A REALIDADE DA MENTIRA
2024-05-29 09:35:07

No último ano, a mentira imperou e propagou-se no debate público com a benesse de alguns partidos. Numa vida cada vez mais intensa e marcada pela azáfama do dia a dia, torna-se quase impossível acompanhar todas as notícias ao minuto sobre a nossa vida em sociedade. Tarefa que fica ainda mais dificultada pela constante desinformação no domínio público. Alguns tentam fazer manchetes que apenas têm o propósito de iludir os cidadãos. Outros, mais encorajados, truncam textos de forma a transmitir uma mensagem que lhes convém. Como dizia o escritor Mark Twain, enquanto a verdade está a calçar os sapatos, a mentira já deu duas vezes a volta ao mundo. No dia 28 de abril de 2023, foi difundido em diversos canais de informação que o Governo pretendia deixar de tornar obrigatória a licenciatura em Direito para acesso à profissão de advogado. Nunca tal desiderato foi sequer considerado. As notícias especulativas continuaram sobre outras ordens profissionais, uma vez que esta revisão das leis das ordens profissionais foi um compromisso assumido por Portugal, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência. Ainda no último ano, eram difundidas notícias e comentários sobre a possibilidade de Portugal vir a ser ultrapassado pela Roménia e ser o país mais pobre da União Europeia. Foi até a principal bandeira utilizada por toda a direita contra o anterior Governo. Todavia, segundo os dados divulgados pelo Eurostat sobre o desempenho económico dos países europeus em 2023, Portugal não foi ultrapassado pela Roménia. Aliás, Portugal subiu três posições e encontra-se no 18.º lugar em 27 países. Isto significa que Portugal voltou a ultrapassar a Polónia e a Hungria. E nada disto deveria ser uma novidade, uma vez que a economia portuguesa foi das que mais cresceu; 2,3 por cento. Já recentemente, o último episódio de uma profunda desinformação prendeu-se com o alívio do IRS. Numa tentativa de açambarcar com os louros todos, o atual Primeiro-ministro anunciou, no encerramento do debate sobre o Programa de Estabilidade, que o Governo iria fazer uma redução de 1.500 milhões de euros em sede de IRS. Uma desonestidade brutal, tendo em conta que, destes 1.500, apenas 200 milhões de euros são da responsabilidade do atual executivo. A desonestidade foi tal que o diretor do jornal Expresso sentiu-se na obrigação de pedir desculpa aos seus eleitores por ter noticiado este embuste do atual Governo PSD/CDS. Sem terem aprendido a lição de que “a mentira tem perna curta”, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, protagonizou mais um episódio, procurando alarmar os portugueses, dizendo que as contas públicas «estão bastante piores» e que existe um «elevado défice orçamental», após serem conhecidos os dados da Direção Geral do Orçamento (DGO) para o primeiro trimestre do ano. No entanto, os cálculos elaborados pela DGO são na ótica da Contabilidade Pública, que regista apenas as entradas e saídas de dinheiro dos cofres do Estado. Portanto, o que interessa para o cálculo do défice - e para a União Europeia - são os dados em Contabilida - de Nacional, que incluem os compromissos assumidos pelo Estado. Ou seja, compromissos assumidos em 2023 são contabilizados para o défice apenas nesse ano, mesmo que pagos no ano de 2024. Logo, quando o ministro afirma que o país tem um défice de 600 milhões de euros no primeiro trimestre nada terá a ver com o resultado do défice do ano de 2024. A título de exemplo, em 2018, o défice do 1.º trimestre era de 400 milhões de euros (0,8 por cento do PIB), mas o défice global anual foi de apenas de 0,3 por cento do PIB português. A nossa responsabilidade, enquanto democratas convictos, é defender a verdade, em qualquer circunstância, combatendo constantemente as informações falsas e a desinformação. A todos nós exige-se mais! * Licenciado em Contabilidade (ISCA-UA); Mestrando em Gestão (Universidade Portucalense); Presidente de Concelhia da JS Aveiro Compromissos assumidos em 2023 são contabilizados para o défice apenas nesse ano, mesmo que pagos no ano de 2024 João Sarmento