AMARGURAS DO CACAU PODEM AINDA NÃO TER CHEGADO AO FIM
2024-04-07 14:13:05

A crise climática tem estado no centro de uma série de fatores que estão a penalizar a produção da matéria-prima agrícola. Os preços nunca estiveram tão altos e, com os inventários a cair, as perspetivas são pouco otimistas. O cacau foi a matéria-prima com melhor desempenho em 2023, tendo valorizado 70% em Londres e 61% nos Estados Unidos. Em ambos os casos, atingiram novos máximos históricos este ano, devido a perturbações do lado da produção. Há cada vez mais dúvidas sobre até onde pode subir o preço. "As preocupações com a oferta da África Ocidental, especificamente na Costa do Marfim e no Gana, levaram o mercado a subir", explica Warren Patterson, líder de estratégia de matérias-primas do ING. No final de março, os contratos de futuros para entrega em maio negociaram pela primeira vez na casa dos 10.000 dólares - ficando acima, por exemplo, do cobre, um metal industrial que funciona como indicador avançado da saúde da economia. No acumulado do ano, as cotações já mais do que duplicam. 70%África ocidental A região da África Ocidental é responsável pela produção de 70% do cacau mundial. A contribuir para este cenário estão vários fatores: as difíceis condições meteorológicas e as doenças que atacam os cacaueiros e têm estado a afetar as colheitas na África Ocidental que produz cerca de 70% do cacau mundial. Os dois maiores produtores mundiais, Costa do Marfim e Gana, foram recentemente atingidos por uma conjugação de fortes chuvas, alternadas com tempo seco, e doenças. A doença da vagem preta propagou-se a muitos cacaueiros destes dois países, afetando assim as colheitas, segundo a Organização Internacional do Cacau. Além disso, as más condições das estradas, num contexto de muita chuva, tornaram ainda mais difícil fazer chegar os grãos disponíveis aos portos. Em simultâneo, as exportações da Nigéria, o quinto maior produtor mundial, caíram 15% em relação ao ano anterior. Com esta conjugação de fatores, os inventários globais continuam a diminuir, embora permaneçam "relativamente elevados" em comparação com os níveis de 2020, ou com os níveis extremamente baixos que foram registados em 2004, segundo indicam os analistas da Xtb. "Deste modo, não parecem existir problemas do lado da oferta, mas sim um risco de, num futuro próximo, haver uma quebra forte de inventários", advertem. "Assim, as expectativas futuras têm impulsionado os preços do cacau, que já subiu mais de 200% desde 2020". O mercado prepara-se para um terceiro défice global sucessivo na campanha agrícola de 2023/24. "A questão fundamental, e também a mais difícil, é saber até que ponto os preços do cacau podem subir. Têm de atingir níveis em que se comece a assistir a uma destruição significativa da procura. Já estamos a assistir a alguma dessa destruição, mas claramente não é suficiente para trazer o mercado de volta ao equilíbrio e aliviar as preocupações com o aperto", sublinha Warren Patterson. 130%Valorização O cacau negociado nos Estados Unidos já disparou quase 130% este ano. A tendência altista atraiu participantes para o mercado, com o interesse agregado no cacau de Londres a subir acima dos 400 mil lotes em dezembro, de acordo com dados do ING. Desde então, aliviou, mas manteve-se acima da média de cerca de 270 mil lotes registada entre 2018 e 2022 . Apesar disso, olhando o capital investido, Warren Patterson indica que não houve um aumento "significativo" na especulação. Em vez disso, a tendência "parece ter sido conduzida por operadores comerciais", com um reforço das posições longas. "Se se trata de um aperto intencional ou não, não é tão claro. Se for, não seria a primeira vez que o mercado do cacau passa por uma situação deste género. Embora a escassez de oferta possa estar a levar a que alguns fornecedores/comerciantes precisem de encontrar fontes de abastecimento alternativas para cumprir as obrigações contratuais, a incerteza quanto à subida dos preços pode também estar a levar a que alguns compradores físicos se apressem a fixar os preços", remata. Chocolates já são menos doces na hora da compra Da tradicional tablete aos cereais e bolachas até ao leite achocolatado, a escalada dos preços do cacau já chegou às prateleiras. "É inevitável", diz o diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), atestando que "os retalhistas já tiveram de refletir a subida devido à escassez de matéria-prima". Em que medida? Não se sabe. "É difícil ter uma visão global com dados agregados", responde Gonçalo Lobo Xavier, apontando que há uma série de fatores na equação, como o tipo de produto, a quantidade de cacau que contém ou até diferenças ao nível de fornecedores. 1,45Tablete O preço médio de tablete de chocolate subiu de 1,30 para 1,45 euros, diz APED. Certo é que "se tem assistido a aumentos". Aliás, confirma, esta Páscoa as amêndoas de chocolate foram menos doces para a carteira do que há um ano. Para o diretor-geral da APED, que representa 60 empresas do retalho alimentar, há, porém, um número que dá uma noção do impacto: "o preço médio de uma tablete aumentou de 1,30 para 1,45 euros num ano". E, dadas as perdas de produção de cacau estimadas a nível mundial, "não há perspetivas de uma baixa de preços", o que ameaça "derreter" vendas. "Estamos apreensivos", diz, admitindo "consequências no consumo". Uma pesquisa nas prateleiras a oito produtos - de várias marcas, tipologias e formatos - feita para o Negócios pela Kabaz.pt revela, no entanto, um fenómeno distinto na evolução mensal. Em concreto, "uma significativa queda nos preços de uma variedade de produtos", resume Pedro Pimenta, "head of business"da plataforma do comparador de preços KuantoKusta direcionada para os supermercados. "É uma boa notícia para os consumidores, mas devem continuar atentos a flutuações ao longo do ano". A 1 de abril, o preço médio de seis dos oito itens descia face a 1 de janeiro (entre 0,01 e 0,82 euros). Com efeito, da leitura dos dados parece resultar uma espécie de correção do mercado, porque, comparando 1 de fevereiro com 1 de janeiro, também sete dos oito itens tinham aumentado (entre 0,01 e 2,54 euros). Março foi excluído pela influência da Páscoa, época alta para o chocolate e tipicamente marcada por campanhas promocionais. Leonor Mateus Ferreira leonorferreira@negocios.pt | Carla Pedro cpedro@negocios.pt | Diana do Mar dianamar@negocios.pt | José Tiny - Ilustração 13:00