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O PASSADO DE ANGOLA AINDA ESTÁ EM PORTUGAL E DÉLIO JASSE QUER MOSTRÁ-LO

Público Online

2024-04-14 17:20:07

Inaugura-se este sábado uma exposição que nos revisita e ao nosso passado por meio de imagens fotográficas pensadas enquanto objectos. Para ver no Pavilhão Branco das Galerias Municipais de Lisboa. As Colónias Vão Ser Países não é a primeira exposição em Lisboa do artista angolano Délio Jasse (Luanda, 1980), mas o visitante , que pode ser português, branco e europeu, mas não só , descobrirá a sua luminosa (e não menos dolorosa) oportunidade. Feita de sons e imagens, com diferentes materiais e técnicas, mostrar-lhe-á objectos onde poderá encontrar um olhar (o seu?): o do europeu sobre o outro africano. Sejamos mais precisos: o olhar do português colonizador , opressor, dominador, paternalista, violento , sobre o colonizado, neste caso, o angolano, representado em homens e mulheres. É atarefado e bem-disposto que Délio Jasse nos saúda e recebe. Vai levar-nos pela exposição que este sábado abrirá as suas portas ao público. Indiferente ao burburinho da montagem, começa por fazer notar que a maioria dos trabalhos nunca foram vistos entre nós e sugere que comecemos por duas esculturas, que replicam, em grandes dimensões, dois carimbos , num podemos ler a palavra Liquidado, no outro, Cópia. “Comprei os carimbos na Feira de Ladra [Lisboa], com o seu tamanho original”, revela. “O carimbo é um objecto que autoriza ou legaliza a nossa existência, determina aquilo que somos. Sem a sua marca, podemos gritar ou chorar que ninguém nos ouvirá.” Ao nosso lado, enquanto observa as esculturas, Jasse confessa-nos duas experiências: a da espera pelo documento que lhe viria a atribuir (pela burocracia) a cidadania portuguesa; e o limbo que durante sete anos teve de suportar. Avançamos pela exposição e tropeçamos em imagens, algumas ainda encaixotadas, outras já dispostas nas paredes. “São todas imagens de arquivo. Muitas foram encontradas em jornais, em álbuns de família, [abandonados na Feira da Ladra], outras encontrei-as no Arquivo da Diamang [companhia de Diamantes de Angola] que pode ser consultado na Universidade do Minho.” Na parede encontra-se um conjunto de fotografias tipo passe. Interpelam-nos. O artista diz-nos que as intervencionou com folhas de ouro. Não podemos ver a cara daqueles indivíduos (todos, presumimos, são homens). Sobre elas estão carimbos (da PIDE, do Estado Novo), dedicatórias (que as pessoas deixavam nas costas das fotografias), marcas de dedos. São mais do que tão-somente fotografias. São , escreve Marta Jecu, curadora de As Colónias Vão Ser Países , presenças materiais, objectos. Tornados anónimos, perderam, pela intervenção artística, a sua narrativa individual. Em troca, a compensar semelhante perda, vêm conjurar, quais fantasmas, a nossa memória colectiva. “Não contes à mãe” “Quero provocar, mostrar uma nova história. Há passados que continuam mal resolvidos, não é? E o arquivo para essas histórias é quase inesgotável.” Na instalação que construiu a partir de slides e reproduções de aerogramas (cartas enviadas via correio aéreo pelos soldados portugueses para as suas famílias), conta-nos uma. “Ouve-se um homem a pedir ao irmão que não mostre todos os slides à mãe, porque num aparece uma preta nua. O título [da peça] é precisamente Não contes à mãe. É um trabalho com voz apenas (e é também o título da exposição que o artista apresentou na Zet Gallery e na Galeria Filomena Soares em 2023). “O que faço com esse e outros trabalhos é trazer para Portugal uma história que ainda está por contar.” E em Angola? Já se escutou, já está a ser contada? “Conhecem-na poucos”, responde. “Depois da independência sofremos anos de guerra civil e há situações que as pessoas, sobretudos os jovens, não conseguem contextualizar.” Foto Foto Foto A exposição é marcada por esses objectos que são as fotografias. Délio Jasse mostra-nos várias na lista onde estão assinaladas as obras da exposição. Algumas são elementos de uma instalação. Outras aparecem em superfícies de linho ou são representadas pelas palavras que alguém deixou nos versos das superfícies das fotos: nomes de cidades, rios, regiões do país africano. Abundam as figuras dos portugueses. São mais raras as dos homens e das mulheres vítimas da colonização. “Em quase todas as colónias, a fotografia foi sempre muito manipulada. Cortavam-se as imagens para poder vender, não havia paisagem, isolava-se o homem negro. Com a minha obra, com o uso que faço dessas fotografias [encontradas], sobreponho essas imagens enquanto camadas, estratificando os documentos, usando técnicas