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DOSSIER AUTOMÓVEL - QUANTO CUSTA CARREGAR UM ELÉTRICO

Visão

2024-05-09 14:17:37

SOBRE RODAS QUANTO CUSTA CARREGAR UM CARRO ELÉTRICO? POR PAULO M. SANTOS Na altura de comprar um carro elétrico, um dos maiores fatores de decisão é o custo do carregamento das baterias. Em média, carregar o carro em casa custa 0,21 euros por kWh, nos postos normais 0,43 euros e nos rápidos 0,79 euros. Mas há muitas diferenças, entre postos de carregamento, que podem fazer disparar a fatura final. Veja quais, para não ficar surpreendido na hora de chegar a fatura C Cada vez mais portugueses optam por comprar carros elétricos e a tendência poderá subir ao longo deste ano, em que irão surgir no mercado vários modelos com preços a rondar os 20 mil euros, tornando estes veículos cada vez mais acessíveis para as classes mais baixas. É a chamada “democratização” do carro elétrico, ou seja, que irá colocar este tipo de veículo em paridade de preços com os carros similares a combustão. Mas, na altura de fazer as contas, há mais em jogo do que o preço de aquisição. Regra geral, os carros elétricos têm uma manutenção mais em conta do que os seus rivais a combustão, pois não têm a mesma manutenção, que os outros necessitam, como mudanças de óleos e de filtros, entre outros, que podem custar várias centenas de euros a cada 15 mil km percorridos. Além disso, o preço da eletricidade é mais barato do que o do combustível, o que permite circular nestes veículos com um custo de energia mais em conta. Mas, na realidade, quanto custa ao certo a energia para circular num veículo elétrico? Em Portugal, segundo o Observatório Europeu para as Energias Alternativas, carregar o carro em casa tem um custo de 0,21 euros por kWh, ou seja, menos 4 cêntimos do que na média da União Europeia, cujo valor é de 0,25 euros. Portugal tem, nesta matéria, o 13º preço mais baixo na Europa, ficando atrás de países como a Hungria, onde o custo por kWh é de 0,11 euros, da Croácia (0,15 euros) ou mesmo de Espanha (0,18 euros). Fazendo as contas para um veículo que consuma 15 kWh por cada 100 km percorridos, o custo para circular nesta distância, carregando em casa, é de 3,15 euros. Um valor bem atrativo para quem está habituado a gastar no mínimo 8 a 10 euros para fazer a mesma distância num veículo a combustão, seja a gasóleo ou a gasolina. Em contrapartida, segundo o mesmo estudo, que foi atualizado a 16 de janeiro deste ano, Portugal é o país da Europa onde se consegue carregar um veiculo elétrico por menos dinheiro nos postos públicos. O Observatório Europeu mostra que o preço mínimo para fazer 100 km num veículo elétrico oscila entre os 1,06 euros e os 1,2 euros em Portugal, dependendo do consumo do carro que conduz. No entanto, é necessário explicar que este valor é determinado pelo custo mais baixo praticado por um serviço de subscrição de abastecimento de energia, que, muitas vezes, pode ser subsidiado pela própria marca como estratégia de venda e de angariação de clientes. De referir que alguns dos países que têm a energia mais barata carregando em casa são também dos que têm um custo mais elevado para carregar o veículo num posto de abastecimento ultrarrápido, como é o caso da Croácia, onde o posto mais caro pode significar um valor superior a 100 euros para percorrer 100 km. VARIAÇÃO DE PREÇOS Este exemplo é bem demonstrativo da diferença que existe nos preços dos carregamentos e a poupança que um condutor consegue fazer se carregar o veículo em casa ou com uma boa escolha do posto de carregamento. Carregar em casa é a opção mais barata e que torna verdadeiramente o carro elétrico num veículo em conta para circular na estrada, mas esta não é uma hipótese viável para quem vive num apartamento sem garagem. Para muitos destes casos, a utilização da rede pública é a única solução, o que pode fazer disparar o custo de utilização do veículo. E, mesmo assim, há que ter cuidado na altura da escolha do posto de carregamento, pois existem vários fatores que po dem inflacionar a fatura final. Um dos primeiros é a capacidade de carregamento do posto. Regra geral, quanto mais rápido este for, maior é o custo do carregamento. Em média, o preço de abastecer um veículo elétrico nos chamados postos normais, ou de corrente alternada, é de 0,43 euros por kWh em Portugal, ou seja, fazendo as contas para um veículo que consuma 15 kWh por cada 100 km percorridos, os gastos “aos 100” vão ser de 6,45 euros. Já no caso dos carregadores rápidos, corrente contínua, este valor sobe para os 0,79 euros por kWh, o que, para o mesmo veículo e o mesmo consumo, faz disparar a conta para 11,85 euros, percorrendo a mesma distância. VERIFICAR ANTES DE UTILIZAR Regra geral, o custo final do