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ROBERTO MEDINA: “O ROCK IN RIO É UM PEDAÇO DE NÓS”

Expresso

2024-04-19 05:31:03

Entrevista Roberto Medina O Rock in Rio não é um palco, é um pedaço de nós” 40 anos de Rock in Rio no Brasil, 20 em Portugal momento de balanço que emociona o criador de um dos maiores festivais do mundo: “O meu legado de vida é o que posso fazer pela cidade que amo” POR RUI MIGUEL ABREU JORNALISTA D e amplo sorriso estampado no rosto, Roberto Medina quase faz crer que nos recebe na sala de sua casa e que não nos encontramos separados por um vasto oceano, tamanha a simpatia. O enquadramento na chamada de vídeo permite ver que veste cores claras, que se encontra num escritório arejado e que fala com desenvoltura sobre a sua vida, partilhando de forma generosa memórias de quatro décadas de construção de um dos maio res festivais do mundo. Essa ideia a da construção é reforçada pelo seu discurso, que deixa muito claro que ainda há muito para fazer, muito para erguer, no que à sua Cidade do Rock, capital de um Mundo Melhor, diz respeito. Aos 76 anos, o homem do leme da Artplan, uma das maiores agências de publicidade do Brasil, não esconde o quão entusiasmado está com o amanhã: fala-nos de como os bilhetes para o Rock in Rio serão substituídos por reconhecimento da íris, da torre para desembarque dos festivaleiros que queiram chegar num carro voa dor, e afiança que não são os nomes impressos nos cartazes, antes a experiência global, que leva dezenas de milhares de pessoas até aos eventos que organiza. E, muito rapidamente, deixa claro que o guião de perguntas cuidadosamente preparado é inútil e que será ele mesmo, com o seu ímpeto e entusiasmo sem limites, a desbravar o terreno desta entrevista. Mas o homem que acredita no futuro e que não enjeita as mais modernas tecnologias, também não teme revelar que o improviso pode ser uma ferramenta preciosa e que a capacidade de pousar o telefone e sintonizar-se na vibração da natureza é fundamental para o equilíbrio que busca. “Quando você está em comunhão com a natureza, esse é o momento em que você fica mais perto de Deus”, sugere o homem que já plantou milhões de árvores e que tem feito a sua parte para salvar a Amazónia. A natureza, acredita Roberto Medina, tem um tempo. Ainda assim, isso não o impede de correr porque o Rio de Janeiro como o mundo, de resto pode ser um lugar bem melhor: “Imagino como é que podemos iluminar de forma mais permanente a cidade.” Quando é que a música entrou na sua vida? O que mais mexia comigo o meu pai falava muito nisso era ver Frank Sinatra ir ao Brasil. Frank Sinatra estava próximo da cadeira de Deus naquela época. Era alguém intocável. E havia a história de uma cigana que disse que ele iria morrer no Brasil. Por isso, ele recusava-se a ir. Lembro-me de o governo do Rio de Janeiro tentar trazer o Sinatra, lembro-me de o governo federal e do meu pai, que foi um grande empresário, tentarem também, e nada resultar. E eu que gostava tanto da My Way . O meu pai fazia musicais, depois construiu um teatro para fazer um outro musical, o Arco Íris. Então eu, com 13/14 anos, tenho memórias do Copacabana Palace, de assistir àquela coisa encantada. Mas, depois, a vida foi-me empurrando para outro lugar, a publicidade. Foi a vida que lhe impôs isso ou foi uma escolha? Eu queria ser escritor, acabei a estudar direito, mas percebi muito cedo que o meu caminho era o da comunicação. Aos 18 anos, fui o primeiro empregado de uma agência de que sou dono hoje. Tive a sorte de trabalhar numa sala pequena onde trabalhava igualmente um membro da Academia Brasileira de Letras, o