MORTE DE RAISI DEIXA IRÃO NA INCERTEZA
2024-05-24 06:00:08

INTERNACIONAL IRÃO Médio Oriente Sem a salvaguarda que Ebrahim Raisi representava para o ayatollah Khamenei, tensões com Israel podem agravar-se Vagou o lugar de delfim do Líder Supremo Três dias depois da inesperada morte do seu Presidente num acidente de helicóptero, o Irão continua à procura de definir os próximos passos. Terça-feira, milhares de pessoas saíram às ruas de Teerão para as cerimónias fúnebres de Ebrahim Raisi, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amir-Abdollahian, e de outras altas figuras, presididas pelo ayatollah Ali Khamenei, entupindo a capital com homenagens ao Presidente caído. As imagens da grande multidão que (na sua maioria) não guardará boa memória do mandato de Raisi e que foi impedida de fazer manifestações que celebrassem a sua morte não afastaram o sentimento de incerteza sobre a direção da política externa da República Islâmica do Irão. As relações com Israel, o arqui-inimigo na região, deterioraram-se drasticamente nos últimos meses, devido à ofensiva israelita na Faixa de Gaza e contra o Hamas, grupo fundamentalista apoiado por Teerão. Previsivelmente, há nas redes sociais quem já aponte o dedo aos israelitas pela morte de Raisi. Tiago André Lopes, professor na Universidade Portucalense e especialista em assuntos internacionais, afirma ao Expresso que os primeiros sinais de Teerão não são encorajadores: desde o silêncio de Khamenei, que “não falou muito sobre o que aconteceu” e “deixa um bocadinho na névoa” a posição do regime à decisão “pouco inteligente” do ministro dos Transportes turco, que questionou aspetos técnicos do helicóptero. E acrescenta que “o facto de a imprensa iraniana estar a usar a noção de martírio , e não de acidente, é sintomático de que vai haver um aproveitamento de retórica para culpabilizar os Estados Unidos e Israel”. “A sociedade iraniana é muito propensa a teorias da conspiração; vive, do ponto de vista político, na ideia de conspirações internas permanentes dos vários órgãos uns contra os outros. Nas redes sociais iranianas já houve discussão sobre se Mojtaba Khamenei, o segundo filho do ayatollah, não estaria ligado ao acidente, por ser quem indiretamente parece beneficiar mais”, refere Tiago André Lopes. Sépideh Radfar, diretora do Centro de Iranologia e professora de História e Cultura Persas na Faculdade de Letras de Lisboa (FLUL), sublinha que “a hipótese de Israel estar por trás deste acidente não foi negada, mas não tem sido muito apoiada oficialmente pelo Estado iraniano”, que fala mais em questões meteorológicas ou técnicas. “Vamos esperar pelo trabalho dos peritos técnicos; até lá, acredito que, na questão da Palestina, a posição iraniana não vai ter grande alteração”, afirma a investigadora. Filho tenta subir na vida A política externa do Irão, sobretudo em relação a Israel, é definida pelo Líder Supremo, Ali Khamenei, que tem 85 anos e uma saúde débil. Raisi era visto por muitos especialistas como favorito a suceder a Khamenei. A sua morte, não deixando um vazio ime diato, torna o futuro mais imprevisível. Apesar de o pai Khamenei ser contra a hereditariedade do poder, vários órgãos internacionais continuam a apontar Mojtaba, ultraconservador radical, como mais provável futuro Líder Supremo ou, em alternativa, Presidente do país nas próximas eleições, marcadas para 28 de junho. O desastre surge pouco depois de uma troca de ataques diretos entre Israel e o Irão, nos quais, entre outras consequências, foi morto o general iraniano responsável pelo apoio aos grupos aliados na zona do Levante, como o Hezbollah ou o Hamas; em janeiro, num incidente semelhante, foi morto o chefe de informação da Guarda Revolucionária Iraniana na Síria, e em abril, também na Síria, foi eliminado um general iraniano. Para Tiago André Lopes, a sequência de mortes e a oportunidade criada pela queda de Raisi dão nova importância às presidenciais e ao papel de Mojtaba no futuro do Irão. “Se o que está a acontecer na Faixa de Gaza continuar com o grau de intransigência da parte de Israel, se a comunidade internacional, nomeadamente os Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, continuar a tentar escudar Israel dos efeitos do sistema internacional, tendo em conta as palavras do ayatollah e as várias posições do regime, não excluiria que, a seguir às eleições, se Mojtaba ganhar o poder, e até para se reforçar, quisesse atacar diretamente Israel”, admite o especialista, caso ocorra novo incidente entre Teerão e Telavive. Sépideh Radfar considera que “o mecanismo político do Estado iraniano é completamente diferente” do dos