como a cianotipia [um processo de impressão fotográfica em tons de azul].” Foto "O que me interessa é mostrar os brancos, os colonos, os portugueses na Baixa de Luanda. Mostrar o que não se via: a vida dos colonos. E a violência também está aí" De algum modo, Délio Jasse captura o olhar do colonizador para que o ex-colonizador o possa ver, agora sob uma transfiguração que intensifica a experiência do que foi um outro (violento) lugar: o das colónias. “Estou a criar documentos, objectos, não são fotografias. Estas foram descontextualizadas”, acrescenta o artista. “De facto, não vemos muitos homens ou mulher africanos. As únicas [fotografias] desse tipo que seleccionei são as dos corpos de pessoas que encontrei no Arquivo da Diamang. É uma forma de mostrar o trabalho forçado. Se não trabalhavam, não comiam, eram maltratados, massacravam-lhes as famílias. Achei que fazia sentido voltar a mostrá-las. Mas o que me interessa é mostrar os brancos, os colonos, os portugueses na Baixa de Luanda. Mostrar o que não se via: a vida dos colonos. E a violência também está aí. Com algum receio, devo dizer, porque algumas dessas pessoas estão vivas.” Comentamos o uso de técnicas diferentes de impressão fotográfica. Determinam, inapelavelmente, a experiência da exposição. “Utilizo muito as técnicas alternativas da fotografia, sempre que mudo a história. Imprimo todas as minhas imagens. Todo o processo de fotografia é passado por mim. Chego a criar novos negativos para algumas imagens. São lavadas e reimpressas.” Há ainda muito por encontrar e ver nos arquivos que Délio Jasse percorre e consulta: “As pessoas vão morrendo, os recheios das casas são vendidos e as imagens vão aparecendo nas feiras. Muito da história de Angola ainda está cá. Se o país tivesse esse arquivo, podia resolver algumas coisas.” Délio Jasse, que vive há vários anos em Milão, coloca, cauteloso, essa hipótese, propondo um argumento. “É difícil construir um país e o seu passado sem uma base, sem pilares. Mas em Angola não estão preocupados com arquivo, e sim com o petróleo. O arquivo é uma forma de educar, de instruir. Ninguém o vê assim. Para saber, para conhecer a minha história, tenho de vir a Portugal. Interessa-me assegurar que essa memória colectiva continue connosco, com os novos usos que dou às fotografias, contando a história de Angola através de slides, objectos ou sons.” Foto "De facto, não vemos muitos homens ou mulher africanos", confirma Délio Jasse. Sobressai a imagem de uma mulher negra. Vemo-la numa posição subalterna, o rosto assustado Foto No piso de cima do Pavilhão Branco vêem-se suspensas imagens impressas em tecidos transparentes As sobreposições das histórias No piso de cima do Pavilhão Branco, menciona Délio Jasse, estarão suspensas imagens impressas em tecidos transparentes. Mostra-nos algumas. A de um homem branco que abraça dois homens negros cuja expressão no rosto trai sofrimento e distância. Uma onde se vêem bombas e armas. E, pelo meio, sobressai a imagem de uma mulher negra. Vemo-la numa posição subalterna, o rosto assustado. Parece ter as mãos presas atrás das costas. O plano é muito aproximado: quem a fotografou esteve a centímetros do seu rosto e do seu corpo. O artista encontrou a fotografia na Feira da Ladra. Ela, a mulher, olha para cima, como se suplicasse. “A história para mim nunca é cancelada, por isso aprecio o efeito de sobreposição das transparências, aquilo que os tecidos permitem.” Do tecto, as imagens , em especial, as de casamentos de pessoas negras apadrinhadas pelos colonos brancos , são coisas-fantasma. Não sabemos e sabemos. Numa das salas do Pavilhão Branco está a ser montado um mural cujas imagens compõem a figura de outro homem branco, desta vez um colono italiano. Trata-se de um trabalho que Délio Jasse concluiu durante uma pesquisa em arquivos italianos sobre a guerra que o regime fascista de Mussolini infligiu à antiga Abissínia (actual Etiópia). À medida que a imagem se vai formando, dá-se uma revelação. Já vimos antes aquele homem impecavelmente vestido de branco no clima de África: nas páginas de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad (1902). Como olharão os portugueses para estas imagens, hoje? “Não sei”, replica o artista. “Sei que não quero que me venham contar histórias do que fizeram ou tiveram em Angola. Essas não me interessam O que quero é jogar com as imagens, com os seus códigos, a partir de um olhar que foi construído sobre o outro [africano]. E o que proponho é um novo olhar construído por mim, com a minha obra. Digamos que gostaria que as pessoas olhassem para estes objectos, mesmo que, depois, tivessem de desviar o seu olhar.”