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INOVAÇÃO - PRR FINANCIA UM FUTURO INTELIGENTE

Jornal de Notícias

2024-05-13 15:16:05

Está a nascer um futuro inteligente à boleia do PRR Um dispositivo que devolve a voz a doentes, outro que gere o trânsito no espaço, uma fábrica de casas, um esquentador a hidrogénio verde e até uma suculenta tarte de morango feita com insetos. Estes são alguns dos projetos que estão a ser desenvolvidos pelos consórcios de empresas e universidades com apoio da “bazuca”, as agendas mobilizadoras. À medida que avançam, emerge a relevância da inteligência artificial e da robótica. Vão criar 18 mil empregos e investir 77 mil milhões de euros até 2026 Inovação - O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) apoia 52 agendas mobilizadoras para inovação. São consórcios de empresas e universidades, nalguns casos com entidades públicas, que se juntaram para criar produtos inovadores de vários setores. Prometem investir 7,7 mil milhões de euros até 2026 e criar 18 mil postos de trabalho. Muitos produtos ainda estão em desenvolvimento até 2026, o que não desmerece a viagem à construção de um futuro onde a robótica e a inteligência artificial (IA) são cada vez mais decisivas. UNBABEL Halo liga-se ao cérebro e dá voz a doentes com ELA Uma das invenções mais surpreendentes é o Halo, do consórcio liderado pela empresa Unbabel, que consegue devolver a voz aos doentes com esclerose lateral amiotrófíca (ELA). A ELA é uma doença degenerativa em que os doentes vão perdendo funções musculares, como a fala. A parte visível do Halo é uma banda branca colocada na cabeça do paciente para fixar os elétrodos que vão enviar as interações do utilizador para uma aplicação. Sempre que alguém fala com o doente, a aplicação dá três caminhos de resposta que o utilizador escolhe através de pequenos movimentos com a sobrancelha. Depois, graças à IA, a voz que se ouve é a do próprio doente e as sugestões de resposta vão-se tornando mais personalizadas. “O momento em que um doente recuperou a sua voz, quando voltou a ouvir a voz que tinha perdido há sensivelmente um ano, foi tão emocional para a nossa equipa que é indescritível”, recordou Paulo Dimas, da Unbable, no encontro anual das agendas mobilizadoras, realizado na Feira. Além do Halo, este consórcio desenvolveu um software que permite aos doentes fazerem fisioterapia à distância através de detetores de movimentos. E ainda um software que ajuda na decisão da alta médica: “A IA classifica os relatórios clínicos para assistir o médico”, esclareceu. Tudo isto tem um financiamento de 51 milhões de euros. DEFINED AI Diana, a assistente que deu brilho à Web Summit A IA revolucionou o modo como nos relacionamos com os dispositivos digitais e um bom exemplo disso é a Diana, a assistente virtual criada pela empresa “Defined.AI”, que abrilhantou a Web Summit do ano passado. A Diana foi o ponto de partida para este consórcio do PRR desenvolver um sistema de conversação de IA em português europeu. Através da IA generativa, a máquina recebe as comunicações humanas, compreende-as e responde. Tal como o ChatGPT, mas mais personalizado e adaptado a mais contextos como call centers e aplicações. O consórcio tem um financiamento de 25 milhões de euros do PRR. NEURASPACE Regula o trânsito de satélites a partir do Alentejo Atualmente existem nove mil satélites no espaço. Dentro de seis anos serão cem mil e o risco de acidentes aumenta. A pensar nisso, a Neuraspace criou um software que os evita. A partir da localização de todos os satélites do espaço, o sistema de IA identifica quando e onde se dará uma colisão, quais as melhores manobras para a evitar e ainda recalcula os riscos após a realização de qualquer movimento. “Em agosto vamos ter um telescópio instalado no Alentejo, tudo isto possível graças ao PRR”, admite Carlos Cerqueira, da Neuraspace. O projeto envolve cerca de 20 milhões de euros, dos quais 13 milhões são provenientes do PRR. Criará mais de 20 postos de trabalho. PESTANA Sem barreiras, identifica quem desembarca Um dos projetos mais valiosos das agendas mobilizadoras para a inovação é o do consórcio liderado pelo grupo Pestana que promete “acelerar e transformar o turismo”. O consórcio prevê realizar um investimento de 152,5 milhões de euros nos próximos dois anos e meio, com a criação de 263 postos de trabalho, dos quais 78 altamente qualificados. Neste caso, trata-se de várias inovações. Uma delas é a introdução de biometria para identificação dos passageiros nos aeroportos, o que permite agilizar processos de embarque e diminuir barreiras, ao mesmo tempo que se reforça a segurança. O mesmo consórcio propõe-se criar quiosques de aluguer de carros para poupar tempo e recursos, ao mesmo tempo que vão reforçar a rede de carregadores elétricos. Para a restauração, foi criado um aplicativo de menu digital, um conselheiro virtual de nutrição personalizado e um guia de experiências gastronómicas, bem como embalagens mais sustentáveis para entregas. O grupo vai usar a dessalinizadora no Alvor, Portimão, para ter água potável. “Temos praticamente