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A CRUZ DE AURORA E AVELINO PEDRO PINTO, OS NOVOS SENHORES DO NORTE

Expresso Online

2024-05-12 23:02:05

Christiana Martins Jornalista Rui Duarte Silva Fotojornalista Poderiam ser os novos reis do norte, mas há duas décadas que um processo judicial lhes trava o passo. O casal Pedro Pinto encontrou na aquisição de uma obra-prima da pintura portuguesa um caminho para a redenção. E reconhece que um nome limpo vale mais do que o dinheiro Avelino Pedro Pinto passou quase um terço da vida no inferno. Há três anos sentiu que tinha saído do abismo. “Desliguei”, confessa o empresário que regressou às páginas dos jornais ao adquirir a obra-prima “Descida da Cruz”, de Domingos Sequeira, depois de a pintura novecentista ter saído do país envolta em polémica. No início deste ano, com esta compra e a promessa de a partilhar com a população, o dono da Livraria Lello no Porto e a mulher, Aurora, pareciam ter encontrado a redenção para as acusações de corrupção e peculato que os levaram a tribunal, mas, visto de perto, percebe-se que, por mais que façam, a nódoa custa a sair. “Em 2002 eu tinha uma vida normal, era casado com dois filhos e, de repente, acordei e passei 20 anos no inferno. A trabalhar, a ser pai, filho, marido e a defender-me. Mas houve uma coisa que fez com que eu sobrevivesse a tudo: sonhar. Os sonhos podem-se ter no inferno.” As palavras sobram na sala de reuniões de Leça do Balio. Os olhos azuis, semicerrados, confirmam o desconforto. Pela primeira vez, Avelino Pedro Pinto aceita falar em público do processo judicial em que ele e a mulher foram acusados de corrupção e peculato. Não há um elefante na sala, todo o espaço é tomado pelo tema. A 20 de março, no entanto, o casal Pedro Pinto e os filhos, Francisca e António, pareciam felizes. Foram recebidos pelo então ministro da Cultura na Sala dos Embaixadores do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, na sessão de apresentação da pintura de Domingos Sequeira, regressada a Portugal pelas mãos da família, para ouvirem os agradecimentos de Pedro Adão e Silva pela compra no valor superior a EUR1 milhão e pela decisão de colocar a obra de arte à fruição pública. Depois de uma “lamentável falha dos serviços” do Estado, como o responsável pela pasta da Cultura classificou a saída da obra do país, foi por um triz que não se perdeu uma peça relevante do património do Estado. Em menos de 72 horas, a pintura seria comprada na feira de arte e antiguidades TEFAF, em Maastricht. O que não se sabia é que, por trás da decisão, estava uma afirmação regional - e pessoal -, a “Descida da Cruz” viria para Portugal, sim, mas para ficar no norte, no Museu Nacional Soares dos Reis. Em 2009, Pedro Pinto foi condenado a 17 anos de prisão e Aurora a 14 anos. Em causa estava a acusação de terem corrompido um agente liquidatário a troco de uma comissão Avelino - que prefere ser chamado apenas pelo apelido - tem 63 anos e calcula que lhe reste apenas mais uma década de vida profissional plena. Reconhece que o tempo corre contra ele e, por isso, está com pressa. O empresário define-se como sendo o gestor de “um portefólio diversificado de negócios nas áreas do retalho, turismo, cultura e escritórios, com a visão de atrair e reter talento para o território - o grande motor da economia do norte”. Dono da Lionesa Business Hub, em Leça do Balio, “uma comunidade com 7 mil membros, de 47 nacionalidades, 80 mil metros quadrados de escritórios, 120 empresas, 100 mil metros quadrados de espaços verdes e exteriores”. E, desde 2015, também faz parte da sua carteira de investimentos a centenária Livraria Lello, no coração histórico do Porto - um espaço gerido pela mulher Aurora. Eleita em várias ocasiões como “a mais bela livraria do mundo” e transformada pela gestão do grupo numa máquina de atrair mais de um milhão de visitantes por ano, foi comprada com polémica à anterior família proprietária, precisamente a família Lello. No leque de investimentos da família entram ainda 19 imóveis na rua do Loureiro, outros na rua do Cativo, o