REPORTAGEM - “QUANDO DECIDI TIRAR ENGENHARIA DEVEM TER ACHADO QUE ERA TOLINHA”
2024-06-03 05:00:07

Sucesso Há cada vez mais mulheres na área tecnológica, mas ainda é preciso mudar mentalidades. Geek Girls partilham histórias inspiradoras de quem venceu no setor marta.neves9jn.pt Estudaram engenharias numa altura em que as salas de aula eram dominadas por homens. Mas aos poucos foram ganhando terreno e protagonismo na área das tecnologias. Todavia, e mesmo que as mulheres estejam cada vez mais presentes no setor, ainda consideram “que é preciso mudar mentalidades”. Até porque, feitas as contas, os salários deles continuam a ser mais altos cerca de 18%. Foi precisamente para dar a conhecer e juntar mulheres da área tecnológica que nasceu no Porto a comunidade Geek Girls Portugal. O foco está na organização de encontros regulares que sirvam de “envolvimento, inspiração e capacitação” das mulheres. A nível nacional, o grupo terá cerca de 300 seguidoras, 20 das quais são embaixadoras. Os percursos são distintos, mas todas são fonte de motivação. CAROLINA FERNANDES “Saiam da zona de conforto” Carolina Femandes, 41 anos, é natural de Esposende e vive no Porto. Amãe de Lourenço, de 11 anos, que também já lida com programação desde os três, é uma das embaixadoras das Geek Girls e fala com tanto entusiasmo daquilo que faz, que quase convence o mais cético a enveredar pelo mundo do software. Foi com 17 anos que entrou na Faculdade de Engenharia do Porto. A menina “que sempre teve boas notas” recorda-se que foi à faculdade acompanhada pela mãe, que “teve de assinar os papéis de inscrição no curso por ser ainda menor de idade”. Carolina seguiu Engenharia Eletrotécnica, com formação no ramo da Automação, Produção e Eletrónica Industrial. “Éramos seis raparigas entre 236 pessoas”, recorda, contando que na altura “gostava de robôs”. Quando acabou o curso, começou a trabalhar como engenheira de qualidade na Sonae, do ramo não alimentar. “Avaliava a qualidade de tudo o que fosse eletrónico, mas também de pratos, panelas, tendo-me tornado especialista em brinquedos”, sorri. Ali trabalhou durante 16 anos. Até que, há dois anos, tornou-se “gestora de projeto”. E descreve: “Imagine uma sande, em que na parte de cima estão os clientes e na de baixo os developers [programadores] . Estou no meio, sou a carne, a parte gostosa”, explica, enquanto soltou uma gargalhada. Na empresa onde trabalha, as mulheres ainda estão em minoria, são “20 para 80 homens”. Mas Carolina garante que na área da programação “as mulheres dão dez a zero aos homens”, porque “são muito atentas aos detalhes, são mais cuidadosas”. No sexo masculino, elogia o facto de “não serem complicados”. Independentemente das qualidades, Carolina regista que “continuam a ser mais homens nos cargos de chefia”, considerando que, por conta dessa “disparidade", ainda é preciso “mudar mentalidades”. Por isso é que há dois anos e meio entrou para as Geek Girls: “ A filosofia não é o feminismo, mas sim ajudar outras mulheres a progredirem, a empoderá-las”. Àsjovens que, tal como ela, adoram “a Matemática e a Física” deixa o conselho: “Não se inibam com o mundo azul e rosa, sigam o coração e saiam da zona de conforto”. SUSANA SILVA Seguiu pisadas do pai e a filha vai atrás Lembra-se que teria sete anos quando, nos tempos livres, começou a acompanhar o pai, inspetor de qualidade, a visitar fábricas. E por isso Susana Silva, da Maia, hoje com 41 anos e formada em Engenharia Química, sempre acalentou o sonho de trabalhar também ela numa fábrica. Depois do curso, arranjou emprego na Sonae Indústria, “numa altura em que o software passava por uma transformação digital e o trabalho, muito físico, ainda era ocupado 99% por homens”. Seguiu-se a experiência numa outra empresa que “celebrava a paridade”. Já na Criticai Manufacturing, Susana comenta que não nota a disparidade, mas a verdade é que num universo de 450 trabalhadores existem 350 homens e 100 mulheres. A mãe de Sofia, de 11 anos, e de Tiago, de 6, é gestora de projeto - ou melhor, “project manager”, como diz - de uma equipa de “13 pessoas, onde quatro são mulheres”. Neste universo das tecnologias, as expressões em inglês predominam. Visto de fora, o que fazem parece um mundo de códigos impenetrável ao mais básico utilizador de software. Mas quando se ouve falar, o trabalho parece um divertido jogo de computador, onde só as “geek”, as aficionadas por tecnologia, conseguem chegar ao fim com sucesso. Enquanto o filho mais pequeno “é mais mexido” e por agora “gosta muito de dança”, a mais velha “diz muita coisa”, mas ainda não sabe ao certo o que quer ser. A mãe, que os deixa “experimentar muita coisa”, lá vai dizendo que Sofia já se estreou na programação. No