senhor Leça. Isso marcou muito a minha carreira de publicitário e deu-me autoconfiança. Acho que eu sabia fazer isso bem. Fui publicitário do ano do Brasil, comecei a ganhar prémios... A agência cresceu muito. Nunca quis abrir uma agência, queria era fazer publicidade. Adorava criar anúncios. E naquela época trabalhava com uma estrutura muito pequena e nem dava para delegar você fotografava, levava a foto ao jornal, corria para um lado, corria para o outro. A publicidade hoje é uma coisa... Há tantas novas ferramentas, tanta necessidade de aprovação isso retira o romantismo da criação. Continua apostado em criar coisas novas? Continuo. Brinco muito com a minha esposa, e ela diz que numa semana eu quero reformar-me e na outra quero inventar [Risos] Fico algures no meio e não consigo sair. É algo maior do que eu, a história de abrir caminhos, ser curioso em relação ao futuro. Estou a trabalhar numa exposição dos 40 anos do Rock in Rio aqui no Brasil. Espero que ela também seja apresentada em Portugal. E é uma exposição muito “maluca”, uma coisa muito grande. E quando termina a história que eu criei, pus-me a pensar: “A história eu já conheço. Eu quero saber é como é que é o futuro.” “Como é que eu vou entrar no Rock in Rio? Vou entrar com leitura de íris. Bilhete? Bilhete porquê? Leitura de íris é mais prático e seguro.” O carro voador vai chegar daqui a dois anos. Então, para a área VIP vou fazer umas torres para se poder desembarcar do carro voador. Claro que liguei para a Embraer: “Quando é que fica pronto o vosso carro voador?” “Em 2026.” “E não se pode antecipar isso? Porque eu quero levá-lo para o Rock in Rio e fazer uma demonstração de como isso funcionará no futuro.” O futuro do nosso negócio vai ser muito diferente do que é hoje. Cada vez está mais difícil. As bandas no passado só se mexiam por dinheiro. E isso mudou? Vejamos o caso do primeiro Rock in Rio. Eu fui falar com os Queen e o dinheiro era importante para essa negociação, nesse namoro que se fazia. Hoje não. Hoje, se você pensar nas 20, 25 bandas que podem ser headliners de um evento grande, perceberá que essas bandas não ligam muito a essa questão porque o dinheiro delas é outro. Quer dizer, com uma digressão grande e com todas as receitas do streaming, a banda mais pobre tem uns 300 milhões de dólares no banco. O que lhes possa oferecer em termos de verba não é assim tão importante. A negociação não passa só por aí. A negociação ainda é ter estatuto de cabeça de cartaz no Rock in Rio, em Glastonbury ou Coachella... Esses três projetos, de diferentes formas, têm um apelo que não passa apenas pelo cartaz. A Glastonbury, você vai para uma experiência. O Coachella é bonito, tem pessoas lindas, aquelas palmeiras, é muito bem feito, bem estruturado e é um autêntico programa. E o Rock in Rio, na sua conceção original, ele sempre proporcionou uma experiência única. Nunca copiou outro evento. Do ponto de vista da estrutura musical, é curioso, mas há uma lenda que o rodeia aqui no Brasil: “Ah, já foi mais rock.” Não, não era mais rock! O Rock in Rio nasceu com uma proposta clara de juntar as tribos. Havia o dia do metal, dia do rock, dia do pop, dia de axé, de tudo. Havia jazz, country. A minha ideia nunca foi fazer um festival só com rock. O rock era uma atitude, uma ideia de liberdade. Era acerca da volta da democracia ao país. A ditadura militar dificultou muito a vida à minha família. Aquilo era um grito que eu queria dar, também. Que tipo de dificuldades teve que superar para tornar o sonho em algo real? O grau de exigência do consumidor aumentou muito e eu acho que bati muito nessa tecla. E, tal como