Teatro Sá da Bandeira, tudo no Porto, e um mosteiro com raízes enterradas no longínquo século XI, em Leça do Balio. Pedro Pinto nasceu em Aguiar da Beira. Conta que fazia quatro quilómetros a pé para ir à escola primária. Vivia com as avós, pois os pais trabalhavam no Porto. Com dez anos foi estudar para a cidade mas, ainda antes, passou pelo Seminário dos Carvalhos, no concelho de Vila Nova de Gaia. “Era normal naquela altura, mas não estive lá nem um ano. Tiveram muita paciência comigo, mas não era aquele o meu destino, sempre fui muito liberal, traquina.” Frequentou o Liceu Alexandre Herculano e seguiu para a Universidade Portucalense, onde se licenciou em Direito. A sorte de estudar Direito Uma sorte ter escolhido aquele curso. “Tive grandes advogados, mas não tinha saído do inferno se não fosse licenciado em Direito, não tenho dúvidas.” O tema volta a estar sobre a mesa, mas é preciso recuar, ganhar fôlego e é Aurora, quem indica o caminho da conversa. Pedro Pinto conta que se conheceram em 1982, quando estavam na faculdade. Ela, mais nova dois anos, andava em Engenharia, ele em Direito e, no café onde iam estudar com os amigos, as conversas sobre leis interessaram-na. Aurora começou a participar até que mudou de curso, tornando-se a melhor aluna de Direito do seu ano, acabando por ser convidada a lecionar. Depois de dez anos de namoro, casaram-se. Nos primeiros tempos, enquanto Aurora dava aulas, Avelino foi-se fazendo gestor. Conta na terceira pessoas: “Se hoje a Queima das Fitas existe e toda a gente a conhece, é porque foi o Pedro Pinto que a criou, em 1982, como um negócio privado, tinha eu 21 anos.” E remata: “Essa é a história da minha vida. Nasci pobre e todo o dinheiro que gastava como jovem, era eu que o ganhava. Cheguei a trabalhar comprando e vendendo produtos, organizava festas e ralis.” Naquela idade, acreditava que “não tinha limites, que o limite era o céu”. O casal começou por investir na restauração: primeiro no Máximo, uma casa de hambúrgueres “de grande sucesso”. Depois, mesmo em frente, no BiBóPorto. Em simultâneo, Pedro Pinto cria a Sociedade Nacional de Leilões (SNL), “largamente inovadora”. “Montávamos cadeiras, tendas, tínhamos aparelhagem sonora, fotografávamos o que vendíamos o que hoje se faz. Estávamos muito à frente nos leilões de bens móveis e imóveis. E, além da inovação, eu tinha o curso de Direito e sempre possuía as características essenciais para desenvolver um negócio: gosto para a relação comercial, o que deu origem ao sucesso”, explica o empresário. Em dez anos, a SNL atingiu “o top do mercado em Portugal”. Foi quando começaram os problemas. “É muito complexo e não gosto de falar nisso”, diz Pedro Pinto. A conversa parece voltar a travar, mas o empresário solta uma frase misteriosa, referindo-se ao fim do processo, concluído em 2021: “A partir do momento em que o assunto está sentenciado, desliga-se. Para mim, o jogo não acaba aos 90 minutos, mas este é um caso em que mal soou o apito final, desliguei.” Na primeira sentença, em 2009, Pedro Pinto foi condenado a 17 anos de prisão e Aurora a 14 anos. Em causa estava a acusação de terem corrompido um agente liquidatário que, a troco de uma comissão, entregava ao casal o leilão de bens de empresas falidas. Recorreram, e o Tribunal da Relação mandou repetir o julgamento. O próprio Ministério Público da Relação considerou que a sentença era excessiva e, no segundo julgamento, foram condenados a penas de cinco anos de prisão. A diferença justifica-se pela contagem dos crimes. Enquanto no primeiro julgamento, cada leilão correspondia a um crime de corrupção, o juiz do segundo optou por reunir tudo. A pena ficou suspensa, isto é, Pedro Pinto não seria preso, apesar de condenado. Mas o “inferno” ainda não acabara, e no recurso, a Relação subiu ligeiramente a pena do empresário, ultrapassando os cinco anos que lhe davam a suspensão da prisão efetiva e determinando que teria mesmo de cumprir pena. Só que, entretanto, os advogados alegaram que os crimes estavam prescritos. E de facto, o Supremo Tribunal de Justiça declarou