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TUBARÕES E MERCÚRIO

Diário de Coimbra

2024-06-02 08:34:05

Senhor Diretor, O filme “Tubarão”, de Steven Spielberg, é de 1975, mas mantém-se perfeitamente actual, não só porque os tubarões causam estragos em banhistas, sobretudo na Austrália, mas também porque revela o poder da usura e do lucro: no filme, quando o tubarão ataca e faz uma vítima mortal, a preocupação fundamental do mayor local é evitar que a época balnear se ressinta do incidente. Como o conseguir? Ocultando, fazer de conta que nada sucedeu, não reforçar, mesmo que discretamente, a segurança, permitindo que dezenas de banhistas continuem a usufruir dos prazeres dos banhos. Assim seria evitado um desastre, para ele maior, o da debandada das pessoas e dos proveitos financeiros. Lembrei-me deste filme ao ler uma reportagem no “Público” de 19MAI, a propósito da contaminação da ribeira de Grândola, afluente do rio Sado. Comecemos pelos números citados no artigo, de acordo com estudos feitos por investigadores da Universidade de Évora: os sedimentos resultantes da extracção mineira na serra da Caveira (prata, cobre e ouro), que vem desde os romanos até aos anos 70 do século passado, apresentam, em particular, um teor elevado de mercúrio, entre 50 a 130 microgramas por grama, sendo que o valor considerado aceitável é de 0.3; recomenda-se que a partir dos 36, haja medidas imediatas de mitigação. Mas, junto ao principal curso de água, foram registados... 340! Os valores encontrados foram divulgados em 2023. No entanto, a gravidade da situação já era conhecida, agora está quantificada. Perante esta situação, qual a actuação do Presidente da CM de Grândola e da EDM (Empresa de Desenvolvimento Mineiro)? Apesar dos alertas dos cientistas, a indiferença é total: pouco importam os efeitos nas actividades agrícola e pecuária e nos usos domésticos. Prevalecem as receitas do IMI, provenientes do turismo dos que se divertem “a brincar aos pobrezinhos” e que, para tal, constroem empreendimentos de luxo, descaracterizando por completo uma zona de belezas naturais e que parece ter um destino semelhante ao que o Algarve, há anos, já conhece. As torres de Troia, à semelhança das de Ofir, foram um primeiro sinal, a privatização de praias é o próximo passo. Liberdade de imprensa e serviço público não interessam a autarcas deste tipo; ocultam, negam, e mentem, quando são denunciadas as omissões. Entretanto, daqui a alguns anos, alguém estará a estudar os efeitos, em termos de saúde pública, sabendo-se quão nefastos são aqueles valores da presença de mercúrio nas águas que afluem ao rio Sado. Coimbra Pereira Bastos