas nova onda de saídas, na ordem das dezenas, cria alguma perplexidade, uma vez que o ministro da Economia assegurou que o acordo de venda à alemã Mutares previa a manutenção dos postos de trabalho. E9 Empresa reduz o número de trabalhadores para ajustar operação. Mutares entrou em novembro, mas veem-se poucas mudanças A Mutares, que comprou a Efacec, apresentou o seu plano de reestruturação. Em cima da mesa está a possibilidade de um despedimento coletivo, mas a empresa já está a dispensar pessoal desde fevereiro. E9 DE ISABEL DOS SANTOS À MUTARES 2015 Isabel dos Santos assume o controlo da Efacec através da Winterfell Industries, com financiamento de EUR195 milhões de um consórcio de bancos maioritariamente portugueses. 2019 O Tribunal Provincial de Luanda decretou o arresto preventivo das contas bancárias pessoais de Isabel dos Santos. A Efacec fecha o ano com vendas e encomendas de EUR355 milhões. 2020 Na sequência do Luanda Leaks e do arresto de participações, a investidora fica sem a sua posição de 71,73%, que o Governo português nacionaliza. Os cinco maiores bancos credores (CGD, BCP, Novo Banco, BPI e Banco Montepio) avançam com um financiamento de EUR70 milhões. É publicado o caderno de encargos da reprivatização. 2021 O então ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, abre novo concurso de reprivatização. A entrega das propostas derrapa e dos cinco candidatos escolhidos só a DST entrega proposta vinculativa de compra, exigindo ao Governo a cobertura de EUR300 milhões para dívidas e indemnizações a clientes. 2022 A venda da Efacec à DST aborta e começa novo processo de reprivatização. 2023 O ministro da Economia, António Costa Silva, fecha um acordo com o fundo alemão Mutares para vender uma empresa em falência técnica, com receitas de EUR160,9 milhões, uma dívida de EUR267,3 milhões e capitais próprios negativos de EUR52,8 milhões. 2024 A Efacec aguarda o plano de reestruturação da Mutares ainda sob o comando de Ângelo Ramalho, à frente da empresa desde o tempo de Isabel dos Santos. Há cinco meses na Efacec, o fundo Mutares tem estado a negociar a saída de trabalhadores para ajustar a empresa à nova realidade FOTO RUI DUARTE SILVA Parpública dá um voto de confiança à Mutares dizendo que é preciso dar tempo para mudanças A EFACEC EM NÚMEROS 60% foi a percentagem de redução do volume de negócios da Efacec entre 2020 e 2024, a fase da nacionalização. No mesmo período, o número de trabalhadores recuou 30% 355 milhões de euros foi a faturação da Efacec em 2019. As encomendas em carteira igualavam este valor 200 milhões de euros foi a injeção da Parpública para pagar salários durante 20 meses, até à entrada da Mutares 160 milhões de euros foi a faturação em 2022, ano em que as encomendas ficaram nos EUR138,9 milhões e a dívida atingiu EUR267,3 milhões 15 milhões de euros foi o investimento feito pela Mutares ANABELA CAMPOS; MARGARIDA CARDOSO