que os crimes de Pedro Pinto estavam todos prescritos. Aurora foi condenada a um ano e meio por peculato, em 2019. Em 2021, no fim de tudo, foram condenados a pagar EUR900 mil cada um. Apesar de findo o caso, o tema regressa sempre. “Não posso ver tratado assim o trabalho de uma equipa e dos meus filhos, que são apaixonados pelo que fazem. Sempre que há uma entrevista, lá vem o processo. Eles têm o direito de não ter essa sombra em cima deles. E a família tem o direito de dizer: vivi 20 anos num inferno, agora, deixem-me em paz”, desabafa o empresário. Pedro Pinto e Aurora receiam pelos filhos, dizem que António e Francisca “ficam nervosos e incomodados” sempre que se regressa ao assunto: “Eles não percebem porque é que as pessoas não nos entendem e não querem falar do que tentamos construir.” E se é difícil para António falar do processo, a Aurora custa ainda mais. E é pela positiva que tenta abordar o tema: “O melhor do processo foi fazer-nos sonhar mais, mas é muito difícil passar por algo que, mesmo quando parece arrumado, volta sempre. Parece que nada mais importa.” O sonho e a paixão são por isso a senha para Pedro Pinto avançar sobre o que realmente lhe interessa: falar da intervenção do grupo na região norte. Conta que há cerca de três anos discutiram internamente onde deveriam crescer e ficou acordado que Lisboa só seria uma opção depois de conquistadas outras regiões do mundo. E a internacionalização ficou adiada, porque ainda era necessário continuar a apostar a norte. “A família tem uma série de ativos mas, se não houver paixão, nada faz sentido.” Pedro Pinto diz que o grupo fatura, em termos consolidados, EUR28 milhões por ano. “Somos muito pequenos, estamos em várias áreas, mas há uma coerência em tudo o que fazemos.” Os negócios estão organizados em duas grandes áreas: o turismo e a cultura e, por outro lado, o imobiliário, com destaque para o centro empresarial Lionesa. “Era um negócio que não existia. Em 2002, comprámos uma antiga fábrica de sedas e, quando tinha problemas com o processo judicial, era aqui que me refugiava.” Na altura tinha quatro sócios mas neste momento, em todos os negócios, os ativos são totalmente detidos pela família. Na prática, a atividade da Lionesa consiste em procurar investimento estrangeiro que precise de instalações. “Primeiro éramos alfaiates e construíamos escritórios para os clientes. Atualmente, criamos uma atmosfera, porque para desenvolver um talento é preciso ligar-se ao local onde está”, ensina o empresário. “Temos de entender que os jovens saem daqui (região norte) porque não se passa nada. Não são apenas as questões salariais. Todos temos de contribuir para que se passe algo. O lucro não pode ser a principal motivação dos empresários e das empresas. É antes o que dão ao território e o retorno que têm para as pessoas, caso contrário não faz sentido”, garante. Também a Livraria Lello contribuiu, quer em prestígio quer libertando fluxo financeiro. O grupo criou o mecanismo de vouchers em que os visitantes pagam para entrar, mas descontam o valor do ingresso caso comprem um livro. As filas à porta não param. “Com os vouchers transformámos os visitantes em leitores e conseguimos vender cerca de um milhão de livros por ano. E um terço do total que se vende de José Saramago em Portugal, traduzido em várias línguas”, explica Pedro Pinto. “A Livraria Lello não é só nossa, é do Porto”, acrescenta. O grupo tem planos para construir uma torre de 21 metros no edifício ao lado da Lello, com projeto do famoso arquiteto Siza Vieira, apesar de já ter sido contestado pelos serviços da Câmara Municipal do Porto. Transformada em mais do que uma loja, a Livraria Lello guarda na cave objetos de grande valor, como um conjunto de livros antigos, primeiras edições, coleções especiais como as cartas de amor de Bob Dylan, Prémio Nobel da Literatura, ou, mais recentemente, uma Bíblia censurada pela Inquisição espanhola. De onde vem a liquidez necessária para continuarem a crescer? “É uma velha máxima: por ter nascido pobre vais levar toda a vida com esse estigma de onde