países ocidentais, “habituado” à queda de altas figuras do regime, sobretudo desde o assassínio pelos Estados Unidos do general Qasem Soleimani, em janeiro de 2020, o que reduz as grandes surpresas na política externa de Teerão. “Existe a ideia, incluindo entre os americanos, de que, quando eliminam uma das personalidades mais importantes do Estado iraniano, isso leva a uma alteração ou mudança de posicionamento. No percurso dos quatro anos, quando qualquer das autoridades morre por acidente ou assassínio, há sempre, automaticamente, outros que a substituem e que não alteram o sistema. Então, na própria política do Irão, seja nacional ou estrangeira, acredito que não vai haver mudanças”, esclarece a docente universitária. Interino está limitado Ambos os especialistas desvalorizam em parte a ascensão do Presidente interino, Mohammad Mokhber, que, explica Radfar, tem “poderes muito limitados até às eleições presiden ciais”. Apesar de ser mais radical do que o seu antecessor, “não é a sua tendência pessoal que vai alterar o que quer que seja na política nacional”. Os peritos concordam quanto à continuidade da aproximação do Irão aos países islâmicos mais próximos, como Iraque ou Arábia Saudita, com os quais relançou relações diplomáticas após décadas de forte crispação, ou com a Rússia ou a China, que prometeu investir montantes equivalentes a milhares de milhões de euros no país. Luto entre nações amigas Como diretora do Centro de Iranologia, Sépideh Radfar elogia este progresso e em particular o papel do anterior ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amir-Abdollahian, que também morreu no acidente. “Durante este curto tempo no ministério, [Abdollahian] relançou a relação de amizade e aproximação com países vizinhos do Irão e da região. Um dos momentos mais importantes foi a abertura de relações com países como o Paquistão e o Egito, com o qual não tinha ligações desde a altura da Revolução Iraniana [de 1979]. Esses países anunciaram um estado oficial de luto”, aponta Radfar. Também Tiago André Lopes considera que o Irão foi capaz de “inverter a animosidade geográfica que tinha”, em grande parte graças a Abdollahian, que “foi o arquiteto dessa participação”. “O Irão voltou a aparecer como potência islâmica, e isso é, obviamente, uma vantagem para o filho do ayatollah Khamenei, que vai ter de agir de forma mais direta e mais concreta”, vinca. hcarvalho@expresso.impresa.pt Mais diplomacia, menos isolamento O especialista americano em segurança nacional Jeffrey Roth sugere o reforço da via diplomática no relacionamento com o Irão, um país com “ambições nucleares” e que constitui “uma força desestabilizadora” no Médio Oriente. “É fundamental uma abordagem multilateral, com o envolvimento dos Estados Unidos, para garantir que o Irão não consegue obter capacidades de armamento nuclear”, afirma, em entrevista ao Expresso. Roth serviu na Guarda Nacional do Exército americano durante duas décadas, chegando à posição de tenente-coronel.com base na sua experiência no terreno, incluindo o destacamento militar no Médio Oriente, alerta que “quanto mais isolarmos e apertarmos o Irão, menos opções lhe dei- “Se o objetivo é um Irão sem armamento nuclear e uma região estável, a nossa abordagem tem de mudar”, defende perito xamos para se sentar à mesa e fazer concessões”. Discurso não mudará A morte do Presidente iraniano Ebrahim Raisi num acidente de helicóptero não deverá alterar a perceção do mundo do regime dos ayatollahs, do mesmo modo que um eventual regresso de Donald Trump à Casa Branca não inviabilizará forçosamente “um novo acordo” sobre o nuclear iraniano, defende. Desde a rutura do acordo em 2018, com a retirada dos Estados Unidos durante a presidência Trump, Teerão aumentou as atividades de enriquecimento de urânio e encurtou o prazo de produção de urânio para fins militares. Mas, para Roth, um segundo mandato de Trump, após as eleições de novembro, não significará necessariamente uma inflexão no campo diplomático. “O Presidente Trump declarou que o acordo era unilateral e que o Irão o tinha violado. Politicamente, isto deixa espaço para negociar um novo acordo que exigiria envolvimento. Além disso, Trump já recorreu ao envolvimento direto para influenciar adversários, como no caso da Coreia do Norte”, diz. Quanto à sucessão na presidência iraniana, com eleições marcadas para 28 de junho, “é pouco provável que haja qualquer mudança na visão do mundo e no apoio do Irão a grupos militantes em toda a região”. Isto deve-se, em parte, ao facto de a Força Quds responder diretamente ao líder supremo, o ayatollah Ali Khamenei, adianta Roth. O especialista