encontro das Geek Girls, a menina foi de sorriso rasgado acompanhar Susana. Pode ser que um dia também siga as pisadas da mãe... SÔNIA ARAÚJO “É uma área com muitas saídas” Sónia Araújo, 49 anos, natural de Jovim, Gondomar, defende que as mulheres têm mais sensibilidade para lidar com as situações do dia a dia. Mas descarta a ideia de que o mundo das tecnologias é mais destinado aos homens. “Isso tem a ver com a personalidade de cada um. Não tem nada a ver com masculino ou feminino”, sintetiza. Sónia conta que “desde sempre” gostou muito da área dos computadores, embora diga que veio “calhar a esta área por exclusão de partes”. Ainda no Secundário, seguiu um curso técnico-profissional de Informática de Gestão, que por ser “mais intensivo e quase profissional”, deu ainda mais vontade de seguir a área. E assim foi. A aluna “aplicadinha” acabou por trocar o curso de Informática e Matemáticas Aplicadas, na Universidade do Minho, pelo de Engenharias de Sistemas, na Universidade Portucalense, para cumprir a vontade dos pais de a ter “mais perto de casa”. Isto, numa altura em que “caloiras mulheres nas engenharias eram muito poucas”. Findo o curso, Sónia seguiu para um estágio numa startup “a convite de um professor”. Agora, tal como no seu tempo de estudante, a mãe de Mariana, de 21 anos, e de Gabriela, de 17, salienta que as tecnologias “são uma área com muitas saídas profissionais”. Ainda que lá por casa tenha vingado o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”: Mariana seguiu Gestão e Gabriela está “inclinada” para as Artes. A Sónia resta a consolação de ter o afilhado, Tiago, a seguir-lhe as pisadas, como engenheiro de software. A trabalhar num mundo dominado por homens, Sónia confessa que “só uma única vez” ouviu um comentário menos feliz por parte de um cliente. A “geek” que era da programação e passou para a gestão de projeto realça ainda o facto de trabalhar numa área onde “cada vez mais surgem profissionais em reconversão de carreira, como fisioterapeutas ou psicólogas, que aqui encontram uma oportunidade de trabalho”. Aliás, nos encontros das Geek Girls, Sónia adora ouvir “as histórias inspiradoras, sobretudo de quem fez transição de carreira e está a começar de novo”. SARA SANTOS “Passei a ganhar três vezes mais” Uma má nota a Física fez Sara Santos, catequista e voluntária junto dos sem-abrigo, tirar o curso de assistente social. Mas ela sabia que, por mais digna que fosse, a profissão não a fazia feliz. Foi então que, com 27 anos e “já casada”, decidiu voltar à faculdade, dedicando-se em exclusivo aos estudos durante três anos. Pelo meio nasceu a filha, Rita,hojecoml2anos“ejá uma minigeek”, confessa a sorrir. Sara, de 40 anos, recorda-se até hoje da felicidade que sentiu quando assistiu à primeira aula de álgebra no Instituto Superior de Engenharia do Porto. E conta, orgulhosa, que mal acabou o curso teve imediatamente trabalho numa empresa: “Só lhes pedi 15 dias de férias antes de começar”. A facilidade com que se arranja emprego nesta área “marca a diferença”, embora Sara admita que “o mercado já não está como há seis anos”. Ainda assim, reconhece que ter deixado de ser assistente social e ter tirado o curso de Engenharia Informática fez com que passasse a ganhar “três vezes mais”. “Quando decidi tirar Engenharia, devem ter achado que era tolinha da cabeça”, observa, garantindo que “foi a melhor decisão” que tomou. Apesar de “geek girl”, a mãe Sara, em casa, é perentória: “Não há telemóveis, nem tablets, nem se vê televisão às refeições. Os perigos existem e os ecrãs acabam por ser viciantes”. E explica: “A Rita só teve telemóvel quando foi para o 5.° ano, mas todo bloqueado com as restrições parentais. E há dias tive de chamar a atenção de outros pais, porque agora a moda é o cyberbullying através do WhatsApp". E se dúvidas houvesse que Sara, também ela embaixadora das Geek Girls Portugal, tem uma história inspiradora, basta ver que o marido, formado em Engenharia Química, está também agora a tirar o curso de Engenharia Informática...» Nasceu em 2010 A comunidade Geek Girls Portugal nasceu em 2010, promovendo encontros regulares. O mais recente aconteceu na Criticai Manufacturing, na Maia, e juntou cerca de meia centena de mulheres. Mais abrangente A partir de 2016, a comunidade assumiu uma “missão mais abrangente”, promovendo, além de encontros, formações, “sessões de sensibilização em escolas para inspirar jovens mulheres, e mentoria para apoiar o desenvolvimento e progressão profissional de mulheres na área tecnológica”. INSPIRADORAS. Sara Santos, Carolina Fernandes, Sónia Araújo e Susana Silva: quatro percursos de sucesso num meio tradicionalmente masculino FOTO JOSÉ CARMO. GLOBAL IMAGENS Marta Neves