todos os projetos em desenvolvimento, quer na dimensão digital quer na da sustentabilidade”, resumiu Gonçalo Marques Oliveira, do grupo Pestana. IMPETUS Braço robótico especializado em acabamento têxtil Entre as agendas mobilizadoras ligadas à indústria do têxtil e vestuário está a Texp@ct, com um conjunto de inovações. O já avançado braço robótico promete auxiliar no processo de produção, dado o avanço que demonstrou a manobrar tecidos. “Trata-se de fazer a confeção têxtil de forma mais automática sem prescindir do elemento humano, mas reduzindo-o nessa parte extremamente complexa que é a fase final da produção”, explica João Nuno Oliveira, do Centro Tecnológico do Têxtil e do Vestuário (Citeve). Este centro tem a coordenação científica do projeto liderado pela têxtil Impetus. O consórcio está a desenvolver 26 produtos e soluções digitais para melhorar a indústria. Outro trabalho interessante que está em curso é o do sistema de identificação e geolocalização de etiquetas que resiste ao desgaste e lavagens. “É uma matéria importante para a questão da sustentabilidade e da pegada ambiental”, identifica João Nuno Oliveira. O Texp@ct tem um investimento de 46 milhões de euros a concluir em dezembro do próximo ano, dos quais 29 milhões de euros são do PRR. REN Abastecer a indústria com hidrogénio verde Entre os objetivos da maioria das agendas da inovação do PRR está a melhoria dos indicadores climáticos de Portugal. No setor da energia, um dos principais projetos é o “H2 Green Valley”, liderado pela REN, que visa criar infraestruturas de transporte, compressão e distribuição de hidrogénio verde a partir de Sines. Serão construídos os primeiros metros de um novo gasoduto totalmente preparado para transportar hidrogénio verde para as indústrias. A criação do parque de hidrogénio é a joia da coroa, mas estão a ser desenvolvidos outros produtos, como o esquentador a hidrogénio, criado pela Bosch para uso residencial. Esta agenda tem dez milhões de euros. DST Laboratório para construir casas rápidas e baratas Em plena crise de habitação, com falta de casas e subida dos preços e rendas, a construtora Domingos da Silva Teixeira (DST) decidiu apostar na construção modular e pré-industrial. Na prática, as estruturas principais das casas deixam de ser erguidas no local e passam a ser construídas em fábrica, sendo depois transportadas para o local onde a casa ficará. O processo poupa tempo e dinheiro. Esta agenda propõe-se a um investimento global na ordem dos 177 milhões de euros, está a desenvolver 18 novos produtos e serviços e vai criar 584 empregos, 50% dos quais de alta qualificação. Para conseguir desenvolver os melhores modelos, a DST criou um laboratório de 4000 metros quadrados para ensaiar construções à escala real. O laboratório vivo surgiu em parceria com a Fundação Norman Foster e vai testar edifícios para cinco fins diferentes: habitação, hotelaria, residências de estudantes, lares de idosos e hospitais. A construção modular é uma das principais esperanças do setor para aumentar a velocidade e diminuir o custo de construção das casas. Maria Luísa Meneses, da DST, revela que o laboratório fica pronto em breve: “Em abril de 2025, acreditamos estar a lançar os nossos primeiros produtos no mercado internacional”. ENTOGREEN Massa, pão, ração e fertilizante a base de insetos Primeiro estranha-se, depois entranha-se. A máxima aplica-se à agenda mobilizadora Insectera, da qual fazem parte 42 empresas lideradas pela Entogreen, que cria produtos à base de insetos. O consórcio quer desenvolver cerca de 100 novos produtos, processos e serviços à base de insetos. Em fábrica, produz-se matéria-prima: moscas-soldado-negro, larvas de tenébrio (ou larvas-da-farinha) e grilos. O composto integra, por exemplo, o fertilizante orgânico que está a ser usado em amendoal e milho. "Só no final das culturas é que podemos ter resultados, mas todos estão a coner bem”, disse Nuno Vinhais, da Entogreen, a empresa que lidera o consórcio. Outro produto inovador é a ração animal para galinhas e porcos. Também há para cães, em parceria com a marca Petmaxi, e tem feito sucesso junto dos canídeos. “Fizemos um teste com cães em que eles têm a sua ração habitual numa bandeja e depois têm esta, e eles escolhem a nossa”, assevera Nuno. Um dos eixos da agenda é a alimentação humana com a introdução de uma pequena porção de farinha de inseto em massa e pão. Nuno Vinhais ressalva que “não se pretende substituir a alimentação normal das pessoas por insetos”, mas apenas “acrescentar mais uma proteína à alimentação”. A Entogreen desafiou o chef Maurício Lage a confecionar diferentes pratos com a massa de inseto. Quem provou a apetitosa massa e a suculenta tarte de morango não se queixou. O PRR permitirá criar três novas fábricas de produção de insetos, além da que já existe em Santarém. Halo da Unbabel, devolve a voz a doentes com ELA Diana, a assistente virtual criada com IA Satélite da Neuraspace que vai ser instalado no Alentejo para gerir o trânsito no espaço Projeto arquitetónico do futuro living lab, da DST, um laboratório para construção modular