GRAFFITI: ARTE, ATIVISMO OU VANDALISMO?
2024-04-09 07:01:05

cada vez mais as cidades apostam em quarteirões onde se pode observar paredes completas com arte urbana Graffiti: Arte, ativismo ou vandalismo? Na cidade de Braga, muitos são os graffitis que encontramos espalhados pelas paredes. Mais ou menos coloridos, maiores ou menos, há trabalhos para todos os gostos - ou mesmo contra alguns. Mas o graffiti é visto atualmente como arte, ativismo ou vandalismo? Graffiti são, segundo a definição legal, «desenhos, pinturas ou inscrições, designadamente de palavras, frases, símbolos ou códigos, ainda que tenham caráter artístico, decorativo, informativo, ou outro, efetuados através da utilização de técnicas de pintura, perfuração, gravação ou quaisquer outras que permitam, de uma forma duradoura, a sua conservação e visualização por terceiros» na via pública. O graffiter bracarense Bruno Guedes, artisticamente conhecido como Bruno Guedes 253, refere que há uma diferença distinta entre o que se pode considerar graffiti e a arte urbana. «Cada vez mais as pessoas separam um bocadinho o graffiti da arte urbana, independentemente de a arte urbana ser toda a que se desenvolve num contexto urbano, eu noto que, mesmo os artistas que fazem graffiti, procuram sempre separar um bocadinho as águas, como eles costumam dizer», afirma o Writer. «O graffiti tem normalmente uma forma muito mais, não diria radical, mas agressiva, talvez. Não é uma coisa tão bonita ou apelativa, e isto é sempre relativo à opinião das pessoas, mas tende muito mais para os tags, para o lettering, que são as letras, como as pessoas costumam dizer. Portanto, o trabalho é um bocadinho mais agressivo, tende a ser um bocadinho mais para o brutalismo, digamos assim. A arte urbana já é algo que procura inserir-se no meio, respeitar um bocado a dinâmica visual de onde se vai realizar o trabalho», explica Bruno Guedes. O artista bracarense acrescenta ainda que um traço muito caraterístico do graffiti, que o distingue de outros tipos de arte urbana, é a questão de tentar ser livre e mais espontânea na escolha dos espaços. «As pessoas que gostam de praticar o graffiti gostam de ser livres, digamos assim. Ou seja, se lhes apetece escolher um sítio e fazer ali um registo, eles vão fazer, não vão estar a pedir a ninguém e sentem que é da sua própria liberdade a exprimirem-se», diz Bruno Guedes, antes de acrescentar: «O graffiti é uma coisa muito mais espontânea. A pessoa quer, sente e voa e dá ali asas à imaginação». Dois exemplos dado pelo bracarense de um espaço que mistura arte urbana e graffiti é a Rua do Raio e a Avenida Doutor Viriato Amaral Nunes, nos muros que envolvem a área do Parque da Ponte e Estádio 1.º de Maio. «Registos como o que, por exemplo, temos na Rua do Raio, em frente à zet gallery, são registos que eu já pedia às pessoas que falassem em arte urbana, como na escola que tem ali perto e como os trabalhos que eu fiz com o Festival de Arte Urbana junto da Ponte São João». Em relação a este último projeto, Bruno Guedes comenta que nestes mu-ros existe registos de arte urbana e de graffiti, os mencionados “lettering”. Já a vereadora com os pelouros da Gestão e Conservação de Equipamentos Municipais e Gestão e Conservação de Espaço Público da Câmara Municipal de Braga, Olga Pereira, defende que o que distingue efetivamente um trabalho artístico de graffiti de um ato de vandalismo é exatamente a autorização e regulamentação dos espaços em que o mesmo pode ser realizado. «[A Câmara de Braga vê o graffiti] com muito bons olhos, desde que seja autorizado e não possa ser considerado vandalismo. Há muitas pessoas que, por verem qualquer forma, em qualquer local e, às vezes, em violação da propriedade privada, não colhe muita simpatia por parte de muitos munícipes», explicita a responsável. «É encontrar espaços onde essa manifestação possa ter lugar de forma natural e, portanto, eu diria que é mesmo isso, é a regulação e é encontrarmos espaços que enriqueçam a nossa cidade em vez de poderem ser considerados como uma agressão ao espaço público», acrescenta. Como exemplo de uma boa aplicação da arte do graffiti, Olga Pereira destaca o FENDA , Festival de Arte Urbana. O festival surgiu em 2021 como um projeto que envolve música e artes visuais. Inicialmente