carregamento de eletricidade não é fácil de determinar. Ao contrário do que acontece quando abastecemos um depósito de gasolina, onde podemos saber o preço final do combustível antes de começar o procedimento, nos postos de carregamento das baterias o processo ainda é muito obscuro. Apesar dos preços estarem afixados, estes não são de fácil leitura e mudam de operador para operador. O preço da eletricidade é praticamente igual em todos, mas depois existem variações que são capazes de fazer toda a diferença. Além do custo da energia, os preços podem trazer ainda uma taxa de ativação, ou seja, um valor que o operador cobra apenas por o carro ser ligado ao posto de carregamento, um valor sobre o tempo de ocupação do posto, um valor adicional sobre o preço do carregamento e, ainda, as taxas e impostos respetivos. Além disso, outro dos erros que muitos utilizadores fazem é carregar em postos com uma capacidade superior aquela que o carro admite. Por exemplo, imagine que tem um veículo que apenas suporta uma velocidade de carregamento de 11 kWh e o liga a um posto que debita 22 kWh, com um custo único de 0,15 cêntimos por cada minuto em que o carro esteja ligado. Fazendo as contas, se pretender carregar 44 kWh, o preço deveria ser de 0,15 euros multiplicado por 120 minutos, o que daria 18 euros, mais o custo da energia. Mas se o veículo apenas suporta 11 kWh, terá de ficar quatro horas ligado para carregar a mesma energia, atirando o preço final para os 36 euros, mais o preço da eletricidade. Este é um exemplo bem demonstrativo dos custos adicionais que poderá ter, caso escolha um posto de carregamento que não seja o mais apropriado para o seu carro. “A solução que existe atualmente não é perfeita, mas temos de trabalhar para a melhorar”, diz Luís Barroso, presidente da Mobi.e. O gestor explica que o sistema, quando foi criado, não valorizou convenientemente este fator. “Na altura, o foco estava na facilidade de aceder ao carregamento e depois, como acontece na fatura da eletricidade, a conta aparecia no final do mês. Mas há uma questão que temos de clarificar: é muito difícil antecipar qual será o custo exato do carregamento, porque este depende de muitos fatores. Desde logo da capacidade da bateria, da sua tempera tura, do nível de carga, etc. Tudo isso influencia a velocidade de carregamento. Ao contrário do que acontece num carro a combustão, em que os litros de combustível são mensuráveis à medida que vamos enchendo o depósito do veículo.” Apesar destas limitações, Luís Barroso garante que a Mobi.e fez um grande investimento numa plataforma . entrou em funcionamento no ano passado . que permite transmitir, no final de cada carregamento, a informação aos comercializadores de energia do custo da sessão de carregamento. “Neste momento, os comercializa-dores têm já forma de aceder a esta informação e podem disponibilizar ao utilizador o custo exato da sessão de carregamento. Agora, vai demorar algum tempo até que estes desenvolvam os seus algoritmos para responderem a esta informação. Penso que, nos próximos meses, irão começar a aparecer no mercado soluções que já terão este tipo de informação”, garante. MERCADO EM ARREFECIMENTO? No ano passado, as vendas de carros elétricos dispararam na Europa, vendendo-se mais 37% deste tipo de veículos do que no ano anterior. No entanto, o mercado começou a sentir um ligeiro arrefecimento da procura no final do ano, que se tem mantido ao longo dos primeiros meses de 2024. A Volkswagen, o maior construtor automóvel europeu, admitiu que as vendas de veículos elétricos na Europa estão abaixo do esperado, mas, mesmo assim, a níveis elevados. “Temos a convicção de que o futuro será elétrico”, disse Arno Antlitz, diretor financeiro da empresa, admitindo que as vendas de carros elétricos desceram 16%, face ao que estava previsto na Europa, mas, em contrapartida, duplicaram na China. Em Portugal, segundo os últimos dados da ACAP, entre janeiro e março deste ano, 51,5% dos veículos vendidos em Portugal eram híbridos ou 100% elétricos. Ao todo, venderam-se 68 520 carros novos no primeiro trimestre, mais 13,1% do que em igual período do ano passado. O mercado nacional continua dominado pelas marcas francesas, que, nos três primeiros meses do ano, conquistaram todos os lugares do pódio. A Peugeot manteve-se como marca líder, com mais 8 109 veículos vendidos, enquanto a Renault assumiu a segunda posição com 5 628 unidades. O terceiro lugar é agora ocupado pela Citroën, que vendeu 4 628 carros em Portugal. Ao longo deste ano, iremos assistir à entrada de novos veículos 100% elétricos de preços “baixos”, ou seja, com valores perto dos 20 mil euros, que poderão criar uma nova procura no mercado. E, em 2025, começam a chegar os elétricos com valores