na origem disso tudo, o improviso esteve sempre presente. Eu fui amigo do tipo que fez o Woodstock, o Michael Lang. Ele contou-me: “A gente queria fazer uma festa num clube. Mas as pessoas começaram a vir.” E ele não soube logo o que fazer. Mas um amigo dele sugeriu: “Vamos para uma grande quinta.” Eles foram para uma quinta e fizeram o festival de Woodstock. Não havia nada. Não havia casas de banho, não havia comida, não havia nada, mas eles fizeram uma festa com 380 mil pessoas. E assim criou-se uma mística. A raiz de eventos por esse mundo fora e até nos Estados Unidos, que é o berço de tudo, ainda é muito assim. É de uma improvisação absoluta do ponto de vista de logística e estrutura. E eu nunca vi as coisas assim. Lembro-me que numa das reuniões com o manager dos Queen, ele disse-me: “Roberto, a reputação do Brasil é de não pagar as poucas coisas que vocês fizeram. Não têm palcos, não têm som...” Eu sonhava que eu ia aterrar nos Estados Unidos com dinheiro... Enfim, eu tinha um patrocinador já fechado, e pensei: “Vou conseguir contratar os artistas.” Mas não, não foi isso que sucedeu. Foi uma maratona. Foram 70 dias de maratona, a levar com todos os nãos do mundo. Ninguém me ligava. Porque o Brasil não tinha credibilidade nenhuma naquela época. Foi assim um período de desencantamento dessa ideia de poder transformar essa utopia em realidade. Mas, com muitos solavancos, isso aconteceu. Recebemos um milhão e 380 mil pessoas há 40 anos. As pessoas saíram, entraram, comeram, brincaram. Todas ficaram felizes. Os patrocinadores venderam o que podiam e o que não podiam. Então, criou-se ali uma estrutura, um projeto. O primeiro projeto organizado. Não havia modelos prévios ou tutoriais. Foi necessário criar do zero? Bem, criei, por uma questão de necessidade, não de genialidade, uma conduta de cerveja por baixo do recinto. A companhia de cerveja chamou-me e disse: “Não há maneira de levar os barris para dentro do Rock in Rio.” Porque eles deram o patrocínio pensando numa escala de 300 mil pessoas. Quando eles viram que o festival ia ter quase um milhão e meio de pessoas, chamaram-me e disseram que era impossível chegar lá ao recinto com barris. Sugeri uma solução na reunião com a Brahma: “Compramos uns camiões-cisternas, daqueles de gasolina, enchem-se com cerveja, e descarregam-se com uma conduta...” Assim, no momento, no meio da reunião. O diretor da Brahma, respondeu: “O menino tem razão.” Eu fiz essa operação, a primeira do mundo. Foi uma coisa improvisada, mas funcionou perfeitamente. A cerveja saía gelada. Isso foi algo constante naqueles oito meses de luta que foram necessários para implantar o projeto, pleno de desafios. Nunca admiti ter casas de banho químicas, então foi necessário construir casas de banho para servir um milhão e meio de pessoas, foi preciso construir um sistema de esgotos. Não foi brincadeira. Fomos obrigados a fazer uma estação de tratamento de águas naquele lugar, porque aquilo era uma verdadeira cidade. Então houve toda uma aprendizagem de construção de marca. Quando fechei os patrocínios, e naquela época eram 20 milhões de dólares por cada um, nunca me perguntaram que banda ia tocar. Não é, portanto, e como dizem os americanos, ciência de foguetões... É uma questão de consenso. Quando se divide tudo por tribos e se tenta encontrar o melhor cartaz, nem sempre se faz o line-up que se deseja, porque uma banda está de férias, outra não pode ou não quer. Mas, tem razão, não é exatamente uma ciência. Não devo a minha trajetória à capacidade de escolher sempre a banda certa. Se tenho algum mérito, é o da coragem e da determinação de não aceitar