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ENTRE PALAVRAS E IMAGENS: UM EXERCÍCIO DE CURADORIA DE NUNO FARIA

Jornal de Notícias Online

2024-04-01 23:57:03

"O sentido da vida é só cantar: orfismos, urdiduras, sortilégios, lances de dados" está patente na zet gallery até 27 de abril. Nuno Faria (PT, 1971) é uma das destacadas vozes da curadoria em Portugal, desenvolvendo um trabalho nas margens das abordagens comerciais e que tem privilegiado as relações entre arte e transcendência, a palavra e a imagem, ligando artistas, coleções e artefactos provenientes de outras dimensões da criação humana. Reconhecemo-lo, talvez, pelo trabalho de quase uma década na direção do Centro Internacional de Artes José de Guimarães, em Guimarães, tendo depois tido curta passagem pelo Museu do Porto, projeto da Câmara Municipal do Porto. É, também, docente da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha e, recentemente, foi escolhido para a direção do Museu da Fundação Arpad Szenes-Vieira, em Lisboa. Mantendo atividade como curador independente, Nuno Faria assina, por estes dias, a curadoria da exposição "O sentido da vida é só cantar: orfismos, urdiduras, sortilégios, lances de dados", patente na zet gallery, em Braga, até 27 de abril. A exposição reúne obras plásticas de autoras do campo da escrita, tais como Filipa Leal (PT, 1979), Mafalda Veiga (PT, 1965) e Marta Bernardes (PT, 1983); artistas que tocam a dimensão do têxtil como forma plástica de uma escrita de memórias, como são as de Alexandra de Pinho (PT, 1976) e de Zélia Mendonça (BR, 1957); e ainda Jorge Feijão (PT, 1971), que aborda o desenho como pensamento e construção de uma espécie de cartografia de pertenças e semióticas pessoais. A exposição nasce da vontade da zet gallery de apresentar, de forma inédita, um conjunto de colagens de palavras feitas poemas, que Filipa Leal e Mafalda Veiga desenvolveram durante a pandemia, inspiradas pelo Surrealismo e que as transportam para a experimentação plástica e para o desenho das formas e das cores, ainda que as formas sejam letras e as cores sejam as dos jornais e revistas que se acumulam em casa, com preguiça de ecoponto ou crença no famoso "nunca se sabe se pode fazer falta". Automatismo psíquico, associação livre de imagens e/ou objetos e a liberdade para experimentar, procuram encadear estas colagens. A partir delas nasce, pela voz de Mafalda Veiga, uma homenagem a Mário Cesariny (PT, 1923-2006), em tempo de centenário do seu nascimento. Depois da publicação do livro "A rapariga que não gosta de brincar" (2022), de Filipa Leal, onde se reproduzem as mesmas, era preciso expor as obras e aproveitar a ocasião para celebrar os 100 anos do Surrealismo, que nasce com o Manifesto de André Breton (FR, 1896-1966), publicado em 1924. O título da exposição parte de uma antologia de poemas de António Barahona (PT, 1939), um dos maiores poetas da língua portuguesa e viaja pelas pesquisas empreendidas pelo poeta Stéphane Mallarmé (FR, 1842-1898), nas últimas décadas do século XIX, em torno da potência/papel do acaso no processo criativo e da implosão sonora e visual da palavra impressa. As propostas de Alexandra de Pinho traziam, a título de curiosidade, a referência a Stéphane Mallarmé (FR, 1842-1898), considerando que a artista tem vindo a interessar-se pela marginália, fazendo recolhas de cartas, cadernos, blocos de notas, que usa como referenciais imagéticos para a criação de desenhos onde privilegia o anonimato das estórias e valoriza o desenho das letras, a caligrafia. Sobre tela ou papel, a artista mimetiza impressões do que vê, sendo admiráveis as suas obras com as máquinas de escrever ou as caixas de correio à volta do mundo que vai descobrindo. Neste sentido, esta exposição reúne um conjunto de artistas cujos trabalhos se inscrevem numa tradição da oralidade, com abordagens diferentes à ideia de escrita, comunicação oral e memória. O resultado é um projeto de curadoria ambicioso e que convida, mais do que à contemplação, à leitura das palavras e do espaço, à interação com os objetos, sendo um desafio a um regresso a um tempo lento, por um lado, e a uma urgência de coro coletivo que devolva sentido de comunidade aos nossos dias. A organização desta exposição coincide com a comemoração de três efemérides: 100 anos do Manifesto Surrealista, 50 anos de Revolução dos Cravos e os 10 anos da zet gallery, sendo estes motivos redobrados para uma visita. Exposição convida ao regresso a um tempo lento Helena Mendes Pereira