lembra que “o Presidente Raisi intensificou o desenvolvimento nuclear, afirmando, ao mesmo tempo, que o Irão não procurava obter uma arma nuclear”. E acrescenta: “Suspeito que este continuará a ser o discurso do regime, em especial se o próximo líder eleito for da linha dura, o que é de esperar”. Reforço da diplomacia O primeiro passo nesse reforço da diplomacia com o Irão “não será direto”, continuando esta a ser feita “através de intermediários, como Omã ou a Suíça, ou em fóruns internacionais/multinacionais em que ambos os países participam”. Essas instâncias poderão centrar-se em “interesses partilhados”, como “a cooperação em matéria de segurança” , por exemplo, no combate ao Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico. “Os Estados Unidos poderiam oferecer benefícios económicos em troca da diminuição de produção de urânio”, sugere. O objetivo, destaca Roth, é começar a influenciar as ações iranianas através de outros meios que não as sanções económicas e a dissuasão militar. Além de Washington, esse reforço da diplomacia também deve emanar de Bruxelas, mas o impulso inicial e um maior sentido de “urgência” terão de vir dos Estados Unidos. Isto porque “a União Europeia pode não ter margem suficiente para motivar o Irão a respeitar plenamente os limites nucleares”. O especialista sublinha a importância da “paciência estratégica” e de “envolvimento matizado”, integrando “todos os instrumentos de poder” numa “estratégia consistente e de longo prazo” para o Irão. “Se o objetivo é um Irão sem capacidades de armamento nuclear e uma região estável, a nossa abordagem tem de mudar”, sustenta, não se voltando a deixar de lado a diplomacia formal, que “pode aliviar alguma tensão na região e reduzir mal-entendidos”. Por “demasiadas vezes” a abordagem atual tem levado a “represálias” e a “uma atitude de confronto”. Armadilha de Tucídides De resto, “a História está cheia de exemplos de mal-entendidos, razão pela qual nos encontramos frequentemente à beira de um conflito”, pelo que “é necessário empenho nas relações com potências adversárias e evitar a Armadilha de Tucídides”. Trata-se de um conceito das Relações LEIA A ENTREVISTA COMPLETA EM EXPRESSO.PT Internacionais que descreve a aparente tendência para a guerra quando uma potência emergente ameaça substituir uma potência hegemónica no sistema internacional. Além da ameaça nuclear, há outras ameaças vindas do Irão, como o desenvolvimento e teste de mísseis balísticos, as ameaças marítimas no Estreito de Ormuz e, mais globalmente, a ameaça à cibersegurança. Para não falar na ameaça interna para os próprios cidadãos do país. “O Irão representa uma ameaça em todas essas frentes e fá-lo para exercer influência internacional. O recurso a ações assimétricas para exercer influência é certamente um sinal dos tempos e não é surpreendente, dado que o Irão se considera rodeado de poderes hostis”, sintetiza Roth. A morte do Presidente Raisi e a sua substituição não permitem antever uma mudança nas relações externas de Teerão, pelo que “o regime continuará a exercer influência e dissuasão” em todos aqueles domínios. Em síntese, “seria sensato empenharmo-nos onde precisamos de exercer influência”, até porque “se não o fizermos, os nossos adversários fá-lo-ão certamente”. Hélder Gomes hgomes@expresso.impresa.pt Sanções impedem manutenção de helicópteros Força Aérea iraniana carece de peças e manutenção. Helicóptero do Presidente estava ao serviço há 30 anos As autoridades iranianas ainda não anunciaram a causa do acidente aéreo que vitimou o Presidente, Ebrahim Raisi, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amir-Abdollahian, e seis outras pessoas, domingo à noite, nas montanhas do Noroeste do Irão, junto à fronteira com o Azerbaijão. Apesar de especulação de que poderia haver dedo israelita no caso, a informação existente parece sugerir um problema técnico como causa provável da queda do helicóptero Bell 212, que voava sobre terreno montanhoso em condições atmosféricas muito difíceis. “Não há razão para acreditar em nada mais do que um acidente”, confirmou o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Loyd Austin. Por ironia, poderá ter sido provocado, indiretamente, pelo regime de sanções que o seu país, o Reino Unido e a Europa mantêm sobre o Irão e que o impedem de comprar peças e materiais para a manutenção das aeronaves. Daí que Mohammad Javad Zarif, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, tenha acusado: “Estas mortes irão ser registadas na lista de crimes americanos contra o povo iraniano.” O Irão tem uma frota de aviões e helicópteros envelhecida e decrépita. “É