que há coisas que não podem ser feitas. Se não é o cartaz que atrai as pessoas, o que as leva então até à Cidade do Rock? Penso que a Cidade do Rock do Rio de Janeiro, em 2026, vai ser muito parecida com o que eu estou a descrever. Acho que vai ter hotéis. E eu nunca propus uma coisa que não tivesse concretizado. Nunca. Acho que quando se sonha com os pés fincados no chão e se imagina aquilo na sua vida, há grandes hipóteses de alcançar os objetivos. Lembro-me que quando fui fazer o Rock in Rio de 2001, fiz um projeto social muito bonito. Foi aí que começou a ideia do Mundo Melhor. Abrimos 70 pequenas salas de aula nas favelas e nós formámos 5 mil jovens no ensino básico. Depois, fiz uma grande campanha de mobilização em cima daquilo. Uma noite, numa entrevista que concedi, disse: “Eu quero parar o Brasil. Vamos fazer três minutos de silêncio.” E a Roberta, a minha filha, que estava a iniciar o seu percurso: “Mas pai, como é que você vai parar o Brasil?” “Não sei, filha, mas eu vou parar.” E um dia eu estava a caminhar e vi a imagem da Sinfónica, as pessoas todas de branco, os aviões a sobrevoarem o palco... fui a correr para a agência. “Juntem a minha equipa toda. Já sei o que vamos fazer. Vamos fazer assim: o Milton e o Gil cantam com a orquestra sinfónica, os aviões sobrevoam o palco, toda a gente de branco, três minutos de silêncio. Paramos as emissões das rádios, das televisões...” Nunca me senti tão ridículo na minha vida, porque o responsável do departamento de e-mails, o Otto Pajunk, na presença de outras 15 pessoas, disse: “Roberto, sabe quantas rádios há no Brasil?” “Não.” “3300.” Respondi: “Não fazia ideia.” E ele: “Televisões? Umas 400 e mais não sei quantas filiais. Enfim, se tiver sorte, em 30 anos talvez você consiga fazer algo semelhante.” Saí dali absolutamente envergonhado, e a barafustar. Passei pela minha assistente, que é hoje minha esposa, e vociferei: “Este país é uma merda, é preciso falar com o Presidente para as coisas acontecerem no Brasil. Nada acontece.” Fui embora irritado. Passou uma meia hora, a Mariana ligou-me e disse: “Posso passar-lhe o Presidente?” Perguntei: “Que Presidente?” E ela: “O Presidente do Brasil.” E eu: “Senhor Presidente, quero parar as rádios e as emissoras de televisão. Eu não tenho como parar 3300 rádios, mas o senhor tem. O senhor tira as emissões regulares do ar, fica só um coração a bater, ouve-se um texto que fala sobre um mundo melhor, sobre os pequenos gestos que as pessoas podem fazer para mudar o mundo. Essa é a ideia que eu tenho.” E ele: “OK.” No dia seguinte, o Presidente voltou a ligar: “Roberto, está tudo acertado.” E nesse momento pensei: “Agora, o que é que eu faço? Como é que faço com as televisões?” Fui falar com todas, uma a uma. Disse-lhes: “Olhem, temos de tirar a emissão regular do ar e fazer isto. Este é o maior projeto de comunicação do mundo.” Tivemos todas as emissões do Brasil no cabo, na TV aberta, na rádio a serem interrompidas e apareceu a Sinfónica toda de branco e os aviões saíram por trás. As pessoas choraram. Eu chorei também. Todos choraram de emoção naquele momento. E é o símbolo daquele festival. E, mais do que nunca, esse símbolo deveria importar mais agora. Porque o mundo está muito mais difícil, muito mais complexo, está guerreiro, ninguém ouve ninguém. Nós estamos a transformar-nos num mundo de radicais. Tem de ser ao contrário. A solução para o mundo é o encontro das pessoas. Parece uma utopia... Esse é o meu sonho. Aqui no Brasil, estou a fazer uma coisa chamada Global Village. É como se fosse uma Rock Street, mas gigante, que tem um palco que vai reunir tribos. Vou ter