em formato bianual e agora anual, a iniciativa tem vindo a alterar as cores de vários espaços emblemáticos de Braga, com o objetivo de lhes dar uma nova vida. A Escola Secundária Carlos Amarante, o Edifício do Castelo, o Campo das Carvalheiras, o Centro Comercial Santa Bárbara, a Associação Creche de Braga, o Largo Barão S. Martinho, o Mercado Municipal e o Instituto D. João Cândido de Novais e Sousa são alguns locais onde podem ser apreciadas estas pinturas, desenvolvidas por artistas locais, nacionais e internacionais. «Vemos com muito bons olhos este enquadramento regulado e em que temos artistas convidados, muitas vezes locais e internacionais, a fazerem a sua manifestação de arte em espaço público à vista de todos e que nos permite a todos usufruir e esbarrar em paredes fantásticas», sublinha a vereadora da Câmara de Braga, que defende assim que «arte pública pode ser uma arte para todos, com todos, um exemplo de cosmopolitismo, de inovação e de juventude que refresca as nossas cidades e que lhes dá até, inclusivamente, um novo atrativo turístico». A legislação portuguesa prevê a aplicação de sanções e coimas à prática não regulamentada de graffiti no espaço público. A Lei n.o 61/2013 de 23 de agosto refere que «fora dos casos permitidos, e quando não for aplicável sanção mais grave por força de outra disposição legal, a realização de afixação, grafito [graffiti] e ou picotagem» pode constituir uma contraordenação que pode ir de leve a muito grave, de acordo com o caso em questão. Bruno Guedes confronta que o que falta realmente em Portugal e também em Braga, na sua medida, é de paredes e locais legais para fazer graffiti. «Sinto que em Braga precisamos umas paredes legais. Seria interessante, mesmo os jovens na escola. Hoje em dia quem é que não gosta de um graffiti ou da arte urbana? Acho que seria uma boa forma também de a cidade tornar-se um bocadinho mais colorida, até pelo simples facto de que hoje em dia as cidades são tão cinzentas. Seria apelativo», adianta. O artista acredita ainda que, nos últimos dez anos o graffiti tem diminuído, também motivado por esta falta de espaços: «O graffiti, digamos, não tem tido as mesmas oportunidades e noto que, mesmo em Braga, certos Writers já se sentem um bocado cansados de estar à espera na oportunidades». Esta queixa é refutada pela vereadora Olga Pereira, que reforça que existe na cidade «uma série de espaços interessantes onde podemos apreciar os resultados dos vários projetos», pelo que «essa queixa não colhe nos espaços da cidade e do concelho». Para Bruno Guedes, é «fácil» identificar o que é vandalismo, em contraste com aquilo que é arte num graffiti. «Aquelas mensagens pouco dadas ao pensamento e, muitas vezes até, por incrível que pareça, muitas vezes aparecem associadas a, por exemplo, o “Amo-te, Maria”, um rapaz que se apaixonou por alguém e escreveu ali ou, por exemplo, o que acontecia no ringue de Santa Tecla, antes de nós fazermos a intervenção ali, onde existia monte de mensagens que eram ridículas, sobre coisas que não faziam qualquer sentido. Isso para mim é vandalismo», comenta o Writer. Quanto à questão do “lettering”, o artista explica existir «uma questão de territorial». «[Se] o artista é da zona de Real, ou do Fujacal, nós notamos que tem ali certos registos dele, e nota-se um ali uma dinâmica de território». Já quando o graffiti está associado a uma imagem, como acontece, por exemplo, no Parque Radical de Maximinos, Bruno Guedes defende que «sem dúvida é arte». «Nota-se que existe ali um explorar da veia artística por parte do graffiter», acrescenta o artista bracarense. BRAGA P.08-09 O graffiti é uma coisa muito mais espontânea. A pessoa quer, sente, voa e dá ali asas à imaginação. O graffiti tem normalmente uma forma muito mais agressiva. É impossível andar pela cidade de Braga sem esbarrar com algum graffiti nas paredes O graffiti não tem tido as mesmas oportunidades e certos Writers já se sentem cansados de estar à espera de oportunidades. Arte pública pode ser para todos, com todos, um exemplo de cosmopolitismo, de inovação e juventude que refresca as nossas cidades. Graffitis espalhados pelas ruas da cidade de Braga (Polidesportivo de Santa Tecla, Avenida Central e Rua Pêro Magalhães Gondavo) DIANA CARVALHO