vem o dinheiro. Ninguém vai à Sonae perguntar de onde vem o dinheiro. Tratem os empresários todos da mesma forma”, responde. Mas não evita a questão: “Só concebo que os negócios se possam desenvolver com financiamento bancário, apesar das dificuldade acrescidas nesta área para os empresários do norte. A Lionesa começou com a aquisição de uma unidade fabril que estava desativada e o negócio cresceu. Hoje temos 100% de ocupação. O negócio cresceu com a receita que gerava. O nosso parceiro financeiro na altura foi a Caixa Vigo, hoje é a Caixa de Crédito Agrícola. Na Livraria Lello passou-se o mesmo. A liquidez vem do dinheiro que os negócios libertam e dos parceiros bancários. Não levamos dinheiro para casa, os lucros são reinvestidos.” Obra-prima a norte Neste puzzle empresarial, como se encaixa uma pintura do século XIX? Pedro Pinto sorri e conta a história com prazer. Diz que ninguém o procurou, que tudo começou porque a família foi a Amesterdão e a Maastricht tratar de projetos associados ao desenvolvimento da rua do Loureiro e que, neste âmbito, estava prevista uma reunião com os organizadores da TEFAF - Feira de Antiguidades, onde a obra-prima de Domingos Sequeira estava exposta, à procura de compradores. “Entre aquela sexta-feira e sábado conheci a revolução provocada pelas notícias do Expresso, fui ver a pintura, e fiquei a pensar qual o impacto, além do investimento num ativo, que o quadro poderia causar no território.” A família decidiu comprar a “Descida da Cruz”, mas, cautelosa, primeiro contactou o Estado, que havia oferecido EUR850 mil pela pintura. “Telefonei ao Pedro Sobrado [presidente da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), instituição que trata do património nacional], dando-lhe conta do que queria fazer. E o ministro da Cultura ligou-nos a agradecer”, revela. Quando perceberam o alívio do Executivo, a compra avançou sem demora. Mas, afinal, para quê? “Comprámos o quadro para poder dizer que fica no Porto!”, assume Pedro Pinto, com um murro na mesa. No clã, a pressa do patriarca é contagiosa e mais do que um descontraído espírito familiar, quando estão juntos sente-se a tensão de quem quer fazer mais “Era querer agitar as águas, [e mostrar que] no norte também podem acontecer coisas destas e que podemos ter um quadro destes no Museu Soares dos Reis”, confirma o empresário, para acrescentar: “Com isso vamos levar mais pessoas ao museu, vamos falar mais do Porto e do norte, pomos a arte na primeira página da comunicação social e as pessoas que aqui vivem apetece-lhes ir ver.” Do que Pedro Pinto não fala é das pressões que terá sofrido para que a pintura ficasse em Lisboa, avança apenas um centímetro sobre o tema: “Às vezes temos de fazer essas coisas. Se não fôssemos nós a comprar, a possibilidade de o quadro ter ficado no Porto era zero e eu sonhava com esse título: fica no Porto.” Aurora, mulher do norte, não se afasta da argumentação do marido: “A aquisição da pintura de Domingos Sequeira reflete o nosso jeito tripeiro de ser. Porque é que o Porto tem sempre de ser uma segunda escolha? O norte tem sempre de provar, não lhe basta ser. Tivemos de nos fazer duros, de dar sempre mais.” No dia 18, a “Descida da Cruz” será apresentada durante algumas horas no Mosteiro de Leça do Balio, comprado pelos Pedros Pinto em 2016. A recuperação do edificado foi entregue a Álvaro Siza Vieira, também ele um ex-líbris do norte. Ao Expresso, o nonagenário arquiteto assume o prazer que o projeto lhe deu. Era por ali que, aos domingos, quando criança, Siza Vieira passeava de bicicleta com a família. E foi este espaço que o guiou. “Não precisei de ir buscar à memória, estava lá. O subconsciente é um bom amigo.” E a obra reflete esta recuperação de tempos e modos que se sobrepuseram. No interior do salão nobre ou das salas que o antecedem, as paredes exibem os sinais de outras épocas: lareiras que já não o são, portas que foram tapadas, janelas redescobertas, traves reerguidas. O que era não deixou de ser, mesmo que já não seja. “A minha proposta foi manter alguma da hibridez que caracteriza