lá bandas israelitas juntas com bandas palestinas. Pode dizer: “Ah, isso é muito poético, dizer que a música transforma.” Mas a música transforma! Mais ainda, com essa loucura de vida que levamos. As pessoas não estão felizes. Estão apenas a tentar sobreviver. Mas podemos sair da nossa bolha e viver aquele momento ali. É como se viéssemos à tona para respirar. E a outra coisa que eu vejo é que nem para a tristeza parecemos ter tempo. Não há sequer tempo para chorar hoje em dia. Em nome do progresso, da tecnologia avançada, nós estamos a ignorar o básico, que é o tempo que precisamos para viver. A natureza tem um tempo. Não se acelera o pôr do sol. Consegue desligar-se, dar-se esse tempo? Tenho uma fazenda aqui perto, a uma hora e quarenta minutos de onde eu vivo, e fujo para lá. Todos os fins de semana que eu esteja no Brasil, fujo para ali. É um lugar tão bom. Não se vê nada a não ser montanhas. E aí tento passar tempo com a natureza. Há uma cascata. Caminho por ali, ouço a natureza, tento ouvir-me também. Sou muito da natureza, sabe? O que eu faço é estranho, porque é o oposto. Eu sou um ser antissocial, faço festas de um milhão e meio de pessoas, mas sou bicho do mato. Sou, de certa maneira, uma incoerência permanente. Acredito que Deus está dentro de nós. Cada um tem uma chispa de Deus. E quando você está em comunhão com a natureza, esse é o momento em que você fica mais perto de Deus. Esse carregar de baterias permite-lhe depois aplicar essa boa energia no Rock In Rio? No Rio, que é um projeto mais longo do que o de Portugal, você sabe que o clima muda? É completamente diferente. Parece que aterrou ali uma nave. As pessoas estão bem, estão em paz, não acontece nada... Mas, veja, o Rock in Rio, nesses 40 anos, deve ter colocado dentro das Cidades do Rock mais de 12 milhões de pessoas. Nunca houve um incidente. E porquê? Música! E alguns cuidados de logística, de entrega... acho que é preciso ter muito cuidado com isso também. Há um limite de pessoas. Aqui no Brasil, o primeiro Rock in Rio teve dias com 250 mil pessoas. E eu fui aprendendo com isso, percebi que não é uma questão que se resolva numa folha de Excel. “Ah, então eu coloco mais casas de banho aqui, mais outras ali.” Não, não é assim. E quando voltei para o Brasil, depois de ter estado em Portugal, comecei a reduzir, fiz com 170, 150, e parei em 100 mil. 100 é bom. Quando você faz isto para 100 mil pessoas, tudo funciona bem. Fui aprendendo com o tempo. Fazer coisas cada vez maiores faz parte da cultura do capital, mas o capital está cada vez mais burro, porque está a dar um tiro no pé. A conta de um capital inteligente é a seguinte: 50% das pessoas do mundo estão mal, sem dinheiro, sem comida. Mas se eu criar uma forma de tirar alguém dessa condição, essa pessoa passa a ser um consumidor. Esse deveria ser o caminho para o capital. Mas o capital é burro. Quando comecei a minha vida, eu queria sonhar e fazer. Eu queria produzir. Hoje, o jovem começa logo a querer ganhar. Você repara nesses grandes empresários, os que têm a sorte de subir até ao topo da montanha, eles andam sempre atrás de mais dinheiro. São colecionadores de dinheiro, quando eles deveriam ser colecionadores de alegria, de felicidade. O primeiro Rock in Rio em Lisboa foi há 20 anos e o Roberto viu esta cidade transformar-se. Como é que avalia essa transformação? Dei muitas entrevistas em que me sentia sozinho no discurso. Via uma Lisboa muito diferente da que os portugueses viam, muito maior da que os portugueses me mostravam. Naquela altura, a imagem de Portugal no Brasil era muito má. Graças a Deus, hoje há uma imagem muito boa. Mas