uma metáfora do próprio regime: é velha, não deveria poder voar, e, no entanto, voa, até ao dia em que não”, gracejou Ali Ansari, do Instituto de Estudos Iranianos da Universidade de St. Andrews (Escócia), em entrevista a um jornal britânico. Para um país que se assume como potência regional, está presente em conflitos na região Síria, Iémen, Iraque, Líbano e atacou Israel parece um contrassenso. A Força Aérea iraniana sempre foi um ponto fraco. É composta sobretudo por aviões muito antigos, aeronaves de fabrico americano compradas nos anos 70, ainda antes da Revolução, alguns aviões soviéticos e mesmo Mirage F1 franceses muito velhos. Novos aviões por chegar Moscovo e Teerão terão negociado recentemente o fornecimento de jatos Su-35 ao Irão, mas não há prova de que tenham chegado. Segundo o Instituto Internacional para os Estudos Estratégicos (IISS), um think tank de Londres, “as Forças Armadas convencionais do Irão estão mal equipadas, com armamento muito velho, sobretudo a sua Força Aérea”. Conforme informação veiculada em publicações especializadas verificada pelo Expresso, o helicóptero que transportava Raisi começou a operar em 1994. Teria mais de 30 anos de serviço e muitos milhares de horas de voo. A Cirium, consultora especializada em aviação, calcula que o Irão tenha 62 helicópteros Bell no ativo. “São aeronaves muito utilizadas em todo o mundo, em todo o tipo de operações, e têm excelente desempenho em termos de segurança”, afirmou Carlos Cesnik, professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade de Michigan, a uma publicação americana. A Bell Textron, empresa americana produtora do modelo que caiu, confirmou: “Não temos nenhum negócio no Irão nem fornecemos a frota de helicópteros daquele país.” O panorama não é melhor na aviação civil. Segundo a Cirium, a idade média dos aviões de passageiros usados pelas companhias aéreas iranianas é de 28 anos, mais do dobro da média global. A companhia de bandeira, a Iran Air, tem um Airbus A300 com quase 40 anos. Segundo especialistas, metade das cerca de 300 aeronaves comerciais registadas no Irão estão inoperacionais por falta de peças de manutenção. Vá rias linhas aéreas iranianas estão proibidas de voar para muitos países ocidentais por não cumprirem critérios de segurança. Desde a Revolução de 1979 já morreram no Irão mais de duas mil pessoas em acidentes aeronáuticos, segundo o Bureau of Aircraft Accident Archives, uma organização suíça. Drone turco ajudou Em 2015, quando Teerão chegou a acordo com o Ocidente para limitar o seu programa nuclear, Washington relaxou o programa de sanções e o regime iraniano logo negociou contratos com a Boeing e a Airbus para renovar a sua frota, num valor total de EUR40 mil milhões. Em 2018, o então Presidente Donald Trump abandonou o acordo e impôs sanções ainda mais severas, que incluem uma longa lista de mais de 600 indivíduos ou empresas e abrangem a proibição de venda de aeronaves ou peças para aviões. As sanções proíbem empresas de fazer manutenção a aeronaves iranianas quando visitam aeroportos estrangeiros. Algumas chegam a negar combustível aos aviões, obrigando-os a viajar com o depósito cheio. Apesar de todo um arsenal de drones suicidas e mísseis balísticos, a capacidade tecnológica das Forças Armadas iranianas parece reduzida. Foi um drone turco, equipado com câmara térmica, que localizou o local do acidente, pois os iranianos não teriam essa capacidade. Tolga Ozbek, especialista turco na área da aviação, confirmou que o “drone foi utilizado porque as condições atmosféricas nessa noite eram muito adversas e não permitiam a operação do helicóptero”. O drone Akinci pode voar a 40 mil pés (mais de 12 mil metros) e atinge velocidades de 360 km. Selcuk Bayraktar, um dos donos da empresa Baykar, que produz o drone Akinci usado no Irão, e cunhado do Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, explicou segunda-feira a um canal de TV turco que o drone “chegou a voar a apenas 100 metros acima do solo, sobre terreno montanhoso e em condições muito difíceis: nevoeiro denso, chuva e vento”. José Pedro Tavares Correspondente em Ancara internacional@expresso.impresa.pt A MORTE DO PRESIDENTE IRANIANO ACONTECEU POUCO DEPOIS DE UMA TROCA DE ATAQUES DIRETOS ENTRE ISRAEL E O IRÃO Leia o obituário de Ebrahim Raisi por Carla Quevedo na página 33 Milhares choraram nas ruas de Teerão a morte do Presidente, Ebrahim Raisi FOTO ABEDIN TAHERKENAREH/EPA “Quanto mais isolarmos o Irão, menos opções lhe deixamos para se sentar à mesa”, diz Jeffrey Roth A Força Aérea do Irão sempre foi um ponto fraco. É composta sobretudo por aviões muito velhos HÉLIO CARVALHO