o conjunto, o que garante algum encanto e autenticidade, embora não tenha rigor histórico. Interessou-me esta ambiguidade patente, foi um desafio interessante”, revela Siza Vieira. O maior prazer, contudo, está no terreno dos fundos do mosteiro: uma enorme escultura aberta em betão branco, com um peregrino à entrada. Um espaço de respiração, de elevação espiritual. “Este foi o primeiro convite por parte de um cliente para [fazer] uma escultura. Quando era jovem quis ser escultor, mas meu pai disse-me para ter juízo e ele era uma pessoa demasiado encantadora para que eu discutisse. Por isso, este projeto deu-me muita satisfação, independentemente da consideração da qualidade, que será, como sempre, muito variável.” O projeto do mosteiro começou a ser trabalhado em 2018, incluindo ainda a edificação de um anexo, e, com o arquiteto paisagista Sidónio Pardal, inclui a elaboração de um jardim associado ao Caminho de Santiago. Em analogia aos 234 quilómetros que separam Leça do Balio e Santiago de Compostela, será construído até 2027 um túnel com 234 metros, por baixo do jardim e que irá ligar o espaço do mosteiro à Lionesa. A abertura oficial do mosteiro, convertido em centro cultural para despertar o pensamento crítico dos visitantes sobre as questões da atualidade, está prevista para 21 de junho. A entrada será gratuita, ainda que exigindo uma inscrição prévia no site da Fundação Livraria Lello. Horas depois da apresentação, a obra segue para o Museu Soares dos Reis, bem no centro da cidade do Porto, cumprindo o desejo de Pedro Pinto. “É possível que os grandes eventos só aconteçam em Lisboa? Rock in Rio, Web Summit Consegue imaginar o impacto criado se o Papa tivesse vindo ao Porto? O que significaria para esta região e para a Galiza? No Campeonato do Mundo de Futebol vamos ter um único jogo, perfeitamente secundário. Um jogo! É preciso que as pessoas percebam”, argumenta o empresário para justificar a decisão manter a “Descida da Cruz” a norte longe da outra peça de Domingos Sequeira da mesma série, “Adoração dos Magos”, que se encontra em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga. E sobe o tom: “Nunca nenhum primeiro-ministro, Presidente da República ou ministro esteve na Lionesa. Sempre os convidei. Não vêm. Eu ficava ciumento quando ouvia falar de Sines nos telejornais. Nós precisamos de tempo de antena, de prestígio institucional e que conheçam o que estamos a fazer, o que só acontece através da comunicação social. E se tivermos políticos, isso facilita este trabalho.” A ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, foi convidada para estar presente na apresentação da obra-prima novecentista no Dia Internacional dos Museus. Mas também já declinou. Não estará longe, pois comparecerá a uma cerimónia no Museu Grão Vasco, em Viseu, do qual foi diretora. A paixão de Pedro Pinto pelo norte encontra eco nos seus mais próximos colaboradores. Como Rita Marques, ex-secretária de Estado do Turismo do Governo de António Costa e atual presidente da Fundação Livraria Lello. É ela a responsável pelo mosteiro e pela aquisição da pintura de Domingos Sequeira. Ressente-se das dificuldade na abertura de linhas de crédito dos fundos europeus para apoiar os projetos culturais na região e acompanha essa insatisfação com a falta de presença institucional na inauguração do mosteiro. Rita Marques ainda tem a expectativa de que algum representante do Governo se desloque à apresentação da pintura em Leça do Balio. “Se viesse, seria um sinal para as entidades privadas para que colaborassem com a cultura em Portugal.” Explica que ainda decorrem conversações entre a Fundação e o Estado, através da MMP, para afinar os detalhes da relação, que, para já, vai durar entre dois e três anos, período após o qual, as condições terão de ser novamente discutidas. Anuncia que o objetivo é que a pintura circule, não só pelo país como internacionalmente: “Estará exposta no mosteiro durante algumas breves horas. Será um local de passagem, seguindo no mesmo dia para o Museu Soares dos Reis e, a partir dali, vai