antes havia a imagem de uma coisa velha, as pessoas todas de preto, a música portuguesa era só o fado, que é triste, introspetivo. E quando cheguei a Lisboa encontrei uma luz linda. A cidade é linda. Já existia a parte nova da Expo. A parte antiga também era linda. E eu dizia: “Não é possível que eles não vejam isso.” E não viam mesmo. Qual é o vosso problema? Vocês são engenheiros fantásticos, por isso a minha equipa de logística aqui no Brasil é toda de Portugal. Vocês trabalham com a lógica muito melhor do que a gente. E nós trabalhamos com a intuição muito melhor do que os portugueses. Nós andamos no cinzento. Vocês andam no preto e no branco. Vocês exigem uma prova que os brasileiros não pedem. Percebi isso claramente. E foi difícil essa luta para vos convencer que tinham um país incrível, eu passava tempo aí e saía arrasado. Mas acontece que não fui só eu a ver isso, vocês começaram a ver também. E isso abriu a porta para o turismo europeu todo, para o internacional. Algo que foi fruto de crises em outros países, e não fruto das pessoas entenderem a importância da qualidade de vida em Portugal, porque Portugal tem uma gastronomia fantástica. O clima é o melhor da Europa. Então vocês estão tristes porquê? Lembro-me que, quando cheguei aí, um sujeito virou-se para mim e disse: “Tenha cuidado quando estiver no metro.” Perguntei: “Porquê?” “Porque roubam a carteira das pessoas.” Respondi: “Está a dizer isso a um carioca?” [Risos] O Rock in Rio vai ter uma nova localização. Está entusiasmado com essa mudança? Por um lado, estou ferido, por outro estou entusiasmado. Acho que foi uma decisão muito bem tomada pela Roberta, mas confesso que... A primeira vez que cheguei ao Parque da Bela Vista, estava a chover, estava frio, e quando olhei assim de cima, percebi logo: “Aqui vai ser o Rock in Rio!” Portanto, tenho muita dificuldade com isso. Vou morrer de saudades do Parque da Bela Vista. Estou incorporado ali naquelas casinhas, naquela descida. O Rock in Rio não é um palco, é um pedaço de nós. Os festivais em geral têm enfrentado algumas dificuldades com patrocinadores, com alguns a perderem o naming. Essa tendência vai acentuar-se ou ainda há espaço para crescimento? Sabe o que acontece? Aqui, no Brasil, 80% dos patrocinadores percebem que me dedico durante muito tempo ao projeto e que apresento uma qualidade compatível com os seus produtos. Eles sentem-se tranquilos nas suas operações. Porque proponho constantemente projetos parceiros. A Roberta está também a pensar muito assim. Claro que é mais difícil fazer as coisas, porque as verbas são mais limitadas, o país tem uma determinada dimensão. Mas eu gostaria de abrir a torneira de Portugal, até mesmo para o turismo externo também. Fiz algumas tentativas no primeiro e não consegui. Porque acredito que o festival é um indutor de turismo importante para a economia de Portugal. Mas, em relação às marcas, há sempre a possibilidade de não entenderem isso. Nunca as abordo para pedir dinheiro. Chego lá e digo: “Há uma campanha.” Quando eu fui à Brahma vender o patrocínio do Rock in Rio, não pedi para me darem um patrocínio. Isso nem existia no Brasil. Disse o seguinte: “Vou vender muita cerveja durante um ano.” Então, na verdade, estou a criar uma história para a marca se apaixonar e assim ser diferente da concorrência. Alguns patrocinadores aproveitam. Confesso-lhe que no Brasil tenho sido mais feliz com essa abordagem. Estou a conseguir interferir positivamente dentro da engrenagem. Mas admito que Portugal está aquém da sua potencialidade. Confesso que não sei se foi incapacidade nossa de mostrar as nossas ideias, ou se foi