abaixo desse preço de referência. Um dos casos é o eC3, com uma autonomia mais reduzida de aproximadamente 200 km, que irá custar cerca de 19 mil euros. A Volkswagen, segundo o seu CEO, também quer lançar um veículo, até 2025, com um preço acessível, embora admita que, para o conseguir, o mercado está dependente da evolução do custo das baterias. Além disso, prevê-se que várias marcas chinesas entrem em força na Europa, como já fez a BYD, o que poderá provocar uma nova “guerra” de preços entre os construtores de automóveis. As opções começam a ser muitas, para quem queira optar pela compra de um veículo elétrico, falta realmente tornar o processo de comercialização de energia mais “amigo” dos utilizadores, o que aumentará a sensação de confiança das pessoas nesta nova tecnologia. Segundo o último estudo Car Cost Index, elaborado pela LeasePlan, Portugal era o quarto país da Europa com o custo mais elevado de utilização de um veículo a combustão, só perdendo para os Países Baixos, Noruega e Suíça, e, em contrapartida, o País onde mais compensava ter um veículo elétrico. Este estudo foi publicado em 2023, mas o cenário não se alterou muito. visao@visao.pt Quanto custa carregar um carro elétrico? . . . . . . . . . . . . 6 8 Saiba quais as diferenças entre os postos de carregamento das baterias, para evitar surpresas na fatura final Em Portugal, segundo o Eurostat, carregar o carro em casa custa, em média, 0,21 euros por kWh Cinco conselhos de utilização Conduzir um carro traz grandes vantagens em termos de custos e de impacto ambiental, mas existem algumas regras que deve ter em conta para tirar melhor partido deste novo conceito de mobilidade 1. DE PREFERÊNCIA EM CASA Fazer o carregamento em casa é a forma mais barata de carregar o seu veículo. Este procedimento pode baixar-lhe a fatura em dois terços do custo médio de um carregador público 2. ESCOLHA ACERTADA Caso não consiga carregar em casa, faça uma escolha criteriosa do carregador público. Tenha em atenção os preços de todos os fatores e se a velocidade de carregamento é indicada para o seu carro 3. FAÇA UM CÁLCULO ANTECIPADO Para evitar surpresas, na sua aplicação ou no posto de carregamento, veja os preços praticados e multiplique o tempo que vai ser necessário para carregar pelo custo que o operador cobra por minuto ou por kWh 4. LIMITE DA BATERIA Para aumentar os anos de vida da bateria, não deve deixar que o nível baixe dos 20%, nem carregar mais de 80%, sobretudo se utilizar carregamentos rápidos. 5. RÁPIDOS SÓ QUANDO NECESSÁRIO Só deve utilizar os carregadores rápidos quando existe mesmo essa necessidade, por exemplo, numa viagem longa, pois danificam mais a bateria A Mobi.e já desenvolveu a plataforma que permite aos operadores saber o preço exato de cada carregamento A insustentável diferença de preços Ao contrário do que acontece com os motores de combustão, na hora de carregar um carro elétrico o preço pode variar de um para outro fornecedor. E esta discrepância é capaz de ser ainda maior de país para país. Veja os preços praticados em 20 países europeus, segundo o Observatório Europeu para os Combustíveis Alternativos. A última análise mostra o custo, por 100 km percorridos, no posto mais barato e no mais caro, para quem tem um serviço contratado com um operador de carregamento de carros elétricos, e ainda o preço ad hoc médio para quem não dispõe desse serviço MÍNIMO MÁXIMOMÉDIO O ESTUDO FOI FEITO PARA VÁRIOS VEÍCULOS, MAS DEIXAMOS AQUI DOIS DOS MAIS VENDIDOS NA EUROPA, EM SEGMENTOS DIFERENTES: EM EUROS, POR CADA 100 KM PERCORRIDOS FONTE Observatório Europeu para os Combustíveis Alternativos Alemanha Áustria Bélgica Croácia Dinamarca Eslovénia Espanha Estónia Finlândia França Grécia Irlanda Itália Luxemburgo Países Baixos Polónia Portugal Suécia Reino Unido Suíça 2,74 4,11 3,84 4,79 4,11 3,42 3,59 4,79 3,42 2,23 4,45 3,25 4,11 3,42 3,08 3,42 1,20 4,11 2,91 5,48 88,12 14,03 15,06 112,26 11,29 14,55 31,31 13,52 94,28 15,23 10,78 12,49 13,52 10,78 16,26 11,29 13,52 11,29 11,29 11,98 10,10 8,83 9,46 10,01 9,96 19,25 8,04 11,29 5,23 8,21 11,12 8,13 10,32 11,12 10,37 7,60 3,59 8,73 8,81 8,98 0 20 40 60 80 100 VW ID.3 Pro S MT/VISÃO 2,42 3,63 3,48 4,24 3,63 3,03 3,18 4,24 3,03 1,97 3,94 2,88 3,63 3,03 2,73 3,03 1,06 3,63 2,57 4,84 77,93 12,41 13,32 99,26 9,99 12,86 27,69 11,96 83,38 13,47 9,53 11,05 11,95 9,53 14,38 9,99 11,95 9,99 9,99 10,59 8,93 7,81 8,37 8,85 8,81 17,02 7,11 9,99 4,63 7,26 9,83 7,19 9,12 9,83 9,17 6,72 3,18 7,72 7,79 7,94 120 0 20 40 60 80 100 Tesla Model 3 Em 2024 e 2025, irão entrar no mercado uma série de modelos 100% elétricos com preços a rondar os 20 mil euros Saber o preço final de um carregamento, em Portugal, ainda é uma dor de cabeça para os condutores PAULO M. SANTOS