circular.” Diplomática, Rita Marques nega ter sofrido pressões para que a “Descida da Cruz” ficasse exposta em Lisboa, classificando as “manifestações havidas neste sentido” como “genuínas demonstrações de interesse em receber a obra de arte, o que é positivo”. Confirma que o grupo não tem interesse em constituir uma coleção de pintura, “embora também não estejam blindados contra isso” e reafirma a intenção de exibir a obra-prima em locais disruptivos. Quais? Como? Fazendo a imagem sair das paredes dos museus e chegando às ruas, “através da produção de réplicas e da sua colocação em locais inusitados para despertar a curiosidade e as consciências”. A acompanhá-la no Conselho de Curadores da Fundação Livraria Lello estão personalidades com vocações distintas, que, como explica a presidente, contribuem de forma complementar para cumprir a missão da instituição. Por um lado, o cardeal D. Américo Aguiar, que nasceu mesmo ali em Leça do Balio e responde pelo lado mais espiritual da fundação. Por outro, a vice-reitora da Universidade do Porto, Fátima Vieira, com impacto na vertente das letras, e Luís Araújo, ex-presidente do Turismo de Portugal, dedicado à área da criatividade e da inovação. Mobilizadora das vontades regionais, a presença da “Descida da Cruz” está a ser aguardada com ansiedade na região. No Museu Soares dos Reis, o diretor, António Ponte, mostra-se radiante. “É uma honra receber esta obra, que será uma grande mais-valia para o museu, reforçando a presença de um artista que já existia na nossa coleção. Esperamos que o número de visitantes aumente de forma significativa a partir de 1 de junho, quando será exposta.” Mas, para que a decisão não pareça fruto apenas da vontade dos proprietários, sublinha que a instituição já tem quatro óleos de Domingos Sequeira, além de vários desenhos preparatórios, inclusive de a “Descida da Cruz”, que agora vão sair das reservas. Recorda ainda a estreita relação entre Domingos Sequeira e Vieira Portuense, ambos professores na Academia Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto, que antecedeu a criação da Academia de Belas Artes na cidade. E conclui, afirmando que para expor a obra-prima com o maior destaque será construída uma nova estrutura na sala de exposições de longa duração, no primeiro andar do edifício. “É claramente a obra de Domingos Sequeira mais valiosa do museu e será a peça principal da sala.” Os filhos e o futuro Cumprido o desejo de garantir que esta mais recente e mediática aquisição ficaria a norte, a família de Pedro Pinto e Aurora já tem mais planos à espera de concretização. Ele está no topo do grupo, com a Lionesa; ela administra a livraria; a filha Francisca está na área de turismo e o filho António é responsável pelo marketing. No clã, a pressa do patriarca é contagiosa e mais do que um descontraído espírito familiar, quando estão juntos sente-se no ar a tensão de quem quer fazer mais. “Só faz sentido ter as coisas porque somos os quatro, sempre nós os quatro”, afirma Pedro Pinto. E foi assim que educou os dois filhos desde muito cedo. Quando começaram a participar? “Desde que os meninos sabem ouvir. Parece que não ouvem, mas fica lá.” Garante que tudo “é conversado a quatro” e que, depois, as especialidades e responsabilidades de cada um determinam as decisões. Mas nada avança sem o acordo de todos. Francisca, 28 anos, estudou Economia no Porto, António, 26, licenciou-se em Gestão em Londres. Ambos fizeram-se bons alunos, sem margem para desvios. Antes, andaram no Colégio Luso Internacional do Porto (CLIP), uma escola internacional de excelência, mas Pedro Pinto explica que aquela não foi uma mera aposta de pais preocupados com a educação dos filhos. Algo mais estava por trás da decisão do casal. “Foi uma necessidade para proteger os meus filhos, porque quando foram estudar para esta escola, estávamos a viver o processo judicial. Foi uma altura muito difícil”, assume o empresário. Protegeram-nos, mas algo terá ficado. Atenta, Francisca parece sempre pronta a responder às solicitações profissionais. Sempre a postos. “Sinto que tenho