incapacidade das marcas as entenderem. Eu acho que aí também entra um pouco daquela conversa sobre a zona cinzenta. No Brasil é mais fácil abrir a conversa para um lugar que não é conhecido. E Portugal é mais de branco e preto. Ainda assim, acredita que daqui a 20 anos a Roberta vai estar a dar uma entrevista como esta agora para falar dos 40 anos do Rock in Rio em Lisboa? Não tenho nenhuma dúvida disso. O único medo que eu tenho é de não ter a entrega de paixão, de qualidade, de detalhe. Porque a coisa da máquina em si, nenhum problema, está feita. Hoje há processos para tudo e as pessoas fazem as coisas muito bem, a equipa é extraordinária. Acho que ainda carrego em mim um romantismo que não se pode perder, sabe? Você não tem como provar que aquilo ali dá um certo retorno. Mas eu acho que a Roberta, enfim, ela cresceu no meio disso, não é? Ela dormia no chão do primeiro Rock in Rio, pequenininha, dormia no que a gente designava como área VIP, que era um galinheiro futurístico [risos]. Já teve a oportunidade de ir a Las Vegas, ao Sphere? Não, vi só o vídeo do concerto dos U2. Na minha visão, o Sphere, no futuro, não vai ter concertos. Porque é tão espetacular o conjunto visual, que ele esmaga o resto. O espetáculo dos U2 ficou pequeno perante aquela coisa toda. É uma experiência para você se sentar numa cadeira e ficar uma hora ali, com luz, com lasers, com fumo. Ali não tem de haver artistas. É demais. O edifício é que é a cabeça de cartaz? É, é isso. Estou a criar, para essa exposição, uma maquete, com 30 metros de extensão. Não há uma esfera, mas há um cubo gigante de LED, há o restaurante gourmet, há um resort ali dentro, há uma cidade muito bonita, isso vai acontecer. Vou lançar isso antes do meio de setembro, uma ideia para 2026 e 2028. E aí digo-lhe uma coisa, eu faço isso porque o Rio não tem uma âncora permanente. O Rio tem o Carnaval, tem o Rock in Rio e mais nada. Precisa de existir uma âncora para o turismo no Rio de Janeiro. E isso não tem nada a ver com dinheiro. Imagino como é que podemos iluminar de forma mais permanente a cidade. Podemos não conseguir fazer uma Cidade do Rock permanente, mas estou a arranjar forma de termos um parque misturado com resort, misturado com experiência, para que tenhamos uma atração mais permanente para o Rio. Tenho conversado com os governos sobre isso. Estou a trabalhar nisso, porque acho que o meu legado de vida é o que eu posso fazer pela cidade que amo. Quando eu era miúdo, o meu mundo era o Rio, a globalização não existia. E eu sofro muito com a cidade não estar cuidada. E também me preocupei sempre com Lisboa, procurei deixar marca, florir a cidade. Tenho mesmo grandes recordações de Portugal. Mas Portugal hoje é outro. Essa transformação, para quem passou aí algum tempo, é uma coisa inacreditável, nem o mais otimista do mundo poderia imaginar que a cidade ganhasse essa cor, essa vida. Não sei economicamente o número atual, mas deve ser um número fantástico, 12 milhões de turistas, é maior que a população de Portugal. Então, é caso para terem orgulho no trabalho que vocês fizeram. b e@expresso.impresa.pt O rock era uma atitude, uma ideia de liberdade. Era acerca da volta da democracia ao país. A ditadura militar dificultou muito a vida à minha família. Aquilo era um grito que eu queria dar” Há 20 anos, a imagem de Portugal no Brasil era muito má. Uma coisa velha, as pessoas de preto, o fado. Quando cheguei a Lisboa encontrei uma luz linda” O tipo que fez o Woodstock contou-me: A gente queria fazer uma festa num clube. Mas as pessoas começaram a vir. Foram para uma quinta e criou-se uma mística” Rui Miguel Abreu