responsabilidade a mais para a minha idade mas, ao mesmo tempo, também sinto que sou eu que a procuro”, afirma, cuidadosa com as palavras. Um pensamento que não deixa de ser curioso para alguém, que quando criança, dizia querer ser presidente da Comissão Europeia. Disponível, mas crítica, Francisca revela que às vezes, em família, chamam ao pai “o sr. ponto da situação”, alguém que quer sempre saber em que fase se encontram os projetos. Alguém que não se esquece do que está por realizar. “Mesmo nas férias, estamos sempre a trabalhar, a conversar sobre o que podemos fazer.” Francisca não se esquece das manhãs em que, reunidos à volta da mesa, depois de ter lido as notícias dos jornais, o pai lhes perguntava o que fariam em determinadas situações. E reconhece a delegação de competências: “Tanto eu como o meu irmão não vemos como uma obrigação trabalhar na Lionesa, é mais como um sonho. Até porque, ele [Pedro Pinto] não nos colocou em posições-fantoche.” António parece mais solto. Tem outra atitude. É o cérebro por trás do Happiness Camp, iniciativa que visa dar mais qualidade aos ambientes de trabalho. Vive em Londres mas regressa a Portugal para dar corpo a este projeto. “A missão do grupo é procurar criar um território mais feliz. Tudo começou logo ao sair da faculdade, quando percebi que os meus amigos se sentiam perdidos e não gostavam do que estavam a fazer e o Happiness Camp visa dar as ferramentas e os recursos necessários para que exista sustentabilidade humana, através do cuidado da saúde mental, da felicidade corporativa, mas também do ambiente, numa abordagem holística”, explica. Como a irmã, assume sentir o peso da responsabilidade. “Tenho medo de não corresponder às expectativas, mas temos a sorte de ter pais que nos dão a liberdade para sermos quem somos”, afirma. Com notas muito altas, António chegou a pensar ser médico, mas garante ter hoje a certeza de que escolheu o caminho profissional certo. No fim das contas, qual o peso da família Pedro Pinto? Questionada sobre o que vale mais, se o nome ou dinheiro, Aurora sorri, quase incrédula. “O nome vale muito mais.” E, assume, essa é a mágoa que ainda carregam, a de o processo judicial ter-lhes marcado o apelido. “A nossa preocupação é que passe para os nossos filhos. É importante que possam sossegar e que nos deixem sermos nós”, conclui, visivelmente sentida. Durante a pandemia, um alfarrabista queixou-se a Pedro Pinto que via a vida a andar para trás, que ninguém lhe comprava nada. O empresário encomendou-lhe 3 mil obras: “Vá buscá-las à cave e fico com elas.” Limpas e organizadas, estão na estante da sala de entrada da moradia, de frente para o mar. Mas não ficou por ali. Mandou comprar envelopes e às visitas dava um livro e pedia que fosse lido. Depois, no sobrescrito, o destinatário teria de colocar um comentário à obra. Só dois cumpriram o pedido. Ficou a frustração e o sentimento de incompreensão. Pedro Pinto não esconde a urgência em fazer e deixar feito. E em ser reconhecido pelo que faz. “Não vale a pena estarmos a imaginar que somos imortais, porque não somos, e ainda bem que somos todos substituíveis”, avança, sem alterar o tom de voz, baixo e rouco. Vai buscar “As Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino, dizendo tratar-se de um dos seus livros de referência, onde se conta a história dos diálogos entre o viajante Marco Polo e Kublai Kan, imperador dos tártaros. Não o refere mas, no último parágrafo, uma passagem parece assentar-lhe na perfeição. “O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.” Avelino Pedro Pinto saberá bem do que Marco Polo fala. Mais do que o livro a que sempre regressa, está-lhe na memória o cheiro do inferno. E também terá sido por isso que já escolheu a morada em que quer ficar quando chegar a hora. Pediu a Álvaro Siza Vieira para lhe desenhar o jazigo, a ser construído no cemitério em frente do Mosteiro de Leça do Balio. Porque, mesmo quando tudo acaba, há que se deixar um sinal do que se fez, ter uma palavra a dizer no que se fará. E Pedro Pinto não desistiu da sua palavra. Com Rui Gustavo